WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Delicadeza de Não Julgar
Foi com uma frase de Carl Jung que eu me deparei hoje. Dessas que parecem pequenas, mas abrem um corredor inteiro por dentro da gente: “Pensar é difícil, por isso a maioria das pessoas julga.”
Eu leio muito, filósofos, poetas, cientistas, artistas, pensadores da espiritualidade, todos aqueles que contribuíram e ainda contribuem com suas ideias para ampliar a compreensão humana em tantos campos do saber. E não raras vezes, ao invés de me deter no todo do que esses mestres disseram, eu me pego morando no sentido de uma frase, como quem encontra uma concha no meio da praia e, em vez de olhar o mar inteiro, encosta o ouvido naquele único rumor, certo de que ali há um oceano.
A frase de Jung teve hoje esse peso. Ela não acusa com violência; ela revela com delicadeza firme. Porque pensar exige demora. Exige silêncio. Exige o desconforto de não saber. Pensar obriga a gente a sustentar o mundo aberto, sem fechá-lo apressadamente. O julgamento, por sua vez, muitas vezes é uma resposta rápida à nossa ansiedade diante da complexidade. Ele simplifica o outro para que a mente não se canse, para que a alma não se desinstale, para que não precisemos rever as próprias certezas.
Vivemos num tempo de respostas imediatas, de posicionamentos instantâneos, de opiniões formadas antes mesmo de a escuta amadurecer. Não é a brevidade que empobrece, afinal, foi uma frase curta que me trouxe até aqui; mas a superficialidade com que, tantas vezes, nos contentamos. O problema não está no tamanho das palavras, mas na falta de profundidade com que as habitamos.
O julgamento, muitas vezes, não é sobre o outro, é sobre nossa necessidade de controlar o incerto. É o medo vestido de opinião. É a ansiedade disfarçada de convicção. Quando não suportamos a complexidade, reduzimos pessoas a rótulos: bom ou ruim, certo ou errado, digno ou descartável. E nessa redução, algo essencial se perde: a humanidade, que é sempre maior do que qualquer recorte.
Pensar, ao contrário, é um ato de coragem mansa. É aceitar que a verdade raramente cabe inteira nas nossas mãos. É reconhecer que quase todo ser humano carrega uma história que não aparece na superfície. É entender que, antes do ato, existe um contexto; antes da escolha, existe um labirinto de experiências; antes da fala, existe um mundo de silêncios.
Quando volto à frase de Jung, sinto que ela também me alcança, não como uma sentença definitiva sobre quem eu sou, mas como um alerta sobre aquilo que, às vezes, em mim também cede à pressa. Porque eu não estou sempre nesse lugar apressado, mas reconheço que, como qualquer humano, posso escorregar nele. E essa consciência já é, talvez, um primeiro passo para pensar mais e julgar menos.
Ainda assim, há esperança. Porque pensar é difícil, mas é possível. E cada vez que alguém escolhe escutar antes de condenar, compreender antes de rotular, perguntar antes de afirmar, algo se desloca silenciosamente no tecido do mundo. Talvez a transformação não venha em grandes discursos, mas nesses pequenos gestos de maturidade interior. Se o julgamento fecha portas, o pensamento abre janelas. E enquanto houver quem aceite o esforço de pensar com honestidade e compaixão, haverá luz suficiente para atravessar qualquer escuridão coletiva.