WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Um Dia de Domingo

 

Nesse domingo de poucas preocupações, me peguei pensando nessa magia que há nos domingos… Parece que não temos problemas, ou que eles não nos afligem por um curto espaço de tempo, até que chegue a segunda-feira e tudo comece outra vez. O domingo tem essa delicadeza quase sagrada: ele suspende o peso das horas, afrouxa os nós do peito, desacelera os ponteiros invisíveis da ansiedade.

 

Talvez porque o domingo seja uma espécie de trégua.

 

Mas toda trégua carrega em si a consciência de que há batalhas à espreita. O silêncio do domingo não significa ausência de preocupações, apenas o adiamento delas. Elas permanecem do lado de fora, como se respeitassem o descanso, aguardando o primeiro ruído da rotina para bater novamente à porta. E é justamente nesse contraste entre a calmaria provisória e a inquietação anunciada que percebo o quanto permitimos que o amanhã invada, tantas vezes, a serenidade do agora.

 

Lembrei-me, então, de uma frase atribuída a Billy Graham: “Preocupação não muda o futuro, apenas tira a paz do presente.” Há uma verdade silenciosa nisso, dessas que não gritam, mas ecoam. A preocupação é uma visitante insistente. Bate à porta antes do tempo, senta-se à mesa antes da hora, e insiste em falar de cenários que talvez nunca se concretizem.

 

Mas o que é preocupar-se?

 

É ocupar-se do que sequer aconteceu. É emprestar energia a sombras que ainda não têm corpo. É viver antecipadamente dores que, na maioria das vezes, jamais se materializam. Digo sempre aos meus que a maioria das coisas com as quais nos preocupamos nunca chegam a acontecer. Sofremos por probabilidades mínimas, por suposições frágeis, por futuros imaginados em tons mais escuros do que a realidade costuma pintar.

 

E é verdade: não é possível desincumbir-nos completamente da preocupação. Isso é humanidade. Sentimos, projetamos, tememos. A mente tenta proteger o coração antecipando riscos, desenhando mapas de um território que ainda nem sabemos se precisaremos atravessar. A preocupação nasce, muitas vezes, do instinto de cuidado. Mas quando ultrapassa o limite da prudência, ela deixa de ser proteção e passa a ser cárcere.

 

É aí que a frase de Billy Graham ganha profundidade: preocupar-se não altera o curso do que virá, mas altera profundamente o modo como vivemos o agora. O futuro continuará sendo futuro, com ou sem nossa ansiedade. Mas o presente, este instante frágil e precioso, pode ser esvaziado pela inquietação constante.

 

Talvez por isso os domingos tenham algo de música antiga tocando ao fundo. Como naquela canção eternizada na voz de Tim Maia, quando ele cantou: “faz de conta que ainda é cedo”. Há nessa frase uma espécie de permissão poética para adiar o peso, para prolongar a leveza, para dizer ao coração que ele não precisa se apressar rumo às angústias do amanhã. “Faz de conta que ainda é cedo” é quase um convite espiritual: viver o agora como se houvesse tempo suficiente, porque, para este instante, há.

 

Se o futuro é um território desconhecido, o presente é o único solo real onde podemos pisar. E há uma coragem silenciosa, não apenas aos domingos, mas em cada amanhecer, em escolher viver este instante com inteireza. A vida não se resume a uma transição entre um domingo leve e uma segunda-feira pesada; ela é feita de sucessivos “agoras”. Sempre haverá responsabilidades, incertezas, recomeços. Eles fazem parte da travessia. O que nos define não é a ausência de segundas-feiras, mas a forma como decidimos caminhar apesar delas.

 

Talvez a verdadeira maturidade espiritual esteja em reconhecer que nem tudo está sob nosso controle, e nunca esteve. E, nesse reconhecimento, nasce a fé. Fé em Deus, que vê o todo quando só enxergamos fragmentos. Fé de que aquilo que nos inquieta hoje já é conhecido por Ele. Fé de que o amanhã não é um vazio à deriva, mas um tempo que também está sob cuidado divino.

 

Confiar não significa cruzar os braços diante da vida. Significa agir no que nos cabe e entregar o que nos ultrapassa. Significa compreender que há limites para a nossa força, e que isso não é fraqueza, é condição humana.

 

E quando aprendemos a confiar um pouco mais na vida, e um pouco menos nos medos que inventamos, descobrimos que a serenidade não nasce da ausência de problemas, mas da recusa em permitir que eles nos habitem antes da hora. Descobrimos que a paz não é a negação das dificuldades, mas a escolha consciente de não permitir que elas ocupem o espaço que pertence à esperança.

 

Que o domingo, então, não seja apenas um dia da semana, mas um símbolo. Um lembrete de que a paz é sempre possível quando deixamos o amanhã descansar onde deve estar: nas mãos de Deus, e no tempo que ainda virá.

 

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 22/02/2026
Alterado em 22/02/2026
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