WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Links
Textos

Entre a Técnica e a Alma: O Dia em que Jung Me Lembrou de Ser Humano

 

Hoje, mais uma vez em poucos dias, me vi parado diante de uma citação de Carl Jung, esse fundador da psicologia analítica.

 

Talvez o retorno para um novo encontro com Carl, tenha se dado pelo dia frustrante que tive ou, mais precisamente, pelos encontros frustrantes que o dia me trouxe. Conversas atravessadas, expectativas desalinhadas, respostas que não ofereci como imaginei. Por um momento, talvez eu tenha me esquecido de que há dias luminosos e dias opacos, dias que confirmam nossas certezas e dias que nos expõem às nossas próprias limitações.

 

E foi aí então, quase como um sussurro necessário, reencontrei algumas de suas palavras: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

 

Por um instante fiquei em silêncio. Não por falta de entendimento, mas porque certas frases não se explicam, elas nos atravessam.

 

Longe de desprezar o conhecimento, Jung o reconhece como indispensável. Estudar é um ato de responsabilidade. Dominar técnicas é um gesto de zelo com aquilo que fazemos no mundo. O saber amplia horizontes, protege contra a imprudência, oferece instrumentos para agir com discernimento. Ele dignifica qualquer ofício, qualquer missão, qualquer vocação humana.

 

O risco não está no conhecimento.
O risco surge quando ele se transforma em abrigo contra o outro.
Quando a teoria vira escudo.
Quando a técnica se converte em máscara.
Quando o saber deixa de ser ponte e passa a ser muro.

 

Há uma distância sutil, e decisiva, entre dominar algo e deixar-se tocar por alguém.

 

Dominar pressupõe controle.
Tocar uma alma pressupõe abertura.

 

E ninguém controla aquilo que é humano sem, ao mesmo tempo, reduzir sua complexidade.

 

Porque tocar uma alma humana não é executar um protocolo.
Não é aplicar um método com precisão matemática.
Não é conduzir um raciocínio como se conduzisse uma máquina previsível.

 

É entrar em território vivo.

 

É reconhecer que, diante de nós, há alguém que sente, que teme, que espera, que carrega histórias invisíveis. E histórias não se resolvem apenas com fórmulas.

 

A título de exemplo, e apenas como ilustração, pois isso se aplica a toda relação humana, no campo jurídico podemos enxergar essa tensão com clareza.

 

O juiz, idealmente, cultiva intimidade com as leis e caminha com familiaridade pelos precedentes, como quem percorre trilhas abertas pela experiência coletiva.
O advogado refina estratégias processuais com rigor intelectual e sensibilidade, buscando caminhos possíveis dentro das formas do processo.
O promotor aprofunda-se na técnica acusatória com consciência da gravidade que envolve qualquer imputação.

 

Assim seria o horizonte desejável.

 

Contudo, não raro nos deparamos com distorções, arbitrariedades, decisões ou acusações que se afastam do sentido maior de justiça, palavras que soam corretas na forma, mas frias no conteúdo. O excesso de formalismo pode endurecer o olhar. O apego cego à técnica pode obscurecer a pessoa.

 

Mas essa reflexão não pertence apenas aos tribunais. Ela ecoa na medicina, na educação, na política, na psicologia, nas relações familiares. Em qualquer espaço onde alguém detenha conhecimento e outro traga vulnerabilidade.

 

Ser “apenas outra alma humana” não é abdicar da autoridade do saber; é lembrar que ele não nos coloca acima de ninguém.

 

É reconhecer que toda função social, por mais elevada, é exercida por alguém igualmente limitado.
Que toda decisão, por mais fundamentada, incide sobre vidas concretas.
Que toda palavra, por mais técnica, alcança corações.

 

Talvez Jung estivesse nos convidando a um tipo mais alto de maturidade: aquela em que o conhecimento não nos endurece, mas nos torna mais conscientes do peso que carregamos ao interagir com o outro.

 

Porque, no instante decisivo, aquele momento em que alguém se expõe, sofre, confia ou teme, nenhuma teoria sustenta sozinha o encontro.

 

O que sustenta é a presença.

 

E presença é aquilo que acontece quando deixamos de nos proteger atrás do saber e nos permitimos estar, verdadeiramente, diante do outro, como se estivéssemos não em posição de superioridade, mas em condição compartilhada.

 

Agora, revendo o que me ocorreu hoje, percebo que o conhecimento me serviu para compreender o que me frustrou, para analisar as circunstâncias, identificar as falhas, reconhecer os desencontros. Mas foi a sensibilidade que, ao menos neste dia, me conduziu a tratar o outro com serenidade, com contenção, com humanidade.

 

Não me deixei arrastar pelo impulso.
Não transformei frustração em aspereza.
Não converti expectativa frustrada em rigidez.

 

Talvez esse tenha sido o verdadeiro aprendizado do dia.

 

O saber me explicou o que aconteceu.
Mas foi a alma, simplesmente humana, que escolheu como responder (ou não responder).

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 25/02/2026
Comentários