WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Entre o Dizer e o Ouvir
Lendo hoje a biografia de Jacques Lacan, que a partir da década de 1950 reinventou os caminhos da psicanálise ao reler Freud sob novas lentes, recolocando o inconsciente no campo da linguagem, deslocando conceitos, tensionando certezas, e reconhecendo também a marca que deixou na própria psiquiatria, visitei alguns de seus pensamentos e me deparei com esta constatação:
“Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou.”
Tão simples.
Tão abissal.
Há frases que não se impõem pelo peso das palavras, mas pela vertigem que abrem. Esta é uma delas. Porque nos retira do conforto da intenção. Porque nos lembra que a comunicação não é posse, é entrega.
Ao falar, abrimos mão da soberania sobre o sentido. A palavra sai de nós como intenção, mas chega ao outro como interpretação. No instante em que é dita, já não nos pertence inteiramente. Ela passa a habitar o território do outro, onde será atravessada por memórias, afetos, medos e expectativas que desconhecemos.
O outro não nos escuta apenas com os ouvidos.
Escuta com a infância.
Escuta com as feridas.
Escuta com as ausências.
Entre o que se diz e o que se ouve há um intervalo invisível, um hiato onde o inconsciente opera silenciosamente. A linguagem não é um fio direto entre duas consciências; é um labirinto onde cada um caminha com seus próprios fantasmas.
Talvez seja por isso que tantas relações se desencontrem não por falta de palavras, mas por excesso de interpretações. Falamos amor e alguém escuta cobrança. Falamos cuidado e alguém escuta controle. Falamos silêncio e alguém escuta rejeição.
O sentido quase nunca chega intacto.
E, no entanto, seguimos falando.
Há uma coragem quase trágica nisso: saber que nunca controlaremos completamente o que o outro compreende, e ainda assim insistir no diálogo. Falar é confiar na possibilidade de encontro mesmo sabendo que ele será sempre imperfeito.
Talvez o verdadeiro exercício não esteja apenas em escolher melhor o que dizemos, mas em escutar com mais responsabilidade. Porque também nós deformamos o que ouvimos. Também nós completamos frases com nossos medos.
No fundo, somos tradutores falhos de mundos interiores que jamais se coincidem plenamente.
E talvez a beleza esteja exatamente aí:
não na transparência absoluta, que é impossível,
mas na tentativa contínua de nos aproximarmos apesar do abismo.
Entre o que digo e o que você escuta existe um espaço.
É nesse espaço que nascem os mal-entendidos.
Mas é também nele que pode nascer a compreensão.
Porque compreender talvez não seja captar o sentido exato da palavra alheia, mas aceitar que há sempre algo que escapa e, ainda assim, permanecer. Permanecer no diálogo, permanecer na escuta, permanecer no esforço de traduzir o outro sem reduzi-lo a nós mesmos.
E foi nesse sábado, silencioso e reflexivo, ao percorrer as ideias de Lacan, que percebi: a linguagem não é um instrumento de controle, mas de encontro imperfeito. Talvez esse tenha sido o maior ensinamento do dia, que falar é um ato de entrega e escutar é um ato de responsabilidade.
Se quase nunca dominamos o que o outro escuta, ao menos podemos cultivar a delicadeza de reconhecer o abismo e escolher, apesar dele, continuar construindo pontes.