WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Nuvens por Fora, Perguntas por Dentro

 

Era um voo de São Paulo para o Rio. Uma hora, talvez menos. O tipo de trajeto que a maioria das pessoas atravessa no automático, olhos no celular, fone no ouvido, a paisagem lá fora ignorada como se nuvens fossem uma paisagem comum demais para merecer atenção.

 

Sentei. Acomodei o que tinha para acomodar. E foi então que percebi o homem ao meu lado.

 

Não era jovem. Talvez dez anos a mais que eu. Tinha nas mãos a tranquilidade de quem já não precisa se provar para ninguém, e nos olhos aquela qualidade de presença que os anos só concedem a quem os viveu com alguma seriedade. Ele segurava uma revista aberta, não a folheava, não pulava páginas à procura de algo mais interessante. Apenas lia. Com aquela atenção rara que parece, ela mesma, uma forma de respeito pelo que se lê.

 

Foi quando meu olhar pousou na página aberta diante dele.

 

Uma frase. Só uma. Mas do tipo que não pede licença para entrar.

 

"O tempo só amadurece os interessados. O restante apenas envelhece."

 

Não sei de quem é. Não perguntei ao senhor, havia algo no seu silêncio que merecia ser preservado. Mas aquelas palavras ficaram comigo durante todo o voo, enquanto as nuvens passavam lá fora e o avião cortava o ar com aquela indiferença mecânica que as máquinas têm e os homens fingem ter.

 

E fui pensando.

 

Há uma diferença silenciosa entre envelhecer e amadurecer, tão sutil quanto a distância entre respirar e viver, entre passar os olhos por uma página e realmente ler.

 

O tempo, esse artesão indiferente, trabalha com todos. Não escolhe quem vai tocar, não pergunta se estamos prontos, não poupa ninguém de sua passagem. Ele cai sobre os homens como a chuva cai sobre a terra, sem critério, sem favor, sem piedade. Mas é aí que começa o mistério: a mesma chuva que apodrece o que foi deixado ao abandono é a mesma que faz brotar o que foi plantado com cuidado.

 

O que distingue, então, os dois destinos? Não é o tempo. Nunca foi o tempo.

 

É a atenção.

 

Existe uma categoria rara de pessoas que aprendeu a olhar para dentro com a mesma curiosidade com que uma criança olha para uma poça d'água depois da chuva, não para desviar, mas para se ver refletida. Essas pessoas permitem que cada perda as ensine algo sobre o que realmente amam. Que cada desilusão afine, como um luthier afina um instrumento, a frequência com que vibram diante da vida. Que cada cicatriz se transforme não em amargura, mas em mapa, um registro de onde estiveram e de quanto custou chegar até aqui.

 

Essas pessoas amadurecem.

 

Não porque o tempo foi mais generoso com elas. Mas porque elas foram mais generosas com o tempo. Porque escolheram, conscientemente ou não, estar presentes no próprio processo. Porque desenvolveram o hábito sagrado de se perguntar o que isso tem a me dizer? diante de tudo que a vida apresenta, inclusive diante do que dói, do que envergonha, do que desmorona.

 

Os outros, e não se fala aqui com julgamento, mas com uma certa melancolia compassiva, os outros apenas acumulam dias como quem acumula recibos que nunca vai reler. O cabelo embranquece, as mãos ganham marcas, o rosto se reconfigura com o peso dos anos, e tudo isso acontece por fora, enquanto por dentro nada essencialmente muda. Continuam tendo os mesmos medos com roupas diferentes. As mesmas reações com novos personagens. A mesma dificuldade de amar com distintos rostos à sua frente. Envelhecem. E envelhecer, assim, é uma forma de ausência: estar presente no tempo sem nunca ter estado verdadeiramente na vida.

 

Há algo de trágico nisso, não no sentido de culpa, mas de desperdício. Como uma terra fértil que nunca foi semeada. Como um talento que viveu inteiro dentro de uma gaveta fechada.

 

Amadurecer exige uma coragem que raramente é nomeada como tal: a coragem de ser transformado. De não resistir ao processo. De não endurecer quando a vida aperta, mas de, mesmo tremendo, permanecer permeável. Maleável. Disposto a ser outro do que era ontem sem sentir que isso é uma traição a si mesmo.

 

O paradoxo é belo e cruel ao mesmo tempo: quanto mais nos permitimos ser mudados pelo que vivemos, mais nos tornamos nós mesmos. E quanto mais nos fechamos para não sermos afetados, mais nos perdemos dentro de uma casca que um dia usamos como proteção e que, com o tempo, passou a ser uma prisão.

 

O avião pousou. E como sempre acontece, as pessoas se levantaram antes mesmo de poder, de pé no corredor estreito, bagagem na mão, corpo inclinado para a frente como se a pressa fosse uma forma de chegar antes de si mesmas.

 

Fiquei a observar aquele senhor ao meu lado. Ele fechou a revista devagar, com o mesmo cuidado com que a tinha lido. Não havia pressa nenhuma naqueles gestos. Dobrou a página, ajeitou o casaco, levantou-se como quem tem plena consciência de que trinta segundos a mais não roubam nem devolvem nada de essencial. E caminhou para a saída com aquela tranquilidade particular de quem, ao longo dos anos, aprendeu uma coisa que a maioria ainda não aprendeu: que o tempo não é um inimigo a ser vencido. É um companheiro a ser respeitado.

 

Ele provavelmente não sabe que carregava, naquela página aberta, uma pergunta que poucos têm a honestidade de fazer a si mesmos enquanto ainda há tempo de respondê-la com ação.

 

Qual tipo de relação eu tenho cultivado com o tempo que me foi dado?

 

Estou apenas envelhecendo, ou estou, com tudo que tenho e tudo que sou, amadurecendo?

 

A diferença entre as duas respostas não está no calendário. Está na qualidade da atenção com que você decide, ou não decide, habitar a própria existência.

 

Desembarquei sem saber o nome daquele homem. Sem saber o título da revista, sem saber a origem da frase. Mas desembarquei diferente de como embarquei, e essa é uma das coisas mais raras que uma hora de voo pode oferecer a alguém.

 

Às vezes a vida nos senta ao lado da pessoa certa, na hora certa, com a página certa aberta. Não para que travemos uma grande conversa. Apenas para que vejamos algo que precisávamos ver.

 

E eu vi.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 07/03/2026
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