WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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De Onde Eu Sempre Parto

 

Na madrugada deste sábado, quando o mundo desacelerou e o ruído dos dias da semana que se acaba finalmente se recolheu, aconteceu um pequeno ritual que costuma nascer nesses instantes de silêncio. Foi nessas horas quietas que voltei às páginas que me acompanharam ao longo da semana, aos trechos que permaneceram suspensos na memória e às ideias que, teimosamente, insistiram em não dormir.

 

Entre um parágrafo relido e uma frase sublinhada, entre aquilo que já havia sido pensado e o que ainda começava a se formar, nasceu mais uma vez esse hábito quase íntimo: o de conversar em silêncio com o que li… e, de algum modo, também comigo mesmo.

 

Talvez seja por isso que as madrugadas tenham esse ar de confidência. Elas parecem ouvir melhor do que o dia. O dia é feito de encontros, propostas, negociações, promessas, expectativas. Uma sucessão de rostos, discursos e intenções. Durante a semana atravessamos esse campo de relações como quem atravessa uma praça cheia: cada pessoa carregando sua história, mas quase todas vestindo algum tipo de aparência.

 

E então lembro da antiga observação de Nicolau Maquiavel: “...poucos veem o que somos, mas todos veem o que aparentamos...”

 

No mundo das relações, profissionais, sociais, negociais, quem somos de fato parece ocupar um espaço mais discreto, quase reservado aos bastidores da existência. A aparência, por outro lado, caminha na frente. Ela abre portas, conduz diálogos, molda percepções antes mesmo que qualquer verdade interior tenha tempo de se apresentar.

 

E isso não acontece necessariamente por malícia.

 

Talvez aconteça por pressa.

 

O mundo não tem tempo para investigar profundidades. Ele olha, interpreta, decide. A aparência se torna então uma espécie de idioma universal, rápido, visível, compreensível à distância.

 

Às vezes penso que muitos caminhos seriam melhores se pudéssemos simplesmente ser aquilo que somos, sem o cuidado permanente de administrar a forma como parecemos. Talvez as relações fossem mais verdadeiras, as decisões mais humanas, os encontros menos estratégicos.

 

Mas a realidade raramente se organiza dessa maneira.

 

O mundo não busca a essência primeiro.

 

Ele busca a imagem.

 

E assim seguimos, cada um aprendendo a equilibrar duas dimensões silenciosas da própria existência: aquilo que somos quando ninguém observa e aquilo que o mundo reconhece quando nos olha.

 

É curioso perceber que, apesar disso, algo em nós continua insistindo em permanecer verdadeiro. Talvez porque, no fundo, sabemos que a aparência constrói caminhos, mas é a essência que sustenta a caminhada.

 

E, ao final de tantas reflexões nesta madrugada quieta, surge um pensamento mais sereno, quase resignado. Talvez não possamos mudar a lógica do mundo. Talvez nunca tenha sido essa a tarefa. Porque, no fundo, o mundo continuará olhando primeiro para aquilo que mostramos, para as formas visíveis, para as aparências que organizam as relações e orientam os encontros. E eu sei que, ao atravessar os dias, muitas vezes também precisei delas, e continuarei precisando, não como verdade, mas como a linguagem que o mundo aprendeu a compreender.

 

Mas enquanto penso nisso, percebo também algo que me devolve uma paz profunda.

 

Existe um lugar.

 

Um lugar que tem seus silêncios, é verdade, aqueles silêncios bons que descansam a alma. Mas que também tem sons que aquecem o coração. Sons de vida. Sons de casa. O eco leve de conversas, o riso solto das crianças, passos correndo pelo corredor, vozes que se chamam de um cômodo ao outro, pequenos acalantos que só existem dentro de um lar.

 

Há cantos que acolhem, abraços que chegam sem aviso, gestos simples que dizem mais do que qualquer discurso do mundo. Há alegria espalhada nos detalhes, na mesa compartilhada, na presença tranquila, na sensação de pertencimento que não precisa ser explicada.

 

É para esse lugar que sempre volto.

É nele que rego aquilo que sou de fato.

É nele que minha essência respira sem pressa.

É nele que reencontro as partes de mim que o mundo, muitas vezes, não vê.

É nesse lugar que me reabasteço.

 

Reabasteço a consciência de quem realmente sou, longe das expectativas e das superfícies que organizam a vida cotidiana. Nele não importa parecer, importa ser.

 

E talvez seja por isso que esta madrugada teve tanto valor.

 

Nela concluo que é justamente entre o silêncio que acalma e os sons que dão vida à casa onde realmente habito, que reencontro sempre com a minha própria essência. É nesse lugar que me preparo outra vez para atravessar a nova semana que já começa a se desenhar no horizonte, sabendo que o mundo continuará pedindo suas aparências, mas também sabendo que existe, dentro de mim e ao meu redor, um espaço intacto onde guardo aquilo que sou.

 

E é desse lugar que eu sempre parto.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 14/03/2026
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