WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Agora: Onde a Paz é Possível
Com as muitas atividades do cotidiano, eu que carrego uma quase compulsão por reunir palavras, acabo relegando a elas um espaço mínimo, espremido entre obrigações, prazos e cansaços. Só me é possível, de fato, dedicar-me a esse exercício nos fins de semana. É nas madrugadas de sexta para sábado e de sábado para domingo que o silêncio finalmente se instala, e a pausa das atividades me permite esse encontro íntimo, quase sagrado, com as palavras.
Mas nem sempre as palavras esperam por esse encontro com a mesma paciência. Não raro, em meio à correria dos dias comuns, um tema me encontra desprevenido, atravessa uma reunião, se infiltra no trânsito, sussurra enquanto finjo atenção em tarefas automáticas. E então ele permanece. Ecoa. Me acompanha durante toda a semana, como se aguardasse, com uma calma irônica, o momento em que finalmente poderei escutá-lo.
Nesta semana, foi uma frase atribuída a Sêneca, pensador romano, conselheiro de imperadores e um dos maiores nomes do estoicismo, que resolveu se instalar em mim como uma inquietação serena, dessas que não perturbam, mas também não se calam: “Para ser feliz, você deve primeiro eliminar duas coisas: o medo de um futuro ruim e a lembrança de um passado ruim.”
E desde então, tenho pensado no peso invisível que carregamos.
Vivemos como se o tempo fosse uma linha, mas, na verdade, ele se comporta como um círculo mal resolvido dentro de nós. O passado não passa, ele se repete em forma de memória, arrependimento, saudade ou culpa. E o futuro, que sequer chegou, já nos visita como ameaça, como hipótese de dor, como roteiro de fracassos que ainda não aconteceram, mas também como promessas grandiosas, projetos de vida cuidadosamente idealizados, expectativas que, em vez de nos impulsionar, nos tensionam, como se precisássemos corresponder a um amanhã que ainda nem existe.
Assim, caminhamos raramente no presente. Arrastamos o ontem com uma mão e empurramos o amanhã com a outra, enquanto o agora, esse instante delicado e fugaz, escorre por entre os dedos.
E aqui eu ouso, com a devida humildade, começar a compreender o que Sêneca apregoou, sobretudo quando disse que “se deve primeiro” eliminar certas cargas, apontando não um destino definitivo, mas o início de um caminho. Não de apagar o passado, mas de soltá-lo. Não de ignorar o futuro, mas de não temê-lo como se já fosse um desfecho inevitável, nem idealizá-lo como se dele dependesse toda a nossa realização. Porque há um tipo de sofrimento que não nasce dos fatos, mas da insistência em revivê-los ou antecipá-los.
E é curioso perceber como nos habituamos a isso. Como se fosse natural acordar já preocupado com o que pode dar errado. Como se fosse necessário revisitar, vez após vez, aquilo que não teve conserto. Como se a dor fosse uma espécie de prova de que estamos atentos à vida.
Mas, e se não for?
E se a vida, em sua forma mais simples e mais honesta, estiver justamente nesse intervalo entre o que já foi e o que ainda não é?
Talvez a felicidade não exija conquistas extraordinárias, nem um destino perfeitamente desenhado. Talvez ela peça apenas leveza. A coragem silenciosa de não carregar o que não precisa mais ser carregado. E, no meu caso, talvez ela já se revele em gestos pequenos, mas inteiros: em um “abraço concentrado” dos meus netos, como gosto de chamar aqueles abraços deles em que o mundo parece suspenso por alguns segundos, em um sorriso inigualável da minha diva, em um “oi, papai” da minha filha que chega sem aviso, ou mesmo em mensagens sem propósito definido dos meus filhos… como se, nesses instantes simples, a vida me lembrasse, com delicadeza, que a felicidade não precisa ser buscada, ela se revela inteira no agora, como presença viva que só existe enquanto é sentida.
Soltar o passado e aliviar o futuro… não por esquecimento ou descuido, mas pela compreensão de que um já cumpriu seu tempo e o outro ainda não o tem, e que sofrer por ambos, é sustentar um peso que não pertence verdadeiramente a este momento.
As palavras de Sêneca, que atravessaram a semana comigo, ao final, não foram apenas uma reflexão, mas um discreto chamado, quase um alerta, para que eu desaprenda o excesso de carregar o tempo: que eu alivie o passado do peso que já cumpriu e devolva ao futuro o direito de ainda não existir.
No fim, resta o instante.
E nele, apenas nele, existe a real possibilidade de paz.