WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Mortes Invisíveis
Que frase é essa que chega sem pedir licença e se instala como verdade íntima?
“Eu nunca eliminei ninguém da minha vida; todos morreram no acidente da confiança.”
Embora circule nas redes sociais atribuída a Fiódor Dostoiévski, mestre em revelar as profundezas da alma humana, não há confirmação de que seja realmente sua. Ainda assim, há frases que independem de autoria, porque parecem ter sido escritas diretamente dentro de nós.
E essa me encontrou.
Nessa madrugada de sábado, silenciosa e honesta como só as madrugadas sabem ser, percebo que ao longo da minha vida muitas pessoas não foram embora, elas morreram dentro de mim. Não de forma brusca, não com despedidas formais, não com portas batendo. Mas como morrem as coisas essenciais: aos poucos, no desgaste invisível da confiança.
Foi um acidente, quase sempre assim.
A confiança não avisa quando começa a falhar.
Ela apenas cede, como uma estrutura que parecia firme demais para ruir.
E quando se dá conta, já não há o que salvar.
Alguns morreram em mim por palavras que não deveriam ter sido ditas. Outros, pelo silêncio onde deveria haver presença. Houve aqueles que partiram por pequenas quebras repetidas, rachaduras tão discretas que, quando vistas de longe, pareciam irrelevantes… até que não eram mais. E houve também os que se foram por ações que feriram, por intenções mal colocadas e, por que não dizer, por más intenções que, uma vez reveladas, tornaram impossível sustentar o que antes parecia inteiro.
Mas seria injusto acreditar que fui apenas sobrevivente desses acidentes.
É provável, talvez inevitável, que eu também tenha morrido dentro de alguém. Que em algum momento tenha sido eu o descuido, a ausência, a falha, o silêncio que pesou demais. Que minhas palavras tenham ferido mais do que acolhido. Que minhas ações tenham sido insuficientes ou equivocadas. Que minhas intenções tenham sido mal compreendidas ou, em momentos mais duros, que nem tenham sido tão boas assim. E que alguém, em alguma noite parecida com esta, tenha sentido o mesmo vazio ao perceber que já não podia mais me manter vivo dentro de si.
Essa é a parte mais difícil de aceitar:
não somos apenas vítimas das rupturas, também somos, por vezes, seus autores.
E ainda assim, há algo de profundamente humano nisso tudo.
Porque confiar é, em si, um ato de coragem.
E continuar confiando, mesmo depois dos acidentes, é um ato quase heroico.
Hoje entendo que essas “mortes” não são apenas perdas, são também transformações. Cada ausência redesenha quem somos. Cada quebra nos ensina, ainda que à força, sobre limites, sobre cuidado, sobre a fragilidade dos vínculos que julgávamos perenes.
Já não vejo essas partidas com a mesma revolta de antes.
Há uma certa serenidade em compreender que nem todas as presenças foram feitas para durar, e que nem toda permanência é saudável.
Oxalá eu não morra mais dentro das pessoas.
Não por medo de partir, mas por desejo de ser inteiro, honesto, cuidadoso, alguém que, ao menos, não desabe por negligência.
E, se ainda assim outros vierem a morrer dentro de mim, que isso já não seja um golpe devastador.
Que a maturidade me ensine não a desejar essas perdas, mas a admiti-las como parte possível e, às vezes, inevitável de estar vivo, de sentir, de confiar.
Porque viver é também isso:
aceitar que alguns vínculos não sobrevivem,
e ainda assim, escolher continuar existindo com o coração aberto.
Mas não um coração ingênuo e sim um coração consciente.
Que sabe o preço de confiar,
que já atravessou ruínas,
que já recolheu os próprios pedaços em silêncio…
e, ainda assim, não se recusa a sentir.
Endurecer pode até proteger,
mas também empobrece.
E há uma coragem silenciosa em permanecer sensível
num mundo onde tantas relações se desfazem sem aviso.
E eu sei, hoje eu sei, que manter o coração aberto não vale a pena apenas por ser um gesto de resistência ou de fé na vida.
Vale a pena porque é também uma forma de reconhecer, com lucidez e gratidão, a beleza dos vínculos que chegaram… e ficaram.
Sim, há aqueles que não morreram.
Há os que permaneceram apesar das falhas, dos ruídos, das imperfeições inevitáveis de existir em conjunto.
Há os que se tornaram abrigo,
presença que não vacila,
laço que não se rompe ao primeiro abalo.
Esses não apenas sobreviveram,
esses se tornaram eternos dentro de mim.
E seria injusto falar apenas das perdas
sem curvar a alma em reconhecimento a essas permanências.
Mas esses… esses merecem outro tempo.
Outra madrugada.
Outra prosa.
Porque há histórias que não se contam à sombra da ausência,
mas à luz daquilo que permanece.
Pois bem! Que eu siga, então, não ileso, mas inteiro.
Não intacto, mas verdadeiro.
E que, mesmo sabendo que toda confiança carrega em si o risco da queda,
eu ainda escolha construir.
Porque, no fundo, não é sobre evitar perdas,
é sobre não perder a capacidade de amar,
mesmo depois delas.