WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Que Deve Morrer Antes de Nós
Os algoritmos que me acompanham, silenciosos, invisíveis, quase íntimos. Aquelas lógicas que decidem o que vejo nas redes, nos vídeos sugeridos, nas notícias que surgem sem que eu peça, habitam justamente os lugares onde pouso os olhos com mais frequência. Vivem nas telas que toco, nos gestos repetidos, nas pequenas rotinas que se tornaram quase automáticas. E, curiosamente, é por meio deles, que, vez ou outra, algo mais profundo me alcança.
E assim, nesta madrugada suspensa no tempo, dessas em que o mundo parece respirar mais devagar, em pleno feriado de Páscoa, longe do meu habitat natural, encontrei-me mais uma vez atravessado por esse fio invisível. Não era apenas uma viagem em família; era um deslocamento interno. Estávamos ali para celebrar o aniversário existencial do meu neto.
Como de costume, acordei ainda era madrugada. Mas ali, onde a vida não desperta com notificações, o dia começa de outro modo. Não foi o som de alertas que me chamou, foram os pássaros, em sua linguagem antiga, costurando o silêncio da manhã. Ao longe, outros sons se misturavam: o sopro leve do vento entre as árvores, o movimento discreto de animais que pertencem àquele ritmo mais lento, mais inteiro. Era um despertar que não exigia pressa, apenas presença.
E, ainda assim, quase sem perceber, a mão buscou a tela, esse gesto já treinado, esse pequeno automatismo que se disfarça de rotina, mas tantas vezes é apenas retorno. Um retorno ao fluxo, ao estímulo, ao conforto imediato. E foi justamente nesse encontro entre o natural e o artificial, entre o canto dos pássaros e o brilho da tela, que os algoritmos, mais uma vez, cumpriram seu papel silencioso.
Entre uma sugestão e outra, trouxeram-me uma frase: “Tenha a satisfação de ver seus vícios morrerem antes de você.”
E há frases que não apenas são lidas, elas nos leem de volta.
Esta sugere que existem duas formas de morrer: morrer biologicamente, ainda dominado por vícios, ou “matar” os vícios e viver com liberdade interior antes da morte.
A segunda opção representa uma vida verdadeiramente vivida. E talvez o mais inquietante seja perceber que muitos desses vícios não se apresentam como excessos escancarados, mas como hábitos cotidianos, socialmente aceitos, quase imperceptíveis.
São os mesmos gestos que repetimos nas telas onde os algoritmos habitam. O impulso de verificar, de rolar, de distrair-se, não por necessidade, mas por dificuldade de permanecer. A mente que evita o silêncio porque nele há confronto. A ansiedade leve, constante, que pede sempre mais estímulo.
Mas os vícios não param aí.
Eles se infiltram também nas emoções: na necessidade de aprovação,
na dificuldade de esperar, na tendência de reagir antes de compreender.
E é nesse ponto que a reflexão se torna mais incômoda, e mais honesta.
Porque, embora saibamos onde estão e quais são nossos vícios, aqueles mesmos que, muito provavelmente, inspiraram a advertência de Sêneca, sabemos também que, de algum modo, os estimamos.
Há neles um certo conforto.
Uma familiaridade que acolhe.
Uma promessa imediata de alívio, ainda que superficial.
E talvez por isso seja tão difícil abandoná-los.
Não lutamos apenas contra algo que nos faz mal,
lutamos contra algo que, paradoxalmente, também nos consola.
Romper com um vício é, muitas vezes, abrir mão de um refúgio.
É aceitar o vazio que ele encobria.
É sustentar o desconforto de estar inteiro, sem anestesias.
E nem sempre estamos dispostos.
“Matar” um vício, então, não é um ato brusco,
é um exercício contínuo de consciência.
É perceber o automático e, pouco a pouco, interrompê-lo.
É trocar a reação pela escolha.
É suportar o desconforto de não ceder ao que nos domina.
E, nesse processo, algo raro acontece, ou ao menos suponho que aconteça.
Digo suponho porque também carrego os meus vícios de estimação.
Ao compor esta prosa, fui nomeando alguns deles e, nesse gesto simples, percebi o quanto me desviam do essencial, o quanto me afastam daquilo que poderia ser mais inteiro em mim.
É nessa tensão entre lucidez e repetição que sigo.
E talvez seja esse o verdadeiro renascimento, não aquele que se celebra no calendário, mas aquele que acontece quando, ainda em vida, deixamos morrer tudo aquilo que nos impedia de viver.
Talvez seja isso que a infância revela silenciosamente,
mas que, paradoxalmente, já começa a ser atravessada pelos mesmos vícios que nos capturam.
Porque vejo, no meu neto, tão pequeno, tão no início de tudo, sinais desse mundo que o alcança cedo demais: as telas que prendem, os jogos que absorvem, a atenção que, por instantes, se desconecta do que pulsa ao redor.
E isso me convoca.
Porque, ao olhar para quem está começando, percebo que o tempo de agir não é depois, é agora. Que o combate aos vícios invisíveis não é apenas uma escolha individual, mas também um legado.
E talvez seja por isso que, ao celebrar o início da vida dele,
sou chamado, não apenas a recomeçar, mas a escolher, com mais lucidez, o que permitirei que me conduza.
Porque, no fim, não se trata do que encontraremos além do horizonte,
mas do que ainda podemos transformar antes dele.