WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
WIGO
Há 38 anos, a vida me surpreendeu com algo que eu ainda não sabia nomear. Você chegou, não apenas como quem nasce, mas como quem abre, dentro de mim, um universo que até então eu desconhecia.
Eu era jovem demais para compreender a dimensão daquele instante. Segurava você nos braços sem saber que, ao mesmo tempo, era eu quem estava sendo sustentado por algo invisível: um sentido novo, silencioso e definitivo. Não sabia que, ali, começava a minha forma mais profunda de permanência no mundo.
Mas logo a vida, com seus caminhos inesperados, nos impôs uma distância cedo demais. Você ainda era muito pequeno quando o tempo e as circunstâncias nos afastaram. E há dores que não fazem barulho, mas atravessam tempos em silêncio.
Ainda assim, aquilo que nos ligava não se rompeu, porque houve alguém que não permitiu. Aquele a quem eu também daria continuidade, seu avô, meu pai, não deixou que essa distância se tornasse ausência definitiva. Ele cruzou territórios, enfrentou o que foi preciso, para que eu pudesse reencontrar você. Como se soubesse, antes de mim, que aquele vínculo era maior do que qualquer desencontro.
E era.
Platão dizia que buscamos a imortalidade de duas maneiras: pelas ideias que deixamos ou pelos filhos que geramos. Hoje eu entendo: você é a minha continuidade viva, não apenas no sangue, mas naquilo que insistiu, resistiu e floresceu. Porque a verdadeira imortalidade não está em permanecer igual, está em seguir adiante, diferente.
E você seguiu.
Ser o primeiro filho, o primogênito, é ocupar um lugar que não se repete. E aqui não minimizo, em hipótese alguma, o papel glorioso dos demais filhos que Deus me deu, cada um com sua luz, sua história e sua grandeza. Mas há um território que é só seu. Um lugar inaugural. Um início que só você poderia ter sido.
Você foi o primeiro a me ensinar que amar também é suportar a distância. Que o vínculo verdadeiro não depende da constância física, mas da permanência invisível.
E se há algo que possa ser reconhecido como mérito em mim na minha trajetória como pai, talvez tenha sido o de não impedir e, sempre que possível, favorecer, que você encontrasse e seguisse o seu próprio caminho com autonomia, porque o que você construiu, com grandeza, foi a partir e para além de mim.
Porque formar um ser livre, como nos ensina a filosofia, não é moldar à própria imagem, mas permitir que o outro se torne aquilo que nós mesmos jamais conseguiríamos ser. E você se tornou. Com suas escolhas, sua coragem silenciosa, seus caminhos próprios.
E você ganhou sua própria musculatura para a vida e, foi com essa força que você ergueu a sua própria família, dando continuidade ao que um dia começou em silêncio. E então cessaram as idas e vindas: há mais de uma década você respira o mesmo ar que eu respiro, e a vida, enfim, nos permitiu permanecer próximos, presentes, inteiros.
Mas há algo em você que nenhuma filosofia consegue explicar completamente.
Você foi presença quando a ausência seria o caminho mais fácil.
Foi força quando o silêncio parecia inevitável.
Foi mais amigo quando eu mais precisei de companhia.
Foi cuidado quando eu já não sabia pedir.
Foi apoio quando o chão faltava.
Foi escuta quando tudo em mim era ruído.
E houve dias, e eu me lembro deles, em que perceber que eu morava nos seus pensamentos e nas suas ações foi como descobrir, por dentro, o verdadeiro significado da palavra abrigo.
Você me acolheu. E isso, um filho não aprende, isso vem de dentro. Vem da grandeza de quem você é.
Hoje, olhando para você, não vejo apenas um filho. Vejo um homem inteiro. Um ser moral, livre, consciente. Alguém que não apenas herdou, mas escolheu, construiu, transcendeu. Você me ultrapassou.
E acima de qualquer filosofia ou explicação, permanece em mim algo que não se mede nem se contém: a grandeza silenciosa de ser chamado, e reconhecido, como seu pai.
E se me fosse permitido transformar amor em desejo, eu pediria à vida apenas isto por você: que ela lhe seja longa o suficiente para que você experimente, com profundidade, tudo aquilo que há de mais verdadeiro, mais luminoso e mais essencial em existir; que cada dia lhe revele sentido, e não apenas passagem;
que cada etapa lhe traga plenitude, e não apenas duração.
Mas também pediria, com a mesma serenidade de quem compreende o ciclo das coisas, que essa vida não se estenda além do tempo em que o viver ainda é inteiro, que ela saiba, com delicadeza, recolher-se quando a plenitude ceder lugar ao cansaço, quando a saúde já não sustentar a liberdade, quando o corpo começar a limitar aquilo que a alma ainda deseja.
Meu filho Wigo, que a sua existência seja como uma obra bem escrita, completa, intensa, necessária, e que, quando eu já não estiver ao seu lado, estas palavras ainda caminhem com você, como um sussurro vivo do que sempre desejei.
E que esse viver, verdadeiro e inteiro, se derrame adiante como reflexo, alcançando seus filhos, os filhos deles e tudo o que ainda virá… como se, de algum modo, tudo isso tivesse começado há 38 anos, quando você chegou e deu início a um tempo que continua, em você, para além de mim.