WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O Barulho de Dentro

 

Hoje é aquele dia em que entrego a madrugada ao meu Recanto, um sábado de abril, desses em que o tempo parece caminhar mais devagar só para caber dentro da gente.
É quando o mundo silencia por fora e, curiosamente, tudo em mim ganha voz.
Escrevo para mim, mas nunca só para mim. Escrevo também para quem, em algum lugar, talvez encontre abrigo nessas mesmas palavras que ainda estou descobrindo.

 

E foi aí que ele surgiu, C.S. Lewis, com a sensibilidade de quem enxergava o invisível dentro do humano, trazendo à tona uma frase que não pede licença, apenas permanece: “A consciência nunca fica em silêncio. Quem sabe que errou carrega um barulho interno que transforma qualquer situação em lembrança e qualquer palavra em acusação, mesmo quando ninguém está falando com ela.”

 

Não sei ao certo qual erro me atravessou ao ler isso,
se foi algo recente, ou alguma memória que decidiu não ir embora,
mas houve um ponto ali que me tocou com precisão suficiente para me fazer parar… e escrever.

 

E então compreendi que não se trata do mundo.
Não é sobre o que dizem, nem sobre o que pensam.
É sobre esse lugar interno onde o silêncio não é ausência, é eco.

 

Quem sabe que errou não precisa de plateia.
A própria consciência se encarrega de revisitar, de reencenar, de reinterpretar.
A lembrança não vem como registro neutro, ela vem carregada, quase como se quisesse insistir em algo que ainda não foi resolvido dentro de nós.

 

E é curioso… porque, mesmo no silêncio absoluto, existe um diálogo acontecendo.
Não entre eu e o outro, mas entre partes de mim que nem sempre concordam.
Uma parte aponta. Outra tenta compreender. Uma insiste. Outra se cansa.

 

É um território íntimo, onde não há julgamento externo, mas há confronto.
E esse confronto não é grito, é permanência.

 

Talvez seja isso que mais pesa: não o erro em si,
mas a incapacidade, por um tempo, de encerrar a conversa dentro de si mesmo.

 

E é nesse ponto que eu me reconheço múltiplo.

 

Como já provocava Friedrich Nietzsche, em essência: “há em mim mais de um eu”.
E são esses “eus” que se reúnem na madrugada, não para disputar, mas para se ouvir.

 

Há o eu que acusa.
Há o eu que tenta justificar.
Há o eu que aprende.
E há, ainda, o eu que simplesmente observa e, com o tempo, compreende.

 

No meu Recanto, eu não calo essas vozes.
Eu as acolho.
Deixo que falem até que percam o peso e encontrem sentido.

 

Porque, no fim, não se trata de eliminar o barulho,
mas de transformá-lo em entendimento.

E assim, enquanto a madrugada ainda acontece,
eu também aconteço dentro dela.

 

Este sábado de abril, cuja madrugada me envolve,
chega em mim como inquietação
e, sem precisar ir embora, já me atravessa em calmaria.

 

O barulho que parecia insistir em acusar
vai, aos poucos, perdendo o tom,
cedendo espaço a uma lembrança mais mansa...

 

e lembrar,

já não fere do mesmo jeito.

 

Percebo então, com uma quietude nova,
que a consciência talvez nunca se cale,
como disse C.S. Lewis,
mas pode, sim, aprender a falar com menos dureza.

 

E se essas palavras de Lewis encontrarem alguém, como me encontraram hoje,
que não ecoem como acusação,
mas como um convite, como em mim foi:

um convite sereno para se ouvir com mais gentileza,
para atravessar os próprios ruídos sem medo,
e descobrir que, no fundo,
até aquilo que inquieta
também pode ser caminho de paz.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 18/04/2026
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