WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O Peso Temporário das Vitórias e das Derrotas

 

“O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.”

 

A frase pertence a José Saramago, romancista português, vencedor do Nobel de Literatura, autor de obras que não apenas contavam histórias, mas atravessavam as camadas mais profundas da condição humana. Escritor de silêncios, de perguntas, de inquietações. Um homem que parecia escrever não para oferecer respostas, mas para expor as rachaduras das certezas.

 

E foi a sua frase que me encontrou hoje. Não foi apenas uma leitura casual, foi reconhecimento que abriu um silêncio, e dentro dele me surgiu uma pergunta inevitável: quanto da nossa vida é construída sobre a ilusão de que vencer nos eterniza e fracassar nos define?

 

Porque há uma ilusão antiga à qual nos agarramos: a de que vencer significa permanecer no topo, e perder equivale a cair para sempre. Mas nenhum desses estados possui morada fixa. A vitória não é um trono; é apenas uma varanda de onde se avista o horizonte antes da próxima travessia. A derrota, por sua vez, não é sentença, é pausa, curva, intervalo entre aquilo que fomos e aquilo que ainda podemos nos tornar.

 

Há algo profundamente humano nessa impermanência. Vivemos tentando eternizar instantes: o aplauso, o reconhecimento, o êxito, a superação. Mas também eternizamos aquilo que nos feriu, a vergonha, a rejeição, o erro, a sensação de insuficiência, os fracassos que insistimos em revisitar como se ainda estivéssemos presos a eles. Guardamos conquistas como troféus e dores como condenações. Contudo, tudo o que é vivo se move. O tempo não respeita medalhas nem cicatrizes. Ele passa sobre ambas com a mesma serenidade.

 

A vitória, quando definitiva, deixaria de ser conquista e se transformaria em estagnação. O fracasso, se eterno, seria uma prisão sem portas. Mas a vida não foi construída para extremos imóveis; ela pulsa em ciclos, em quedas e reerguimentos, em começos disfarçados de fins.

 

E por vezes o ponto mais delicado esteja exatamente aí: tanto aquele que transforma o êxito presente em verdade absoluta quanto aquele que vive a dor da derrota como condição definitiva cometem o mesmo engano, acreditam que um estado momentâneo possui força suficiente para explicar uma existência inteira.

 

Mas a vida raramente se curva a conclusões precipitadas.

 

Ela desmonta certezas. Corrige arrogâncias. Surpreende os que acreditavam ter chegado e resgata aqueles que julgavam ter terminado. Há uma inteligência silenciosa no movimento das coisas: nada permanece exatamente como era, porque tudo está sendo continuamente atravessado pelo tempo.

 

Porque existe uma alternativa entre a arrogância do triunfo e a rendição da derrota: a consciência de que ambos são transitórios. A compreensão de que nenhum estado é absoluto, nenhum instante encerra toda a narrativa, nenhuma fase possui autoridade suficiente para decretar o valor inteiro de uma vida.

 

E é justamente aqui que José Saramago retorna como protagonista dessa reflexão. Não apenas como autor da frase, mas como alguém que parece ter compreendido que a existência humana não se sustenta em extremos permanentes. Sua frase não oferece conforto fácil; oferece lucidez. Ela nos lembra que nenhum capítulo merece ser confundido com o livro inteiro.

 

Suas palavras permanecem porque atravessam algo essencial da experiência humana: a tendência de transformar instantes em sentenças. De acreditar que uma vitória é capaz de nos resumir, ou que uma derrota possui força suficiente para reduzir a amplitude daquilo que a vida ainda pode revelar.

 

E há uma humildade silenciosa escondida nessa compreensão: a de reconhecer que nada permanece intocado pelo tempo. Até aquilo que parecia impossível de atravessar, um dia, também se torna passagem.

 

A vitória passa. O fracasso passa. O aplauso se cala. A dor perde intensidade. O orgulho envelhece. O medo cansa.

E o ser humano continua.

 

Continua não porque seja eterno, mas porque insiste. Porque mesmo sabendo da sua finitude, segue atravessando dias, perdas, conquistas, silêncios e recomeços. Continua porque viver é permanecer em movimento, ainda que nada permaneça igual.

 

A vida não permanece porque seja eterna; permanece porque insiste.

 

Ela atravessa tudo. Passa pelos excessos da alegria, pelas ruínas do fracasso, pelas certezas que envelhecem e pelas dores que pareciam impossíveis de suportar. A vida não se fixa em nenhum extremo, ela atravessa todos.

 

E talvez seja justamente essa sua natureza mais profunda: não permitir permanências absolutas. Tudo o que nela existe se move, se desfaz, se transforma.

 

Porque é a vida que impõe transitoriedade a todas as coisas. É ela quem relativiza os extremos, quem reduz o orgulho do triunfo e suaviza o peso da derrota. Diante dela, nenhum estado permanece absoluto.

 

A vida não nos define pelo ponto em que caímos ou pelo lugar onde fomos exaltados. Ela nos define pela capacidade de seguir, mesmo quando não sabemos exatamente para onde.

 

E foi isso que Saramago me ensinou no encontro que tive com suas palavras: que nem o auge nos pertence para sempre, nem a queda possui o direito de nos aprisionar. Entre uma e outra, seguimos atravessando a vida, movidos pela impermanência que nos transforma.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 24/04/2026
Alterado em 24/04/2026
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