WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Os Nadas do Mundo

 

Quem me acompanha aqui no Recanto talvez já saiba que as madrugadas dos meus finais de semana pertencem à reflexão. Há um silêncio particular nessas horas em que o mundo desacelera e a alma encontra espaço para ouvir a si mesma.

 

Minha inspiração nasce, muitas vezes, das ideias deixadas pelos grandes pensadores, dos versos que os poetas eternizaram e das canções que atravessam o tempo. Outras, surge do olhar lançado ao cotidiano, as luzes da cidade ainda acesas, um vulto apressado na rua vazia, um passageiro anônimo perdido em sua leitura ao meu lado. Pequenos instantes da vida que, por alguma razão, encontram eco dentro de mim.

 

E é dessa percepção íntima, dessa leitura interior das coisas, que trago minhas reflexões sobre aquilo que me toca.

 

E hoje, me deparei com um vídeo em que o extraordinário ator Lima Duarte declamava palavras de Padre Antônio Vieira, não apenas com a voz, mas com a densidade de quem compreende o peso espiritual daquilo que pronuncia. Havia ali mais do que interpretação, havia reverência.

 

E assim declamava ele:

 

“A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado. Diante dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi. Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada. Eu valho nada.”

 

Algumas palavras, quando encontram o intérprete certo, deixam de ser apenas discurso e tornam-se espelho. E nesse texto declamado, a frase mais contundente que atravessou a minha percepção, foi: “a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado”.

 

A força dessa frase talvez esteja justamente no contraste que ela estabelece. Porque não se trata de diminuir a cruz, impossível fazê-lo, mas de reconhecer que existe algo ainda mais íntimo e perturbador quando o olhar deixa de repousar apenas sobre o sofrimento do Cristo e passa a confrontar aquilo que somos diante dele.

 

A cruz, por si só, já carrega uma força impossível de ser ignorada. Ela reúne a dor extrema, a humilhação, a injustiça e a resignação daquele que, mesmo podendo afastar-se do sofrimento, permaneceu até o fim. Há na imagem do Cristo crucificado algo que desconcerta e silencia: a inocência submetida à violência, o amor sustentando o sacrifício, a obediência que não recua diante da agonia. A cruz não fala apenas de martírio; fala de redenção, de entrega absoluta e da grandeza de um amor que aceita padecer para não abandonar.

 

E justamente por ser tão grandiosa, tão elevada em significado, a cruz ainda nos permite contemplar a beleza do amor que nela se manifesta. Há reverência, há admiração, há a percepção de um sofrimento que transcende a condição humana.

 

Mas a imagem dos próprios pecados não oferece distância segura.

 

Ela não pode ser apenas contemplada, ela precisa ser reconhecida.

 

Porque diante da cruz olhamos para aquilo que foi feito por nós; diante dos nossos pecados, olhamos para aquilo que fizemos de nós mesmos.

 

E talvez seja esse o ponto mais comovente do sermão de Padre Antônio Vieira: perceber que a dor da cruz nos eleva, mas a consciência dos próprios erros nos apequena.

 

Não pela culpa em si, mas pela lucidez de compreender o quanto, muitas vezes, nos afastamos daquilo que deveríamos ter sido.

 

É aí que o sermão e sobretudo a frase, se tornam insuportavelmente íntimos.

 

Porque se a cruz revela a dimensão do amor divino, a imagem dos próprios pecados revela a dimensão das nossas fragilidades, das incoerências que carregamos e das vezes em que trocamos aquilo que havia de mais digno dentro de nós por desejos passageiros, conveniências momentâneas ou pelos discretos encantos dos “nadas do mundo”.

 

E talvez seja justamente esse o abismo que Vieira ilumina: não a distância entre Deus e o homem, mas a distância entre aquilo que poderíamos ser e aquilo que aceitamos nos tornar.

 

Existe algo profundamente humano em perceber que raramente nos perdemos em grandes tragédias; quase sempre nos perdemos em pequenas concessões. Não são os grandes abismos que nos afastam de nós mesmos, mas as discretas rendições cotidianas, os silêncios convenientes, os valores negociados, as verdades que abandonamos para caber no conforto das circunstâncias.

 

Quando Pe. Vieira afirmou que se apequena ao ver o preço pelo qual se vendeu, ele não fala apenas de culpa; fala de consciência. Há um momento raro e silencioso em que o homem percebe que não foram os outros que o diminuíram, muitas vezes foi ele próprio quem abriu mão de si.

 

E talvez essa seja uma das dores mais difíceis de suportar: reconhecer que aquilo que havia de mais valioso em nós não foi arrancado, mas entregue.

 

Não por grandes recompensas, mas pelos “nadas do mundo”.

 

Pelo orgulho.

Pela vaidade.

Pelo desejo de pertencimento.

Pela ilusão de que certas concessões não deixam marcas.

Mas deixam.

 

Porque há perdas que não se anunciam no instante em que acontecem. Elas se revelam apenas depois, quando olhamos para trás e percebemos o quanto nos distanciamos de quem um dia fomos.

 

Talvez seja por isso que certas palavras permanecem ecoando por tanto tempo.

 

Porque elas não oferecem conforto, oferecem verdade. E a verdade raramente chega sem algum grau de desconforto.

 

Vivemos tentando medir nosso valor pelas conquistas, pelos títulos e pela imagem que sustentamos diante dos outros. Contudo, existe uma medida mais silenciosa e mais severa: aquilo que fazemos quando ninguém vê. Aquilo que, pouco a pouco, aceitamos negociar em nome da conveniência, do orgulho, do medo ou do desejo de pertencimento. As concessões íntimas que fazemos, muitas vezes sem perceber, até nos distanciarmos daquilo que um dia julgávamos inegociável.

 

Porque, no fim, não é apenas o que conquistamos que nos define, mas também aquilo que, silenciosamente, fomos capazes de perder de nós mesmos.

 

Penso que a verdadeira maturidade não esteja apenas em contemplar a cruz com devoção, nem em olhar para os próprios erros com culpa. Mas em compreender que ambas as imagens nos revelam algo essencial: de um lado, o caminho de reconciliação e grandeza que o sacrifício da cruz nos ofereceu; do outro, a facilidade com que, tantas vezes, nos afastamos dele em troca dos nadas do mundo.

 

E talvez tenha sido essa a silenciosa conclusão a que cheguei na meditação desta madrugada. Não uma resposta definitiva, mas uma percepção que permaneceu depois que as palavras cessaram. Porque o sermão de Padre Antônio Vieira, na voz profundamente humana de Lima Duarte, não me pareceu falar apenas de pecado ou redenção, mas da delicada distância entre aquilo que Deus vê em nós e aquilo que, por vezes, fazemos de nós mesmos.

 

E ao menos pra mim, reside aí a parte mais comovente de tudo: perceber que a cruz revela o quanto fomos amados, mas os nossos pecados revelam o quanto ainda somos capazes de nos apequenar diante desse amor.

 

 

Link (Lima Duarte declamando Pe. Antonio Vieira)

 

Link: 

https://www.youtube.com/watch?v=3BELyz4umFQ

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 02/05/2026
Alterado em 02/05/2026
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