WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O Livro que Voltei a Ler… e que Me Leu de Volta

 

Houve dias recentes em que voltei a Memórias Póstumas de Brás Cubas, como quem retorna à antiga casa da adolescência apenas para perceber que já não é o mesmo garoto que atravessava aqueles corredores da escola. E enquanto lia Machado de Assis outra vez, vieram-me também as lembranças do tempo em que o ensino ainda se dividia em primário, ginasial e colegial; uma época em que a escola parecia caminhar mais devagar, e os dias tinham a calma simples das coisas que ainda não sabiam a velocidade do mundo. Era o tempo dos trabalhos em grupo feitos à mão, das cartolinas espalhadas sobre a mesa, das folhas pautadas preenchidas com capricho, e das primeiras descobertas dos grandes autores brasileiros, quando talvez acreditássemos que compreender um livro era apenas resumir suas páginas.

 

Mas hoje sei que Machado de Assis nunca foi um escritor de resumos.
Ele era um homem que escrevia espelhos.

 

E entre tantas ironias e abismos de Brás Cubas, aquele defunto autor que narra a própria vida depois da morte, expondo as vaidades humanas, os egoísmos elegantes e as ilusões que sustentam os homens, uma frase me atravessou com a força silenciosa das verdades tardias:

“Creia em si; mas não duvide sempre dos outros.”

Há frases que apenas passam pelos olhos.
Outras se assentam dentro da gente como uma pedra no fundo de um rio.

 

Percebi, então, quantas vezes a vida não se rompe pela falta de confiança em nós mesmos, mas pelo excesso de desconfiança em relação ao outro. Acreditar em si é necessário; sustenta a caminhada, fortalece as escolhas, impede que nos percamos completamente diante das incertezas do mundo. Mas quando essa confiança se transforma numa incapacidade permanente de acreditar na sinceridade, na mudança ou na fragilidade humana alheia, ela endurece o espírito.

 

Porque há uma desconfiança que protege.
E há outra que aprisiona.

 

Talvez seja por isso que tanta gente envelheça cercada de muros invisíveis. Não por falta de inteligência, mas por excesso de defesa. Como se, depois de certas dores, confiar novamente passasse a parecer ingenuidade.

 

E como é difícil.
Difícil reconhecer que nem toda aproximação esconde um interesse. Que nem todo pedido de perdão nasce da manipulação. Que nem toda falha revela má-fé. Às vezes, os outros apenas carregam as próprias limitações humanas, tão imperfeitas quanto as nossas.

 

Machado sabia disso.
Por trás de sua ironia havia uma tristeza lúcida: a de perceber que o ser humano frequentemente prefere a segurança da suspeita ao risco delicado de acreditar outra vez.

 

E eu fiquei pensando quantas relações se perderam porque alguém precisava vencer uma discussão. Quantos silêncios nasceram do orgulho. Quantas oportunidades de recomeço morreram sufocadas pela frase íntima e perigosa: “eu estou certo”. E mais do que isso: quantos perdões não foram dados porque já não se acreditava na sinceridade do pedido. Como se a desconfiança tivesse endurecido tanto o coração, que até a dor do outro passasse a parecer encenação tardia.

 

Mas talvez exista algo ainda mais raro, e mais grandioso do que pedir perdão: oferecê-lo.

 

Porque pedir, às vezes, nasce do peso da culpa.
Mas oferecer perdão nasce de um lugar muito mais profundo: da capacidade de interromper a corrente silenciosa da mágoa. É quase um gesto de quem decide não continuar carregando um cadáver emocional dentro de si.

 

Há pessoas que passam anos esperando um pedido perfeito, palavras exatas, arrependimentos completos… e, enquanto esperam, a alma vai adoecendo devagar. O orgulho se fantasia de justiça, mas por dentro é apenas dor querendo permanecer viva.

 

Perdoar não é absolver o erro.
É libertar-se da necessidade de permanecer ferido.

 

E talvez alguns pedidos nunca sejam suficientes mesmo. Talvez certas pessoas realmente não saibam se arrepender como deveriam. Mas ainda assim, em alguns momentos da vida, oferecer perdão torna-se menos um ato para o outro e mais um ato de misericórdia consigo mesmo. Porque há pesos que continuam existindo apenas porque insistimos em segurá-los.

 

Talvez viver com sabedoria não seja colecionar certezas.
Talvez seja aprender a caminhar com perguntas.

 

E então compreendi que Memórias Póstumas de Brás Cubas me ensinou agora, muitos anos depois, algo que eu jamais poderia ter aprendido no meu tempo de ginásio. Naquela época, eu lia para responder perguntas da escola; hoje percebo que certos livros existem para fazer perguntas dentro de nós.

 

Por isso, desejo guardar comigo como um pequeno compromisso interior a busca por trocar a necessidade de ter razão pela coragem de compreender. Talvez eu não consiga sempre. Talvez o orgulho ainda fale alto em alguns dias, talvez certas feridas ainda me façam reagir antes de refletir. Mas quero ao menos caminhar nessa direção silenciosa de ouvir mais antes de concluir, de admitir meus enganos sem sentir que isso diminui quem sou.

 

Porque a verdade não humilha.
Ela lapida.

 

E no fim, talvez o homem cresça menos quando acerta do que quando encontra humildade suficiente para rever a si mesmo.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 06/05/2026
Alterado em 11/05/2026
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