WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Textos

A Dor Invisível que Habita Quase Todos Nós

 

Há dores que não fazem barulho.

Elas caminham pelas ruas em silêncio, pegam ônibus lotados, sorriem em fotografias, respondem “está tudo bem” enquanto desmoronam por dentro. Existe uma espécie de sofrimento discreto que habita o ser humano, um cansaço da alma que não aparece nos olhos de imediato, mas pesa nos gestos, nas pausas, na maneira como alguém demora um pouco mais para responder ao mundo.

 

No fundo, talvez viver seja isso: atravessar tempestades invisíveis enquanto tentamos parecer inteiros.

 

Há quem esteja sobrevivendo à ausência de alguém que levou consigo uma parte da própria vida, da própria essência, como se tivesse arrancado do mundo uma cor que nunca mais voltou a existir da mesma forma. Há quem acorde todos os dias travando batalhas silenciosas contra a própria mente, e ninguém percebe o quanto é heroico simplesmente continuar. Alguns carregam culpas antigas como pedras nos bolsos da memória. Outros tentaram anestesiar a dor de diferentes maneiras: alguns nas drogas, outros no álcool, outros na pornografia, em relações vazias, nos excessos da própria vida, ou até mesmo em uma religiosidade adoecida e escravizante, buscando alívio para feridas internas e, sem perceber, tornando-se prisioneiros daquilo que um dia parecia oferecer fuga. E existem ainda aqueles que seguem respirando apenas porque desistir exigiria mais força do que continuar.

 

O ser humano é, muitas vezes, um oceano disfarçado de calma.

 

Por isso, talvez a compaixão seja uma das formas mais elevadas de inteligência. Porque olhar alguém com gentileza é reconhecer que existe uma história ali que você não conhece. Uma guerra que não foi contada. Uma dor que aprendeu a ficar em silêncio.

 

O filósofo Arthur Schopenhauer dizia que “cada pessoa toma os limites do seu próprio campo de visão como os limites do mundo”. E talvez seja justamente esse o nosso erro mais comum: acreditar que aquilo que vemos é tudo o que existe. Julgamos capítulos isolados sem conhecer o livro inteiro. Condenamos reações sem imaginar as cicatrizes que as antecederam.

 

E talvez eu pense tanto sobre isso porque também já senti o peso dos julgamentos apressados. Já experimentei a dor de ser interpretado sem ser compreendido, de ser reduzido a um momento, a uma falha, a uma aparência. Mas também reconheço que, em outras vezes, fui eu quem julgou rápido demais. Fui eu quem emitiu sentenças silenciosas sem conhecer a profundidade da história do outro, ou pior: sem sequer me importar em conhecê-la. E existe uma tristeza muito humana em perceber quantas vezes fomos feridos pela falta de sensibilidade… e quantas vezes, sem perceber, também ferimos alguém da mesma maneira.

 

Às vezes, quem parece frio só está cansado de sofrer. Quem se afastou talvez esteja tentando sobreviver. Quem errou talvez estivesse perdido dentro de si mesmo.

 

A verdade é que quase ninguém está verdadeiramente em paz. A maioria apenas aprende a esconder o próprio abismo atrás de rotinas, sorrisos automáticos e respostas breves. Cada ser humano trava batalhas íntimas entre aquilo que mostra ao mundo e aquilo que tenta desesperadamente suportar sozinho. E reconhecer isso não deveria nos tornar desesperançosos, deveria despertar em nós uma consciência mais profunda da fragilidade humana.

 

Porque talvez seja justamente na capacidade de acolher a dor do outro que mais nos aproximamos de Deus, não nas aparências de perfeição, mas na compaixão, na misericórdia e na sensibilidade de reconhecer, com humildade, a humanidade ferida que possa existir em cada pessoa.

 

Talvez o mundo fosse menos cruel se entendêssemos que toda pessoa carrega um peso invisível. Talvez as palavras fossem mais cuidadosas, os julgamentos menos rápidos, os silêncios mais respeitados. Talvez aprendêssemos a olhar uns para os outros com mais delicadeza, porque ninguém sabe exatamente quanto esforço existe por trás de alguém que apenas continua de pé.

 

Porque, no fim, nunca sabemos exatamente qual batalha alguém enfrentou antes ou enfrenta ao cruzar o nosso caminho. E há algo profundamente sagrado nisso: continuar tratando com delicadeza pessoas que a vida já tratou com dureza demais.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 16/05/2026
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