WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
“Isso não é uma Igreja”
No sábado, 9 de maio de 2026, tive o privilégio de assistir ao espetáculo-palestra “Isso não é uma Igreja”, conduzido por Ed René Kivitz, pessoa muito querida por mim. E talvez a palavra privilégio seja pequena para o que vivi naquela noite. Porque não foi apenas uma palestra. Não foi um culto. Não foi um sermão no formato tradicional. Foi uma espécie de confronto silencioso entre aquilo que chamamos de fé e aquilo que transformamos em religião.
Ed René inicia dizendo: “Se eu tivesse que pregar um único sermão, seria esse: o singelo espetáculo do evangelho como superação da religião.” E ali, naquela frase inaugural, já havia dinamite suficiente para implodir décadas de estruturas construídas em nome de Deus.
Saí daquele lugar com a sensação de que o Evangelho de Jesus talvez seja muito menor do que os sistemas religiosos afirmam, e infinitamente maior do que eles conseguem suportar.
Há uma confusão histórica, quase irreversível, entre Evangelho e cristianismo, distinção que Ed René desenvolve com coragem e profundidade ao longo do espetáculo, mas que também encontrou eco doloroso dentro de mim. E isso dói admitir, sobretudo para alguém como eu, nascido dentro do ambiente institucional religioso. Cresci aprendendo liturgias antes mesmo de aprender silêncio. Aprendi códigos, doutrinas, comportamentos, usos e costumes. Aprendi quando levantar as mãos, quando sentar, quando dizer “amém”. Mas demorou anos para perceber que, muitas vezes, tudo isso acontecia sem que o Evangelho estivesse realmente ali, e também aqui, dentro de mim.
Em determinado momento da apresentação, aprofundando ainda mais a necessária, e desconfortável, distinção entre Evangelho e cristianismo, Ed René lançou uma afirmação que atravessou o ambiente como um raio em céu religioso:
“o cristianismo é uma traição ao Evangelho.”
E eu concordei.
E sei o quanto essa frase deveria estremecer muitos religiosos convictos e também aqueles seus seguidores cegos, e não cegos por falta de inteligência, mas pelo excesso de medo de questionar aquilo que lhes foi entregue como verdade absoluta. Há pessoas que defendem suas estruturas religiosas como quem protege a própria casa durante uma tempestade. E compreendo. Porque, para muitos, a religião foi abrigo emocional, linguagem de pertencimento, chão afetivo. O problema começa quando o abrigo vira prisão e quando o medo de perder a estrutura se torna maior que o desejo de encontrar a verdade.
É nesse ponto que a frase deixa de ser mera provocação e passa a ser diagnóstico. Porque não se trata de negar a história, a tradição ou a experiência comunitária da fé, mas de reconhecer que, quando a instituição passa a proteger mais a si mesma do que ao Evangelho, ela começa, ainda que lentamente, a traí-lo.
Não porque Cristo tenha falhado. Mas porque, em muitos momentos da história, o cristianismo institucional trocou o caminho pelo prédio, a mesa pelo altar, a graça pelo controle, o encontro pela performance religiosa.
Talvez seja exatamente aí que nasce a figura do “desigrejado”.
Essa palavra, geralmente usada de forma pejorativa por setores religiosos, costuma carregar a imagem de alguém rebelde, decepcionado ou espiritualmente perdido. Mas talvez os desigrejados sejam apenas pessoas cansadas de procurar Jesus em lugares onde encontraram somente mecanismos religiosos.
Eu me considero um desses muitos desigrejados.
Ainda que, raramente, quando vou a uma igreja, seja justamente à IBAB, comunidade pastoreada por Ed René há aproximadamente quatro décadas. E talvez isso não seja coincidência. Porque há ambientes onde ainda se pode respirar sem culpa. Lugares onde a fé não é policiada o tempo inteiro. Onde perguntas não são vistas como ameaça. Onde o Evangelho consegue sobreviver apesar da religião.
E aqui faço uma ressalva necessária: não estou dizendo que todas as instituições religiosas sejam corrompidas, adoecidas ou incompatíveis com o Evangelho. Talvez existam muitas comunidades sinceras, discretas, belas e fiéis ao espírito de Jesus. O que reconheço, com alguma dor, é que me fechei tanto diante das feridas produzidas pela religião institucional que, muitas vezes, já não consigo sequer me aproximar o suficiente para descobrir quem ainda preserva, de fato, alguma verdade.
O fundamentalismo religioso, tão criticado por Ed René ao longo de sua trajetória, possui uma habilidade perigosa: transformar Deus em propriedade privada de grupos moralmente arrogantes. O religioso fundamentalista quase sempre precisa de inimigos para sustentar sua própria sensação de santidade. Ele se alimenta da exclusão. Vive da condenação. Precisa dividir o mundo entre “nós” e “eles”.
E talvez seja impossível não perceber o quanto esse comportamento se aproxima da lógica política que domina o Brasil contemporâneo. Refiro-me aqui aos extremos do espectro político nacional, sem qualquer privilégio ou absolvição seletiva, nem aos que se proclamam representantes da direita, nem aos que reivindicam para si o monopólio moral da esquerda. Em ambos os lados, muitas vezes, o debate deixa de buscar verdade ou justiça e passa apenas a necessitar de adversários permanentes para sustentar identidades, narrativas e paixões coletivas.
Nesse ponto, política e religião institucional podem acabar se parecendo perigosamente: ambas, quando capturadas pelo fanatismo, passam a operar pela lógica da tribo, da hostilidade e da desumanização do outro. E talvez isso encontre certa convergência no cristianismo transformado em sistema de poder, mas jamais no Evangelho. Porque o Evangelho não cria castas morais, não exige inimigos para existir e não transforma divergência em guerra santa. Jesus jamais pareceu interessado em formar facções; parecia interessado apenas em reconciliar pessoas.
O Cristo dos Evangelhos nunca demonstrou grande conforto entre os donos da religião. Sua presença sempre foi mais comum entre os cansados, os confusos, os marginalizados, os que não conseguiam mais suportar o peso da culpa religiosa.
Talvez por isso tanta gente esteja deixando as igrejas, mas não necessariamente abandonando Deus.
Por isso entendo haver uma diferença brutal entre perder a fé e perder a paciência com estruturas religiosas adoecidas.
E essa talvez seja a tragédia do nosso tempo: muitos abandonaram Jesus sem nunca tê-lo encontrado de fato; encontraram apenas versões institucionalizadas dele.
Ao final do espetáculo, fiquei com a impressão de que o Evangelho é perigosamente simples. Simples demais para os sistemas que precisam de complexidade para manter controle. O Evangelho não parece interessado em fabricar consumidores religiosos. Parece interessado em devolver o ser humano à sua inteireza: reconciliá-lo com as próprias ruínas, ensiná-lo a enxergar o outro sem medo e sem domínio, e conduzi-lo a Deus não como quem retorna a um tribunal, mas como quem finalmente encontra casa.
Talvez seja por isso que ele incomode tanto.
Porque o Evangelho liberta. E religiões, muitas vezes, dependem exatamente do contrário.