WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Quando a Pedra Não Sai do Caminho
Quando o ponteiro do relógio marcou 2h desta madrugada, neste terceiro domingo de maio, o silêncio da casa parecia maior do que de costume. Eu trazia comigo um desejo simples e, ao mesmo tempo, solene: escrever aqui, no Recanto, o meu texto de número 200, depois de nove meses desde que ingressei nesse ambiente sagrado das letras.
Nove meses: o tempo da gestação humana. Nove meses também foi o meu tempo de gestar palavras, ideias, dores, esperanças, ternuras, amores, desilusões e ficções da mente. Nesse intervalo, não foram apenas textos que nasceram; fui eu que, linha após linha, fui sendo lentamente recriado por aquilo que ousei escrever, como se cada frase fosse ao mesmo tempo parto e espelho do que eu ainda estou aprendendo a ser.
Há marcas que a gente celebra com festa; outras, com recolhimento. A minha, a partir daquela segunda hora da madrugada, não pedia fogos nem testemunhas: pedia apenas uma boa companhia de palavras, como quem embala, em silêncio, o nascimento de mais um texto que ainda não sabe bem o que vai ser, mas já pressente que não passará despercebido pela própria alma.
Foi então que, em meio às minhas leituras despropositadas da insônia, buscando alguma fagulha de inspiração, deparei-me com esse curto, repetitivo e controverso poema de Carlos Drummond de Andrade:
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra”.
Curioso como, mesmo eu já o conhecendo de longa data, havia ali qualquer coisa de incômodo e de familiar ao mesmo tempo, como se a simplicidade dos versos escondesse um tipo de profundidade que não se deixa capturar de imediato.
Quanto mais eu relia, mais a repetição me chamava atenção. Verso após verso, a mesma pedra reaparecendo, insistente, quase teimosa. A princípio, parece apenas um jogo de palavras, uma provocação minimalista. Mas existe um desconforto nessa repetição que não é apenas estética: é existencial. Como se Drummond estivesse apontando para algo que não conseguimos afastar totalmente do percurso, nem da poesia, nem da vida.
Foi então que resolvi ir além da impressão pessoal e buscar um pouco mais sobre a história desse poema. Descobri que, quando foi publicado, causou estranhamento, críticas e até deboche. Muitos não conseguiam enxergar poesia em algo tão insistente e despojado. Parecia-lhes puro nonsense, uma provocação vazia, quase um insulto à ideia tradicional de lirismo. E, no entanto, justamente aquilo que muitos julgaram “pobre” e “repetitivo” foi o que atravessou décadas e se instalou, incômodo e permanente, na literatura brasileira, e hoje, em mim.
E talvez esteja exatamente aí a sua força.
Porque a vida também se repete quando dói.
A mente humana funciona assim:
retorna ao que feriu,
revive o que marcou,
repete silenciosamente aquilo que ainda não conseguiu esquecer.
A pedra não sai do caminho tão rápido quanto gostaríamos; ela fica ali, mesmo quando já seguimos adiante. Volta em forma de lembrança, de flash, de pensamento intruso, de medo aparentemente injustificado. E é por isso que aquele poema, aparentemente simples, continua tão atual: porque todos nós, cedo ou tarde, encontramos pedras no caminho.
A diferença é que as pedras mudaram de forma.
Hoje, há quem tropece na ansiedade de precisar parecer feliz o tempo inteiro. Há quem se perca tentando sustentar personagens perfeitos em redes sociais enquanto desmorona longe das fotografias. Outros caminham carregando vazios silenciosos, vícios escondidos, relações rasas, exaustão emocional, medo do futuro e uma solidão que nem mesmo a hiper conexão conseguiu curar.
Há pedras chamadas comparação.
Outras se chamam depressão.
Algumas atendem pelo nome de orgulho, excesso, culpa ou abandono de si mesmo.
E talvez a mais pesada delas seja esta incapacidade contemporânea de parar por alguns minutos e olhar honestamente para dentro. Aprendemos a esconder rachaduras com filtros, discursos prontos e sorrisos editados, mas a alma continua tropeçando nas mesmas ausências de sempre. O mundo acelera, a tecnologia avança, os discursos mudam e, ainda assim, lá está a pedra, nos lembrando de uma fragilidade que não se deixa maquiar.
Nesse sentido, Drummond certamente nunca tenha desejado escrever apenas sobre uma pedra. Talvez tenha escrito sobre aquilo que muda para sempre o rumo de um caminho. Sobre aquilo que interrompe a pressa. Sobre aquilo que obriga o ser humano a perceber a própria limitação, o próprio cansaço, a própria vulnerabilidade.
Porque algumas pedras apenas atrapalham a passagem.
Mas outras… revelam quem nos tornamos depois da queda.
E, tal como o eu lírico promete nunca se esquecer “desse acontecimento / na vida de suas retinas tão fatigadas”, também nós carregamos nossas pedras na memória, às vezes como trauma, às vezes como aprendizado, às vezes como cicatriz que dói quando o tempo muda. Elas nos cansam, sim. Mas também nos obrigam a perguntar, mesmo em plena madrugada de domingo, às 3h, quando o sono não vem: que pedra é essa, afinal, que insiste em permanecer no meio do meu caminho?
A resposta, eu sei, não me virá nesta madrugada. E nem tenho certeza se, quando vier, virá em forma de resposta ou apenas de constatação: talvez eu precise aprender a conviver com essa(s) pedra(s). A de Drummond, ao que tudo indica, se instalou com um ar de perenidade, ele “nunca se esqueceria” e, ainda assim, fez dessa presença incômoda um poema que atravessou o tempo.
Que, com ou sem resposta à pergunta que se insurgiu a mim nesta noite insone, neste texto de número 200, eu possa ao menos conviver com as minhas pedras. Porque talvez a maturidade não esteja em removê-las todas do caminho, mas em caminhar apesar delas, com elas, através delas. E, quem sabe, um dia perceber que aquilo que um dia nos fez tropeçar também ajudou a desenhar, com uma precisão secreta, o contorno exato de quem finalmente nos tornamos.