WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Eternidade das Coisas Sentidas
Há quem escreva para preencher o silêncio. Outros, para sobreviver a ele.
Mas existe um instante raro, quase sagrado, em que alguém descobre que escrever não é apenas alinhar palavras: é abrir feridas com delicadeza suficiente para transformá-las em beleza. A poesia nasce exatamente aí, no encontro entre o abismo e a coragem.
Ser poeta nunca foi sobre rimas. É sobre enxergar o que os outros atravessam sem notar. É ouvir o cansaço escondido na voz de alguém que diz “estou bem”. É perceber que certas despedidas continuam ecoando anos depois do adeus. É carregar um excesso de mundo dentro do peito e, ainda assim, escolher traduzi-lo em versos em vez de gritos.
Porque escrever é isso: domesticar tempestades.
Há dores que adoecem. Outras escrevem livros.
O poeta aprende que sentir demais pode ser uma condenação, mas também um privilégio. Enquanto muitos passam pela vida anestesiados, ele sangra diante das pequenas coisas: uma janela acesa de madrugada, um perfume antigo, uma palavra dita no momento errado, um amor que não coube no tempo. Tudo lhe atravessa. Tudo vira linguagem.
E talvez seja por isso que a arte de escrever seja tão perigosa: quem escreve com verdade acaba se revelando inteiro, mesmo quando finge falar de outra coisa.
Toda grande poesia é uma confissão disfarçada.
Escrever também é interpretar sentimentos que nem sempre têm nome. Há emoções que chegam mudas, confusas, violentas. O poeta lhes empresta voz. Às vezes, descobre o que sente somente depois que termina o último verso. Como se a alma precisasse da escrita para compreender a si mesma.
E então vem a mais bela contradição: transformar dor em beleza não elimina a dor, mas lhe dá sentido.
Há uma espécie de eternidade nisso.
Porque o sofrimento, quando compartilhado em arte, deixa de ser apenas sofrimento. Torna-se espelho. Alguém, em algum lugar, lê aquelas palavras e pensa: “Então não sou só eu.” E nesse instante a poesia cumpre sua missão mais humana: salvar silenciosamente.
Talvez ser poeta seja exatamente isso:
ter coragem de sentir profundamente num mundo que ensina as pessoas a sentir cada vez menos.
E ainda assim continuar escrevendo.
Mesmo ferido.
Mesmo incompreendido.
Mesmo sabendo que algumas palavras jamais conseguirão alcançar aquilo que o coração tentou dizer.
Porque, no fim, quem encontra poesia até na dor já não pertence inteiramente ao mundo, pertence à eternidade das coisas sentidas.