WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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“Daquilo que Eu Sei”

 

Ontem, sábado, investi um tempo precioso para enviar uma mensagem exclusiva ao estimado recantista “JoãoCarreiraPoeta”. E foi justamente nesse instante de pausa e delicadeza que me deparei, uma vez mais, com a canção de Ivan Lins, “Daquilo que Eu Sei”.

 

Nesta madrugada de domingo, ela voltou a me visitar com outra profundidade. Embora há muito eu a carregue como uma das mais fiéis definições daquilo que resultou da minha vida até hoje, resolvi caminhar lentamente por sua letra, construída sobre paradoxos e negações parciais, esse insistente “nem tudo”, que parece revelar a maturidade de quem compreendeu os limites da verdade e da própria experiência humana.

 

“Daquilo que eu sei

Nem tudo me deu clareza...”

 

E talvez seja exatamente assim que a vida se apresenta aos que realmente viveram. Não como um livro concluído, mas como páginas escritas à meia-luz, onde algumas frases jamais se deixam compreender inteiramente. Há dores que não explicam, amores que não cabem, despedidas que não terminam no adeus. Nem tudo nos deu clareza. E talvez a clareza absoluta fosse, no fundo, uma forma de cegueira.

 

“Nem tudo foi permitido...”

 

Quantas vezes a alma precisou silenciar vontades para preservar afetos, dignidades, travessias? Crescer também é aprender que existir implica limites, alguns impostos pelo mundo, outros pela consciência. Nem tudo nos foi permitido porque nem tudo caberia dentro daquilo que escolhemos ser.

 

“Nem tudo me deu certeza...”

 

Ah... as certezas. Essas construções frágeis que o tempo adora desmontar. O que ontem parecia definitivo hoje repousa apenas como lembrança. E ainda assim seguimos. Talvez porque viver nunca tenha sido possuir respostas, mas suportar perguntas.

 

Depois, a canção abandona as abstrações e mergulha no corpo, nos sentidos, na experiência:

 

“Cheirei, toquei, provei...

Usei todos os sentidos...”

 

E sinto que há uma espécie de confissão sagrada nesses versos. Porque existir verdadeiramente exige presença. Exige tocar o mundo sem luvas emocionais. Exige sentir o perfume das manhãs felizes e também o gosto amargo das perdas inevitáveis. Quem passa pela vida sem se deixar afetar talvez permaneça intacto, mas jamais inteiro.

 

Então chega o verso que sempre me atravessa como um raio silencioso:

 

“Só não lavei as mãos...”

 

E aqui mora uma das maiores dignidades humanas. Não lavar as mãos diante da dor do outro. Não fingir neutralidade diante das injustiças. Não se ausentar emocionalmente das pessoas que amamos. Há quem atravesse décadas sem se comprometer com nada além da própria conveniência. Mas há também aqueles que se envolvem, que se ferem, que assumem o peso dos afetos e das escolhas.

 

Talvez sejam esses os que, ao final, possam dizer:

 

“E é por isso que eu me sinto

Cada vez mais limpo...”

 

Que extraordinário paradoxo. Porque a verdadeira limpeza da alma não nasce da distância do mundo, mas do mergulho sincero nele. Não vem da omissão, mas da coragem de sentir. Não vem da perfeição, mas da honestidade com que carregamos nossas imperfeições.

 

E enquanto reflito sobre essa canção nesta madrugada de domingo, percebo que ela fala menos sobre respostas e mais sobre travessias. Sobre aquilo que permanece humano em nós apesar das quedas, dos enganos, das incompletudes.

 

No fundo, talvez eu tenha aprendido que somos menos um “quem” acabado e mais um “como”: como sentimos, como escrevemos, como acolhemos, como nos deixamos transformar. Talvez sejamos, sobretudo, isso: uma sucessão de sensibilidades tentando alcançar algum sentido enquanto atravessamos o mistério da existência.

 

E se houver alguma grandeza possível em tudo isso, ela talvez resida justamente aí,  na capacidade de continuar humanos, profundamente humanos, mesmo depois de todas as dúvidas.

 

“Daquilo que Eu Sei”, a sensível criação de Ivan Lins, parece nos lembrar exatamente disso: viver não é possuir todas as respostas, mas aprender a caminhar com lucidez entre as incertezas da vida.

 

Por fim, agradeço ao amigo “JoãoCarreiraPoeta” que, através de uma pergunta simples, acabou me trazendo, ainda que indiretamente, o tema e a inspiração desta madrugada de domingo.

 

Ouça Ivan Lins:

https://www.youtube.com/watch?v=vpatFI3FKPg&list=RDvpatFI3FKPg&start_radio=1 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 24/05/2026
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