WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Utopia Como Vetor
No geral, eu não costumo visitar, nem publicar minhas prosas neste meu Recanto nos inícios das semanas. Às segundas-feiras, principalmente, costumam nascer utilitárias, atravessadas por compromissos, horários, deslocamentos e pela liturgia silenciosa das responsabilidades. O cotidiano me toma inteiro. Há sempre uma agenda esperando ser organizada entre o Rio de Janeiro e São Paulo, como se a própria vida tivesse se tornado uma ponte aérea permanente entre deveres, metas e urgências.
Mas hoje, nas primeiras horas do dia, quando o sol ainda sequer havia rasgado a escuridão da manhã, encontrei nas primeiras páginas que abri, quase por acaso, Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da América Latina. E algo em mim interrompeu o movimento automático das horas. Como se, antes mesmo de a cidade despertar completamente, uma ideia tivesse silenciosamente deslocado todas as urgências do lugar.
Disse Galeano:
“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”
Há pensamentos que não apenas nos atravessam, eles nos suspendem.
E neste, reflito que a grande tragédia humana talvez nunca tenha sido não alcançar os sonhos, mas deixar de caminhar por acreditar que a distância do destino ou as dificuldades do percurso tornam inútil a própria caminhada. Galeano desmonta essa obsessão contemporânea pela chegada. Ele nos devolve a dignidade do movimento.
A utopia, então, deixa de ser promessa e passa a ser vetor.
Não importa sua concretização; importa sua força direcional.
Ela existe não como território, mas como bússola.
E é essa compreensão que preserva, em alguns homens e mulheres, uma dimensão interior que resiste ao automatismo da existência, mesmo quando tudo ao redor os empurra para uma vida meramente funcional. E, de certa forma, penso que na maior parte do tempo eu mesmo me reconheço nesse grupo, ainda que existam dias em que o peso das responsabilidades, das distâncias e da repetição cotidiana quase consiga silenciar essa parte mais sensível da existência.
Porque a dinâmica da vida contemporânea nos absorve sem pedir licença: trabalhamos, acumulamos, resolvemos, produzimos, respondemos mensagens, atravessamos cidades, fechamos ciclos, mas é a utopia que impede que a alma se reduza à logística da sobrevivência.
Sem ela, a vida se torna apenas administração.
Com ela, até o fracasso ganha transcendência.
Porque há uma diferença profunda entre quem caminha por obrigação e quem caminha orientado por um horizonte invisível. O primeiro apenas se desloca; o segundo constrói sentido.
E talvez a beleza mais dolorosa da utopia esteja justamente em sua impossibilidade. Se um dia ela pudesse ser plenamente alcançada, morreria ali mesmo sua potência transformadora. O horizonte precisa permanecer distante para continuar nos convocando ao movimento, à reinvenção e à esperança.
No fundo, Galeano nos diz que a existência humana não foi feita para possuir absolutos, mas para persegui-los. E há algo de profundamente humano nisso: continuar caminhando mesmo sabendo que o horizonte talvez nunca seja tocado.
Pois certas coisas não foram feitas para serem alcançadas.
Foram feitas para nos impedir de parar.
Nessa manhã cinzenta, em que despertei mais lento e silenciosamente esvaziado diante do barulho contínuo da chuva insistente que cai sobre a capital fluminense, ter me deparado com Galeano e sua ideia de utopia como vetor devolveu densidade aos meus próprios passos. Não a ilusão confortável da chegada, mas algo talvez mais raro e mais essencial: a consciência íntima de que existem caminhos cujo verdadeiro sentido não repousa no destino, mas na capacidade de nos manter espiritualmente despertos enquanto seguimos atravessando a vida.
Porque certas buscas não nos transformam quando terminam. Transformam-nos enquanto acontecem.
É provável que seja essa a silenciosa grandeza da utopia: ela não elimina o peso dos dias, não interrompe os compromissos, não reduz as distâncias entre aeroportos, cidades e responsabilidades. Mas impede que a alma endureça diante da repetição do mundo.
E é isso que levo comigo nesta manhã: a compreensão serena de que algumas das coisas que julgo serem importantes para a minha vida talvez nunca sejam plenamente alcançadas, e ainda assim, serão justamente elas que darão sentido ao percurso.
Oxalá seja exatamente esse estado interior que me acompanhe durante a semana: não a ansiedade da chegada, mas uma espécie de lucidez tranquila diante da caminhada. Como se Galeano, nesta manhã chuvosa, tivesse me recordado que existem horizontes cuja função não é terminar em nós, mas nos manter em permanente expansão.