WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Quando Me Chamaram de Homem de Sorte
Hoje, em minha leitura dominical, lembrei-me de um diálogo que mantive durante a semana no ambiente corporativo. Em meio a uma conversa aparentemente comum, alguém me disse que eu seria um homem de sorte.
Naquele instante, recebi a observação com a naturalidade que se recebe um cumprimento educado. A frase passou, a reunião seguiu seu curso, os assuntos se sucederam e o cotidiano, com sua velocidade habitual, tratou de empurrar aquela observação para algum canto silencioso da memória.
Mas somente hoje, no recolhimento sereno que os domingos costumam proporcionar, esse fato retornou ao meu pensamento. E fiquei refletindo: o que significa, afinal, ser um homem de sorte?
Seria a sorte uma espécie de favor invisível concedido a alguns e negado a outros? Uma força misteriosa que distribui privilégios ao acaso? Ou seria ela apenas o nome que damos aos acontecimentos cuja origem não nos demos ao trabalho de investigar?
Enquanto percorria essas indagações, deparei-me com uma frase comumente atribuída a Sêneca: "Sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade."
E, de repente, aquela afirmação casual que ouvi durante a semana adquiriu um significado completamente diferente. Percebi que a sorte possui uma peculiaridade curiosa: ela costuma ser observada apenas no instante da colheita, jamais durante o longo período do cultivo. Talvez porque seja mais fácil admirar o fruto do que compreender as raízes.
A verdade é que existe algo profundamente filosófico nessa questão. A vida parece se desenvolver no encontro permanente entre duas forças: aquilo que controlamos e aquilo que não controlamos.
A preparação pertence ao nosso domínio. A oportunidade, não.
Podemos estudar, trabalhar, desenvolver competências, cultivar virtudes, aprimorar nossa capacidade de julgamento. Podemos nos tornar mais fortes, mais sábios, mais preparados. Mas não podemos determinar quando a porta se abrirá. Não podemos ordenar ao tempo que antecipe os encontros certos, as circunstâncias favoráveis ou os momentos decisivos.
A oportunidade possui sua própria agenda.
E talvez resida aí uma das maiores lições da existência. Porque muitas vezes confundimos espera com passividade.
Mas existe uma forma muito mais nobre de esperar. É a espera daquele que se prepara. Aquele que compreende que não possui poder sobre os ventos, mas possui responsabilidade sobre as velas. Aquele que não vive aguardando milagres, mas construindo condições para reconhecê-los quando chegarem.
Sob essa perspectiva, a sorte deixa de ser um acontecimento extraordinário e passa a ser uma consequência. Não uma recompensa do acaso, mas a convergência entre o trabalho silencioso e a ocasião favorável.
E talvez seja por isso que alguns parecem mais afortunados que outros. Não necessariamente porque receberam mais oportunidades, mas porque estavam prontos quando elas apareceram.
Há ainda uma dimensão mais profunda nessa reflexão. A preparação não serve apenas para alcançar objetivos. Ela nos transforma. Enquanto acreditamos estar nos preparando para um cargo, uma conquista, um projeto ou uma oportunidade, estamos, na verdade, nos preparando para nos tornarmos uma versão mais consciente de nós mesmos.
Nem toda preparação encontra imediatamente sua oportunidade.
Mas nenhuma preparação verdadeira é desperdiçada.
Porque aquilo que aprendemos, aquilo que construímos em nosso caráter e aquilo que desenvolvemos em nossa inteligência permanece conosco, independentemente dos resultados.
Por isso, talvez a pergunta correta não seja se somos ou não pessoas de sorte. Talvez a pergunta mais importante seja: Quando a próxima oportunidade bater à porta, quem ela encontrará do outro lado?
Alguém esperando que a sorte aconteça?
Ou alguém que passou a vida inteira preparando-se para reconhecê-la?
E quanto àquela observação feita durante a semana, confesso que já não a escuto da mesma forma. Porque ninguém costuma chamar de sorte os caminhos percorridos antes da chegada. Ninguém vê as dúvidas que visitam a mente durante as longas travessias. Ninguém vê os projetos que fracassaram, as expectativas que não se realizaram, as portas que permaneceram fechadas, os momentos em que o horizonte parecia indistinto e o próximo passo precisava ser dado mesmo sem qualquer garantia de que estava na direção correta.
A preparação quase nunca acontece em terreno firme. Na maioria das vezes, ela se desenvolve em solo arenoso. É feita de incertezas, de recomeços, de aprendizados dolorosos, de noites em que a convicção vacila e de dias em que o esforço parece não produzir resultado algum.
Há desassossego na preparação.
Há renúncia.
Há solidão.
Há momentos em que a própria fé no caminho escolhido é colocada à prova.
E talvez seja justamente por isso que a oportunidade possui tanto valor quando finalmente surge. Porque ela não encontra apenas alguém capacitado. Ela encontra alguém que resistiu. Alguém que continuou caminhando mesmo quando não havia evidências de que a caminhada seria recompensada. Alguém que suportou o peso da dúvida sem abandonar a construção de si mesmo.
Por isso, depois de pensar nesta manhã de domingo sobre a frase que retornou à minha memória, ousei implementar a conhecida reflexão atribuída a Sêneca para formular minha própria definição: sorte é o momento em que uma oportunidade encontra alguém que, apesar das dores, das decepções, das incertezas e dos inúmeros motivos para desistir, decidiu permanecer em movimento.