WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Conversa Terminou, Mas a Pergunta Ficou
Esta semana me fizeram uma pergunta aparentemente simples, mas daquelas que permanecem ecoando muito depois que a conversa termina. Queriam saber se eu tinha algum arrependimento.
Respondi o mais fácil, e o mais verdadeiro.
Tenho, sim.
Tenho arrependimentos comuns, humanos. Palavras ditas sem o cuidado necessário, silêncios prolongados demais, decisões tomadas pela pressa, pelo medo ou pelo orgulho. Arrependo-me de alguns caminhos que abandonei cedo demais e de outros que percorri além do necessário. Penso também nas pessoas. Nas que deixei partir sem compreender o que estava perdendo e nas que deixei ficar quando já era tempo de partir.
Porque nem todo arrependimento nasce da ausência. Alguns nascem da permanência. Há afetos que não oferecemos e outros dos quais demoramos a nos despedir.
É verdade que eu não disse tudo isso à pessoa que me fez a pergunta. Minha resposta foi muito mais simples, quase uma síntese apressada de algo muito maior. Limitei-me a responder que sim, eu tinha arrependimentos, condensando em poucas palavras tudo aquilo que só agora consigo reunir e organizar. De certo modo, aquelas poucas palavras já continham tudo isso. Não em sua forma desenvolvida, não com todas as nuances e contradições que só a reflexão posterior revela, mas como uma semente contém a árvore que ainda não apareceu.
A conversa terminou, mas a pergunta permaneceu comigo.
E hoje, neste feriado, ela retornou. Não como uma lembrança casual, mas como uma daquelas questões que insistem em reaparecer porque ainda não foram suficientemente compreendidas.
Voltei a pensar sobre o arrependimento de uma forma mais ampla, menos ligada aos episódios particulares da minha história e mais relacionada à própria condição humana. Afinal, quem atravessa a vida sem jamais olhar para trás e imaginar como tudo poderia ter sido diferente?
Foi nesse movimento que reencontrei Friedrich Nietzsche. Em A Gaia Ciência, no célebre aforismo 341, ele apresenta aquilo que se tornou conhecido como o experimento do eterno retorno.
Nietzsche ali convida o leitor a imaginar uma cena. Estamos na mais profunda solidão quando um demônio surge diante de nós e faz uma revelação perturbadora: esta vida, exatamente como a vivemos agora e como já a vivemos até aqui, deverá ser vivida outra vez, e ainda inúmeras vezes mais. Nada será diferente. Cada alegria, cada tristeza, cada pensamento, cada erro, cada encontro, cada despedida e cada instante retornarão exatamente como aconteceram, na mesma ordem e da mesma maneira.
Em uma das passagens mais célebres da filosofia moderna, Nietzsche convida o leitor a imaginar a própria reação diante dessa revelação. Como responderíamos ao saber que cada instante, cada perda, cada amor, cada alegria e cada sofrimento retornariam infinitamente, sempre na mesma ordem e da mesma maneira?
A força dessa ideia não está apenas na hipótese em si, mas no impacto que ela produz em quem a escuta. Pelo menos é assim que eu a compreendo. Não posso afirmar o que Nietzsche pretendia em última instância ao formular essa provocação. A leitura que faço é que o centro da questão está menos na estrutura do universo e mais na nossa capacidade de afirmar a própria existência.
O experimento parece funcionar como uma espécie de espelho moral e existencial, diante do qual somos obrigados a perguntar não apenas se suportaríamos repetir a vida que tivemos, mas se estamos vivendo de um modo que mereceria ser repetido.
Sob essa perspectiva, o arrependimento adquire um significado completamente novo. Ele deixa de ser apenas uma lamentação sobre aquilo que passou e passa a se tornar um critério para aquilo que fazemos agora. Afinal, se cada gesto, cada escolha e cada renúncia estivessem destinados a retornar eternamente, o que isso diria sobre a forma como estamos conduzindo nossa vida?
Talvez seja justamente por isso que a ideia do eterno retorno continue tão inquietante. Porque ela não nos permite esconder certas perguntas:
A forma como amamos mereceria eternidade?
A forma como tratamos aqueles que nos cercam mereceria eternidade?
Os projetos que adiamos, os afetos que negligenciamos, os medos que continuam governando nossas decisões mereceriam eternidade?
Talvez seja aí que o arrependimento revele sua utilidade mais profunda. Não como uma condenação, mas como um sinal. Não como uma sentença definitiva sobre aquilo que fomos, mas como um convite para refletirmos sobre aquilo que ainda estamos nos tornando.
Nietzsche desconfiava do arrependimento quando ele virava culpa estéril, quando nos fazia ajoelhar diante do passado como se ainda pudéssemos negociar com ele.
O passado não muda.
Mas aquilo que fazemos com ele, sim.
Talvez a pergunta não seja apenas: “Do que me arrependo?”
Talvez seja: “Quem eu me torno depois disso?”
Porque o criador não é aquele que nunca erra. É aquele que transforma até o erro em matéria-prima. Que olha para a própria vida, com suas falhas e feridas, e tenta arrancar dali alguma forma de verdade. No fundo, o eterno retorno nos coloca diante de uma exigência brutal: viver de tal modo que, se tudo voltasse, ainda assim pudéssemos dizer:
Sim. Foi minha vida. Com dor, com falha, com beleza. Mas foi minha.
E é provável seja esse o desafio do agora: não apagar o arrependimento, mas escutá-lo. Não para voltar atrás, mas para seguir mais inteiro. Afinal, o arrependimento olha para trás. Mas a vida, essa vida que insiste, continua perguntando, todos os dias: quem você escolhe ser agora?
Pois bem!
Somente neste feriado, depois que Nietzsche entrou na conversa, percebi que minha resposta estava incompleta. Continuo tendo arrependimentos, mas já não os carrego como acusações. Carrego-os como testemunhas da travessia.
E se alguém me perguntar novamente se tenho arrependimentos, responderei que sim, claro. Mas direi também que, com o tempo, compreendi que a questão mais importante não está naquilo que eu faria diferente, e sim na pessoa que me tornei por ter vivido exatamente a vida que até aqui vivi.