WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Nem Sempre é Sobre o Que Procuramos
Agora, nesta noite de sábado, em que até o Rio de Janeiro parece ter se rendido a um raro frio, encontro-me diante de uma casa silenciosa. Os corredores guardam uma quietude incomum, dessas que ampliam os pensamentos e tornam cada lembrança mais nítida.
Os meus mais queridos seguiram seus destinos, cada qual habitando seus próprios universos particulares, suas rotas, seus compromissos, seus encontros. E eu, acompanhado apenas pelo rumor distante da cidade e pelo som discreto do tempo passando, vim me sentar à escrivaninha.
Foi então que me deparei com uma frase de Chico Buarque: “Às vezes o que a gente procura não é o que a gente procura. É o que a gente encontra.”
E como quase tudo o que Chico escreve, a frase parece simples apenas à primeira vista. Depois, abre-se como uma janela para paisagens interiores que nem sabíamos existir.
Ela carrega uma delicada ambiguidade.
Pode ser frustração, porque nem sempre a vida entrega aquilo que desejamos. Pode ser descoberta, porque às vezes o inesperado nos encontra antes que encontremos qualquer coisa. Pode ser ironia, porque a existência parece divertir-se desmontando nossos planos mais cuidadosamente elaborados. E pode ser esperança, porque há caminhos que só se revelam quando nos perdemos do destino original.
Talvez a grande sabedoria escondida nessa frase seja a compreensão de que o ser humano vive procurando nomes para aquilo que ainda não conhece.
Procuramos pessoas e encontramos versões de nós mesmos. Procuramos respostas e encontramos perguntas mais profundas. Procuramos certezas e encontramos horizontes. Procuramos o fim da estrada e descobrimos que a estrada era o próprio sentido.
Há uma arrogância silenciosa em acreditar que sabemos exatamente o que buscamos. A vida, contudo, é uma professora que raramente entrega a lição na ordem esperada. Ela prefere surpreender. Prefere conduzir por atalhos improváveis. Prefere revelar significados apenas quando olhamos para trás.
Quantas vezes lamentamos portas fechadas sem perceber que atrás delas estavam prisões disfarçadas de oportunidades?
Quantas vezes choramos ausências que mais tarde compreenderíamos como livramentos?
Quantas vezes perseguimos um sonho para descobrir que ele era apenas uma ponte para algo maior?
O desencontro entre aquilo que imaginamos procurar e aquilo que efetivamente encontramos não é necessariamente um fracasso. Muitas vezes é a assinatura invisível do destino corrigindo a rota da nossa limitada compreensão.
Porque nós enxergamos o próximo passo.
A vida enxerga a travessia inteira.
E então compreendo que a frustração tem seu propósito. Ela nos ensina humildade diante da realidade e nos impede de transformar desejos em ídolos.
A descoberta também possui seu propósito. Ela expande as fronteiras daquilo que imaginávamos possível e nos apresenta territórios que jamais visitaríamos por escolha própria.
A ironia tem sua função. Ela quebra a rigidez dos nossos planos e nos lembra que não somos os autores absolutos da história que vivemos.
E a esperança, essa companheira obstinada, talvez seja a mais bela de todas. Porque ela permanece. Permanece quando os mapas falham. Permanece quando as respostas tardam. Permanece quando o caminho desaparece sob a neblina.
A esperança é a coragem de continuar caminhando mesmo quando o coração ainda não compreendeu o sentido da jornada.
Talvez, ao final, a grande verdade seja esta: Não fomos feitos apenas para encontrar aquilo que procuramos. Fomos feitos para sermos transformados pelo caminho.
E quando a vida nos entrega algo diferente do que pedimos, nem sempre está nos negando um destino. Às vezes está nos oferecendo outro.
Porque há buscas que terminam em conquistas. Mas há outras, muito mais raras e preciosas, que terminam em revelação.
Há momentos em que pensamos estar perseguindo algo distante, quando, na verdade, é o encontro que nos persegue silenciosamente. Como se a vida soubesse, antes de nós, aquilo que realmente importa.
E então compreendemos que a frustração não veio para nos ferir, mas para abrir espaço. Que a descoberta não veio para nos surpreender, mas para nos despertar. Que a ironia não veio para nos ridicularizar, mas para nos ensinar a leveza diante do imprevisível. E que a esperança não veio para prometer certezas, mas para manter acesa a chama da travessia.
No fim, talvez o sentido da existência não esteja em alcançar exatamente aquilo que imaginamos. Talvez esteja em desenvolver olhos capazes de reconhecer a beleza daquilo que nunca ousamos imaginar.
Porque a vida, em sua misteriosa sabedoria, não se limita a responder nossas perguntas. Ela cria perguntas melhores.
Não apenas realiza nossos planos. Ela amplia nossos horizontes.
Não apenas nos conduz a lugares. Ela nos transforma em alguém capaz de habitá-los.
E quando finalmente olhamos para trás, contemplando os caminhos percorridos, os sonhos perdidos, as portas fechadas, os desvios inesperados e os encontros improváveis, percebemos algo extraordinário: Nada foi em vão. Nem a espera.
Nem a dúvida. Nem a queda. Nem o recomeço.
Tudo conspirava silenciosamente para nos conduzir àquilo que não sabíamos procurar, mas que sempre esteve destinado a ser encontrado.
E talvez seja essa a mais sublime das verdades:
A vida é maior do que os nossos planos. O destino é mais sábio do que as nossas certezas. E o que verdadeiramente nos transforma quase nunca é aquilo que perseguimos. É aquilo que, um dia, inesperadamente, nos encontra.
Curioso... vim para esta escrivaninha pensando em escrever sobre uma frase que ouvi esta semana: "A expectativa é a raiz de todo sofrimento."
Era isso que eu procurava.
Mas não foi isso que encontrei.
Encontrei Chico.
E, através de uma simples frase, encontrei também algo que talvez faça ainda mais sentido para encerrar esta semana: a vida nem sempre responde às nossas expectativas; muitas vezes ela nos surpreende com encontros.
Nesta noite fria, recolho-me em paz. Eu procurava uma reflexão sobre expectativas. Encontrei uma reflexão sobre a beleza do inesperado.
E talvez seja exatamente por isso que algumas procuras valem tanto a pena.
Porque, às vezes, não encontramos o que buscamos. Encontramos o que precisávamos.
Por certo, na próxima semana haverá novas expectativas. Mas, depois desta noite, sigo aberto também aos caminhos que não planejei.