WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Última Pessoa

 

Neste sábado chuvoso, como em tantas outras madrugadas de fim de semana, vim para minha escrivaninha.

 

Há um ritual silencioso que se repete há tempos.

 

Enquanto a cidade dorme e a chuva conversa baixinho com os telhados, eu me sento diante dos livros que me acompanham pela vida. Alguns são velhos amigos. Outros, mestres que jamais conheci pessoalmente, mas que me ensinaram a enxergar o mundo por ângulos que meus próprios olhos não alcançavam.

 

Nessas horas, costumo caminhar entre os grandes pensadores, revisitar pequenos casos da vida cotidiana, recordar minhas próprias histórias, minhas vitórias, meus fracassos, meus amores, minhas despedidas.

 

E não é incomum que, desse encontro entre memórias e palavras, nasça alguma reflexão.

 

Mas hoje foi diferente. Fiquei alguns minutos diante do notebook procurando algo para ler. Nada! Olhei para os livros que me cercam. Nenhum me chamou. Nenhuma página me convidou. Nenhum autor pareceu ter algo a me dizer.

 

Então resolvi fazer um exercício de imaginação. Talvez o mais estranho que já fiz.

 

Imaginei que eu havia morrido.

 

Imaginei meu corpo imóvel, repousando dentro de uma urna silenciosa, cercado por flores que já começavam a perder o perfume. Havia muitas pessoas ali. Rostos conhecidos. Alguns poucos amigos. Alguns parentes. Alguns poucos companheiros de caminhada.

 

Todos me observavam em silêncio. Uns choravam discretamente. Outros pareciam apenas perdidos dentro das próprias lembranças.

 

Então chegou o momento inevitável. A despedida final. A terra começou a cair. Primeiro devagar. Depois contínua. Como o próprio tempo.

 

E quando tudo terminou, as pessoas começaram a ir embora.

 

Uma por uma. Sem exceção. Voltariam para suas casas. Para seus compromissos. Para seus problemas. Para seus sonhos. Para suas alegrias.

 

A vida continuaria. Exatamente como continuava antes da minha partida. Porque a vida sempre continua. Por mais duro que seja admitir.

 

O mundo não para para lamentar ninguém por muito tempo.

 

Mas, na minha imaginação, cinco pessoas permaneceram. Cinco ainda estavam ali. Imóveis. Silenciosas. Sofrendo.

 

Olhei para elas.

E fiquei pensando.

Quem seriam?

Os filhos?

Um irmão?

Minha Diva?

Talvez.

 

Mas o pensamento não parou aí.

 

Porque o tempo também passou para aquelas cinco pessoas. E então quatro delas encontraram forças para partir. Levantaram a cabeça. Enxugaram as lágrimas. E seguiram seus caminhos, como todos os outros. Até que restou apenas uma.

 

Somente uma. Ela continuava ali. Parada.

 

O dia terminava. Ela permanecia.

A tarde se despedia. Ela permanecia.

As sombras da noite começavam a ocupar o horizonte. E ela permanecia.

 

Foi então que surgiu a pergunta mais importante que fiz a mim mesmo em muito tempo nessa observação imaginária: Quem é a última pessoa do meu velório?

 

Foi então que compreendi.

Aquela pessoa era eu.

Sempre fui eu.

 

Porque, no final, ninguém permanece mais tempo diante da nossa história do que nós mesmos.

 

As pessoas nos amam. Mas não podem viver por nós.

As pessoas nos ajudam. Mas não podem decidir por nós.

As pessoas nos abraçam. Mas não podem carregar nossas dores até o fim.

 

Ninguém pode curar as feridas que escolhemos ignorar. Ninguém pode realizar os sonhos que deixamos para depois. Ninguém pode recuperar o tempo que desperdiçamos. Ninguém pode escrever os capítulos que tivemos medo de viver.

 

No fim, somos nós que permanecemos diante da soma de tudo aquilo que fizemos. E, principalmente, diante daquilo que deixamos de fazer. Diante das palavras que não dissemos. Dos perdões que não concedemos. Dos abraços que adiamos.

Dos sonhos que deixamos estacionados em algum lugar entre o medo e a conveniência.

 

Foi nesse instante que percebi algo ainda mais importante. Todo aquele exercício não falava verdadeiramente sobre a morte. Falava sobre a vida.

 

A morte era apenas a moldura que minha imaginação havia escolhido para me obrigar a enxergar aquilo que, muitas vezes, a correria dos dias não me permite ver.

 

Porque essa prosa não é sobre o fim.

É sobre o intervalo.

 

Sobre o que fazemos entre o primeiro choro e o último suspiro. Sobre a responsabilidade silenciosa de construir uma existência que faça sentido enquanto ainda temos tempo para construí-la.

 

E então compreendi que a última pessoa do velório, quando realmente chegar a minha vez, não precisará ser uma testemunha de arrependimentos. Ela poderá ser apenas uma testemunha da travessia. Alguém capaz de olhar para toda a estrada percorrida e reconhecer que houve quedas, erros, fracassos e cicatrizes, mas que houve também coragem.

 

Coragem para amar.

Coragem para recomeçar.

Coragem para permanecer de pé quando seria mais fácil desistir.

 

Porque eu creio que ninguém parta desta vida com todos os sonhos realizados. Mas existe uma diferença profunda entre quem apenas atravessa os dias e quem verdadeiramente os habita.

 

E eu gostaria, embora saiba que não possa, que aquela última pessoa pudesse dizer: "nem todos os meus sonhos encontraram o mundo. Nem todos os caminhos me levaram onde imaginei. Houve portas que permaneceram fechadas e despedidas que jamais deixaram de doer. Mas eu não traí aquilo que havia de mais verdadeiro dentro de mim. Amei quando pude amar. Perdoei quando compreendi o valor do perdão. Caí inúmeras vezes, mas não transformei minhas quedas em morada. E quando a vida me chamou para viver, eu não respondi apenas com planos. Respondi com presença."

 

Enquanto esses pensamentos ainda percorriam minha mente, percebi que a chuva havia parado lá fora. O sol já começava a despontar, mas era o mesmo sábado.

 

Só que eu já não era o mesmo homem sentado diante daquela escrivaninha.

 

Porque compreendi com mais lucidez que ainda havia tempo.

 

Tempo para perdoar. Tempo para agradecer. Tempo para abraçar. Tempo para dizer aquilo que o orgulho insiste em calar. Tempo para recomeçar.

 

E, sobretudo, tempo para fazer com que a última pessoa que um dia permanecerá diante da minha história encontre não um homem perfeito, porque homens perfeitos não existem, mas um homem que ousou viver com a intensidade dos que entendem que a vida é breve demais para ser adiada.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 13/06/2026
Alterado em 13/06/2026
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