WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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O Choro de Messi

 

Como faço na maioria das madrugadas dos sábados e domingos, nesta, uma vez mais sentei-me à escrivaninha buscando reunir palavras que reflitam as nuances da vida. A minha. A que silenciosamente assisto no cotidiano dos outros. Ou ainda, aquelas outras que, sem pedir licença, me atravessam deixando reflexões sobre acontecimentos ou mistérios jamais completamente explicados.

 

Hoje, o tema chegou pelas portas do futebol.

 

A Copa ocupa manchetes, rodas de conversa, telas e expectativas. Mas confesso que já não me atrai como outrora. Talvez porque, em um Brasil tão dividido por ideias, paixões e extremos, até o futebol tenha sido arrastado para territórios onde antes não habitava.

 

Tenho saudade de outros tempos. Tempos em que a festa do futebol parecia capaz de suspender diferenças, quando as ruas se enchiam de cores sem que fosse necessário perguntar de que lado alguém estava. Quando o gol era apenas um gol. Quando a alegria era compartilhada sem filtros, sem rótulos e sem suspeitas.

 

Assim mesmo, algo marcante chamou a minha atenção nesta Copa: o choro de Messi.

 

Em uma partida memorável, marcou três gols. Mais uma vez confirmou aquilo que o mundo inteiro já reconhece: trata-se de um jogador extraordinário, um dos maiores talentos que sua geração produziu, um atleta que transformou genialidade em rotina e que construiu uma trajetória reservada a poucos seres humanos.

 

Quando as lágrimas surgiram, muitos imaginaram que fossem fruto da emoção da partida, da atuação brilhante, do reconhecimento de uma carreira quase irrepetível. Mas não. Mais tarde, ao explicar o momento, disse apenas: "Passei por alguns dias difíceis e complicados."

 

Li depois que a razão estaria relacionada a uma enfermidade grave enfrentada por seu pai.

 

E foi a partir daí então que o futebol desapareceu. Restou apenas a vida.

 

Aqui, no silêncio do meu Recanto, fiquei pensando não nas fragilidades da vida, mas nas suas vulnerabilidades inevitáveis. Naquelas rachaduras invisíveis por onde a dor encontra passagem, independentemente do endereço onde moramos ou da conta bancária que possuímos.

 

Fala-se que Messi acumulou uma fortuna superior a um bilhão de dólares. Uma cifra tão distante da realidade da maioria das pessoas que mal conseguimos dimensioná-la. E, no entanto, nenhuma quantidade de dinheiro consegue comprar a tranquilidade diante do sofrimento de quem amamos. Nenhuma fortuna impede uma ligação inesperada. Nenhum patrimônio cancela um diagnóstico. Nenhum troféu anestesia a angústia.

 

Enquanto muitos enfrentam jornadas exaustivas, acordando antes do amanhecer para pegar trens lotados, ônibus abarrotados, enfrentar horas de trânsito, bater ponto, carregar peso, suportar chefias difíceis, lidar com contas vencendo, filas intermináveis e preocupações que nunca parecem tirar férias, outros vivem cercados de conforto, reconhecimento e abundância.

 

Mas a dor não consulta extratos bancários. A tristeza não exige comprovante de renda. A angústia não respeita posição social. E a depressão, quando chega, não pergunta quantos seguidores alguém possui, quantos títulos conquistou ou quanto dinheiro acumulou.

 

Cada ser humano trava batalhas que quase nunca aparecem nas fotografias. Existem guerras acontecendo dentro das pessoas enquanto elas sorriem. Tempestades escondidas atrás de discursos confiantes. Noites insones por trás de agendas impecavelmente organizadas. Há quem carregue o mundo nos ombros e ninguém perceba.

 

Messi, sem querer, descortinou uma das maiores ilusões da existência humana: a mentira de que existe um lugar onde tudo se resolve. Um ponto de chegada. Uma conquista definitiva. Uma montanha tão alta que, ao alcançá-la, finalmente cessariam as preocupações, os medos e as dores.

 

Não existe.

 

O ser humano passa a vida acreditando que será feliz quando chegar ao próximo degrau. Quando comprar. Quando conquistar. Quando trocar de emprego. Quando se aposentar. Quando vencer. Quando finalmente alcançar aquilo que hoje parece faltar.

 

Mas a vida continua chegando.

 

Porque a felicidade não mora no próximo passo. Ela caminha ao lado dele.

 

Messi alcançou quase tudo o que um jogador poderia desejar e, ainda assim, descobriu o que todos nós descobrimos cedo ou tarde: existem dores que nenhuma conquista resolve. Existem ausências que nenhum sucesso preenche. Existem preocupações que nenhum aplauso silencia.

 

A vida não possui um "modo avião" emocional. Não existe botão capaz de desconectar a alma das suas inquietações. Não há área VIP contra o sofrimento. Não há blindagem definitiva contra a perda. Não há currículo capaz de imunizar alguém contra o medo.

 

Ouço sempre de minha Diva uma frase simples, mas que revela uma sabedoria enorme: "A vida acontece."

 

Porque a vida não está nos aguardando na linha de chegada. Ela acontece durante o percurso. Enquanto estamos ocupados planejando o amanhã, perseguindo metas, resolvendo problemas e acreditando que a felicidade mora logo depois da próxima conquista, os dias seguem correndo por entre os dedos.

 

A vida acontece nos intervalos. No café tomado às pressas. Na ligação que deixamos para depois. No abraço que acreditamos poder adiar. No instante comum que julgamos sem importância. E, muitas vezes, quando finalmente olhamos para trás, percebemos que aquilo que chamávamos de espera era, na verdade, a própria vida acontecendo.

 

Por isso talvez o verdadeiro desafio não seja alcançar um lugar onde todos os problemas desapareçam. Talvez seja aprender a caminhar mesmo quando eles permanecem. Aprender a agradecer sem ignorar as dores. Aprender a celebrar sem negar as preocupações. Aprender a amar sabendo que tudo é passageiro.

 

Naquela noite, Messi não chorava como um ídolo. Chorava como um filho. E naquele instante, por trás dos gols, dos recordes e dos milhões, estava apenas um homem descobrindo aquilo que todos nós, em algum momento, também descobrimos: que a condição humana nos iguala muito mais do que qualquer conquista é capaz de nos diferenciar.

 

Depois do choro de Messi e das reflexões que ele provocou por aqui, percebi que encontrei um sentido para esta Copa muito além das quatro linhas. Não veio de um gol antológico, da expectativa de uma classificação de uma taça a ser erguida ao céu que me marcou. Foi a lembrança de que, por trás dos uniformes, dos holofotes e das estatísticas, existem seres humanos enfrentando seus próprios campeonatos invisíveis.

 

Aprendi que a vida não distribui cartões vermelhos apenas aos pobres nem reserva os gramados perfeitos aos ricos. Todos, sem exceção, entram em campo carregando dores que a arquibancada não vê. Alguns disputam prorrogações contra a saudade, outros enfrentam cobranças de pênaltis contra o medo, a ansiedade, a culpa ou a preocupação com aqueles que amam. E não há talento, fama ou fortuna capazes de evitar certas partidas que a existência insiste em marcar.

 

Por tudo isto, talvez a maior conquista não seja levantar troféus, mas permanecer jogando quando o coração pede descanso. Talvez nem sempre vencer signifique chegar primeiro, mas encontrar coragem para seguir adiante mesmo quando o placar da vida parece desfavorável.

 

Messi me recordou que enquanto vivemos não existe apito final para as emoções humanas e que nenhuma medalha substitui a paz de quem amamos estar bem. Por isso encerro esta prosa com uma certeza simples: enquanto perseguimos títulos, metas e conquistas, a vida segue acontecendo no meio-campo dos dias comuns. E talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente em não deixar que a busca pela próxima vitória nos faça perder o jogo que está sendo disputado agora.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 20/06/2026
Alterado em 20/06/2026
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