WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Meu Choro
Esta madrugada foi de lembranças e saudades.
Daquelas madrugadas em que o silêncio parece ganhar voz, em que a ausência senta ao nosso lado e, sem pedir licença, abre antigos álbuns da memória. Vivo o meu sexto ano sem a presença física do meu pai. E justamente na semana em que se completam seis anos de sua partida, depois de ter escrito sobre o choro de Messi nesta Copa, emoção que, segundo fontes jornalísticas, guardava relação direta com os desafios e o sofrimento enfrentados por seu pai, permiti-me também este instante de saudade.
Porque, por mais que eu compreenda que a morte nada mais é do que o inevitável destino de quem vive, existem dias em que a razão se curva diante da memória. E hoje é um desses dias.
Nessa travessia pelas recordações, deparei-me com uma frase cuja autoria desconheço, mas cuja verdade me atravessou de forma quase dolorosa: "O dia que você sepultar seu pai será o dia que perceberá que perdeu o único homem que desejava te ver melhor do que ele mesmo."
E essa é a minha realidade.
Há nuances profundas nessa frase. Porque ela não fala apenas de amor. Fala de renúncia. Fala daquele sentimento raro que encontra felicidade não nas próprias conquistas, mas na esperança de que o filho alcance lugares onde o pai jamais chegou.
Foi assim com seu Jotha, meu pai.
É verdade que ele não exerceu sem máculas o difícil ofício de ser pai. Mas quem de nós atravessa a vida sem cicatrizes? Muitas de suas limitações nasceram da própria história que recebeu. Foi um homem que cresceu sem referências abundantes, sem manuais, sem exemplos prontos para seguir. Herdou mais ausências do que orientações.
Por isso, precisou construir seus próprios parâmetros. Precisou descobrir sozinho o que significava ser homem, esposo, pai e chefe de família. E nessa busca encontrou inspiração onde seu coração reconheceu grandeza: no meu avô materno, homem que ele admirava profundamente. Dessa admiração nasceu parte da bagagem moral que carregou pela vida. Uma bagagem feita de fé, de respeito, de temor a Deus e de uma inquietação permanente para melhorar aquilo que ele mesmo reconhecia como falho.
Poucas qualidades são tão nobres quanto essa capacidade de olhar para si mesmo e admitir que ainda há algo a aprender. Seu Jotha carregava essa virtude. Era um homem de fé. Não uma fé de discursos elaborados, mas uma fé vivida. Daquelas que sustentam os dias difíceis, que ajudam a recomeçar quando tudo parece perdido e que fazem o homem acreditar que Deus ainda está escrevendo capítulos quando nós imaginamos ter chegado ao fim da história.
Lembro-me especialmente das madrugadas. Enquanto todos dormiam, ele já estava de pé. Quatro horas da manhã. Pontualmente. No seu pequeno cantinho de conexão com o Alto.
Ali, antes que o sol anunciasse um novo dia, seu Jotha conversava com Deus. Não por obrigação. Não por ritual. Mas por convicção. Pela certeza serena de quem sabia que existe uma força maior conduzindo os caminhos da vida.
E foi naquele pequeno cantinho de conexão com o Alto que muito mais do que orações foram erguidas. Ali, destinos foram tocados. Ali, lágrimas silenciosas transformaram-se em esperança. Ali, pedidos de um pai amoroso subiram aos céus carregados de uma devoção que só quem ama profundamente seus filhos é capaz de compreender.
Hoje, olhando para trás, não tenho dúvidas de que muitas das bênçãos que alcançaram a minha vida, a vida dos meus irmãos e a vida daqueles que amamos nasceram naquele espaço simples, onde um homem comum se encontrava diariamente com um Deus extraordinário. Porque seu Jotha não orava apenas por si. Orava principalmente por nós. Pelos nossos sonhos, pelas nossas lutas, pelos nossos medos e pelos caminhos que ainda nem havíamos percorrido.
E gosto de acreditar que muitas portas se abriram, muitos livramentos aconteceram e muitos destinos foram suavemente conduzidos pelas mãos divinas porque havia um pai de joelhos dobrados, às quatro da manhã, apresentando cada um de nós Àquele que tudo pode.
Talvez jamais saibamos quantas de suas preces foram atendidas. Mas basta olhar para a história da nossa família para perceber que Deus certamente escutava aquele homem.
Por isso esse momento de abraçar suas virtudes. De recordar a grandeza do seu coração. De agradecer pelo pai que foi, pelo amigo que se tornou e pelo legado que continua vivo em cada memória que o tempo se recusa a apagar.
Porque a morte tem o poder de interromper presenças, mas jamais consegue apagar legados.
Recordo-me que nos seus últimos anos fomos mais do que pai e filho. Fomos amigos. Fomos confidentes. Fomos companheiros de conversas longas, de risadas sinceras e de confidências que apenas o tempo e a maturidade conseguem proporcionar.
Rimos muito juntos. E hoje, entre todas as lembranças, talvez sejam justamente essas gargalhadas que mais ecoem dentro de mim. Porque nelas estava a amizade que floresceu entre dois homens que aprenderam a se admirar mutuamente.
Seu Jotha era um homem simples em muitas coisas, mas gigante naquilo que realmente importa. Tinha defeitos, como todos nós. Cometeu erros, como todos nós. Mas possuía uma característica que o tornava especial: nunca deixou de tentar ser melhor do que havia sido no dia anterior.
E talvez seja essa a maior herança que um pai possa deixar. Não os bens. Não os títulos. Não os patrimônios. Mas o exemplo silencioso de quem lutou diariamente para se tornar uma pessoa melhor.
Hoje, seis anos depois de sua partida, a saudade continua existindo. Menos cortante do que antes. Menos desesperadora do que nos primeiros dias. Mas ainda presente. Porque algumas ausências não passam. Elas apenas aprendem a morar dentro de nós.
E talvez por isso eu tenha compreendido tão bem o choro de Messi. Naquela prosa, escrevi sobre as lágrimas de um filho diante do sofrimento de seu pai. Hoje, porém, sou eu quem chora. Mas não porque meu pai sofre. Disso estou em paz. Ele já transcendeu todas as dores que a vida impõe aos homens. Está a espera do tempo onde não haverá enfermidade, limitações ou sofrimento. Onde a finitude já não o alcançará e onde o amor de Deus preenche todos os espaços.
Assim, as minhas lágrimas nascem de outro lugar. Nascem da memória. Nascem da gratidão. Nascem da falta que faz um homem cuja passagem pela Terra deixou marcas profundas demais para serem apagadas pelo tempo.
Choro porque existem pessoas que, mesmo ausentes, continuam ocupando espaços inteiros dentro de nós. E meu pai é uma delas.
Seu Jotha partiu. Mas permanece.
Se hoje existe algo de bom em mim, uma parte desse bem tem suas digitais.
Por isso, nesta madrugada de saudade, não celebro a ausência. Celebro a honra de ter sido filho de um homem que, à sua maneira, com suas virtudes e imperfeições, desejou me ver chegar mais longe do que ele chegou.
Celebro o pai que orou quando eu nem sabia que precisava de oração. Celebro o homem que acreditou em mim antes mesmo que eu acreditasse em mim mesmo. Celebro o amigo que a vida me permitiu conhecer de forma mais profunda nos seus últimos anos.
E celebro, acima de tudo, a dádiva de ter sido amado por alguém que jamais mediu esforços para ver seus filhos caminhando por estradas melhores do que aquelas que ele próprio percorreu.
Talvez seja por isso que aquela frase tenha me atingido tão profundamente nesta madrugada.
E quando a vida nos faz compreender isso, a saudade deixa de ser apenas ausência. Transforma-se em gratidão.
No meu caso, gratidão por ter sido filho de seu Jotha. Gratidão por ter sido amado por um homem que, entre todos os seus sonhos, carregava um que talvez fosse o maior de todos: ver seus filhos serem melhores do que ele próprio acreditava ter sido.
Talvez seja exatamente isso que os grandes pais fazem.
Partem um dia.
Mas continuam caminhando conosco para sempre.