WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Manhã, as Notícias e Cervantes
Nesta manhã fria de São Paulo, como faço em todas as manhãs, bebendo o leite quente, ainda fumegante, rolei as telas do celular ao encontro das notícias do Brasil e do mundo. É quase um ritual silencioso, uma tentativa de compreender, ainda que minimamente, o estado das coisas e o pulsar do nosso tempo.
As manchetes, como de costume, não eram um convite à serenidade. Havia notícias de guerras que continuam a espalhar dor e destruição; disputas políticas cada vez mais acirradas, nas quais adversários parecem ter se tornado inimigos; crises econômicas que inquietam famílias inteiras e, entre tantas turbulências, as páginas esportivas trazendo um breve alento: a vitória do Brasil na véspera, com Neymar novamente em campo, como se o futebol ainda preservasse essa rara capacidade de, por alguns instantes, reunir esperanças e suspender as inquietações do mundo.
No noticiário do dia, deparei-me até com uma crise familiar transformada em notícia nacional, revelando uma das grandes ironias do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados pelas máquinas e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros na difícil arte de compreender, acolher e permanecer.
Por alguns instantes, tive a sensação de que vivemos permanentemente cercados por tempestades. Algumas são coletivas e ganham os noticiários do planeta; outras são discretas, pessoais, e acontecem no silêncio das casas e dos corações.
Foi então que me ocorreu esta passagem de Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de la Mancha: “Sabe, Sancho (…) todas essas tempestades que acontecem conosco são sinais de que em breve o tempo se acalmará; porque não é possível que o bem e o mal durem para sempre, e segue-se que, havendo o mal durado muito tempo, o bem deve estar por perto.”
Talvez resida aí uma das mais profundas intuições da condição humana: a impermanência.
Nenhuma tempestade é eterna. Nem a que se forma no horizonte das nações, nem a que se instala dentro de nós. O sofrimento possui a aparência da eternidade quando o atravessamos, mas a própria vida é um movimento incessante de chegadas e partidas, de perdas e reencontros, de invernos e primaveras.
O mal é ruidoso. Faz barulho. Ocupa as manchetes. Impõe-se aos olhos e reivindica para si uma aparência de permanência. O bem, ao contrário, costuma chegar em silêncio. Aproxima-se discretamente, quase sem ser percebido, como a luz que lentamente dissolve a escuridão de uma madrugada.
Talvez seja por isso que a esperança não seja um exercício de ingenuidade, mas de coragem. Esperar não é ignorar as guerras, nem fechar os olhos para as disputas, nem fingir que as dores humanas não existem. Esperar é olhar para tudo isso e, ainda assim, recusar-se a acreditar que a tempestade seja a última palavra.
Porque a vida, afinal, parece obedecer a um ritmo mais antigo e mais sábio do que as manchetes do dia. E talvez Cervantes tivesse razão: se o mal tem perdurado por tanto tempo, se tantas nuvens ainda ocupam o horizonte do mundo e das nossas próprias existências, quem sabe o bem já não esteja a caminho.
Talvez ele esteja chegando exatamente agora, silencioso e invisível, como a manhã que, mesmo em um dia frio de São Paulo, insiste em nascer outra vez.