WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Os Erros de Quem Só Queria Acertar
Na terceira hora deste domingo, numa madrugada paulistana fria, eu estava onde meus fins de semana quase nunca me encontram. Não havia o mar do Rio de Janeiro, cidade onde resido e onde aprendi a medir o tempo pela luz que repousa sobre as montanhas ou pelo rumor das ondas que insistem em conversar com a areia. Havia São Paulo. Havia o frio. Havia a quietude de uma cidade que, mesmo imensa, às vezes nos oferece o raro privilégio do silêncio.
E são justamente esses pequenos desencontros com a rotina que nos devolvem a nós mesmos.
Foi nesse intervalo entre a madrugada e os primeiros sinais do dia que me deparei com uma frase registrada por Olga Borelli, amiga íntima e biógrafa de Clarice Lispector. Ao compor a obra Clarice Lispector: esboço para um possível retrato, Borelli entrelaçou relatos, impressões pessoais e reflexões na tentativa de aproximar o leitor da essência quase indecifrável de Clarice. A frase, portanto, reflete a interpretação e a voz de Olga Borelli sobre essa essência, e não um trecho ditado ou publicado pela própria Clarice em seus romances.
A frase é esta:
“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.”
E é exatamente aí que a vida parece nos encontrar: não nas grandes realizações, nem nas certezas cuidadosamente construídas, mas nessa confissão silenciosa de quem tentou, falhou, voltou atrás, carregou arrependimentos e continuou caminhando.
Há erros que não nascem da maldade. Nascem do excesso de cuidado. Da urgência de corresponder às expectativas. Do desejo de proteger quem amamos. Da necessidade quase infantil de colocar todas as coisas em seus devidos lugares. Erramos, muitas vezes, justamente porque queríamos acertar demais. Porque confundimos cuidado com controle, amor com excesso, prudência com renúncia e responsabilidade com a obrigação de sermos infalíveis.
A ânsia de acertar é uma forma delicada de desespero. Ela se apresenta vestida de boas intenções, mas traz escondida uma cobrança severa. Queremos ser bons filhos, bons pais, bons amigos, bons profissionais, boas pessoas. Queremos atravessar a vida sem decepcionar, sem ferir, sem deixar ausências ou cicatrizes pelo caminho.
Mas a vida, essa professora de métodos imprevisíveis, nos ensina que até o zelo pode tropeçar.
E então passamos anos tentando consertar aquilo que, no fundo, foi apenas humano.
Tentamos corrigir palavras ditas no calor das emoções, silêncios que se prolongaram quando um gesto de afeto era tudo o que se esperava, oportunidades que deixamos escapar por não nos sentirmos suficientemente preparados, relações que não soubemos cultivar na medida exata e vínculos que se enfraqueceram não por falta de amor, mas porque simplesmente não sabíamos, naquele momento, como permanecer.
Tentamos voltar ao instante preciso em que algo se partiu, como se a memória permitisse reparos, como se o tempo aceitasse devoluções.
Mas viver não é acertar sempre. Viver é aprender a contemplar os próprios equívocos sem transformar a alma em um tribunal permanente.
A maturidade começa quando percebemos que nem todo erro é uma sentença. Alguns são apenas cicatrizes do nosso esforço de existir. Marcas deixadas por alguém que fez o melhor que pôde com a consciência que tinha, com os medos que carregava, com o amor que sabia oferecer e com os recursos emocionais de que dispunha naquele momento.
Há uma profunda ternura em reconhecer isso.
Porque, no fundo, quase todos nós estamos tentando acertar. Mesmo quando erramos de maneira dolorosa. Mesmo quando nos tornamos ausentes, confusos, excessivos ou contraditórios. Há dentro de cada pessoa uma distância silenciosa entre aquilo que sonhou ser e aquilo que, de fato, conseguiu se tornar.
E foi por isso que essa frase me atravessou com tanta força. Porque ela não falava apenas de Clarice, nem apenas de Olga, nem apenas da literatura. Ela falava de mim. E, ao falar de mim, parecia também falar de todos nós que seguimos pela vida tentando remendar, compreender, suavizar e, quem sabe um dia, aprender a nos perdoar.
Nesta madrugada fria de São Paulo, longe do mar e estranhamente mais perto de mim mesmo, percebo que a verdadeira sabedoria talvez não esteja em nunca errar, mas em ter coragem de reconhecer a própria imperfeição.
Porque a vida não exige perfeição.
Exige presença.
E, às vezes, o gesto mais humano e mais belo de acerto é deixar de se condenar pelos erros cometidos quando tudo o que se queria, desde o princípio, era simplesmente acertar.