WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Seu nome era Dona Maria de Fátima

 

Ontem à noite, em uma São Paulo fria e apressada, tive um daqueles encontros que duram poucos minutos, mas que permanecem por muito mais tempo dentro de nós.

 

Ela era uma senhorinha. Muito velhinha. Ou ao menos era o que parecia ser pelo estado de desvelo que o tempo havia lhe imposto. Vestia-se com a simplicidade de quem já não tem compromisso com aparências e carregava consigo alguns panos de prato feitos artesanalmente.

 

Provavelmente tinham sido confeccionados por suas próprias mãos. Os pontos de crochê eram irregulares, imperfeitos, alguns até desajeitados. Não havia ali a precisão de quem domina uma técnica; havia algo mais humano. Os pontos pareciam denunciar que os anos já lhe haviam roubado parte da firmeza dos movimentos, da destreza das mãos que um dia, certamente, foram mais precisas e obedientes.

 

Ela conseguira entrar no restaurante onde eu e minha Diva jantávamos, trazendo consigo aqueles panos de prato e a silenciosa dignidade de quem ainda precisa trabalhar para viver.

 

E, com uma sagacidade quase infantil, foi ampliando sua oferta. Começou oferecendo dois panos. Depois, três. Em seguida, quatro. Por fim, cinco. Dirigia-se à minha Diva, que me acompanha neste fim de semana em São Paulo, com a persistência doce de quem ainda acredita que um pouco mais de insistência pode convencer alguém.

 

Era impossível não se sensibilizar.

 

Não pelos panos.

 

Mas pela dignidade.

 

Porque há uma diferença imensa entre pedir e trabalhar. E aquela senhora estava ali defendendo a própria subsistência com aquilo que ainda lhe restava: suas mãos, seu tempo e a esperança de que alguém levasse para casa um pouco do que ela era capaz de produzir.

 

No momento do pagamento, movido por esse sentimento, resolvi transferir um valor superior ao que ela havia me cobrado. Fiz um PIX.

 

Concluída a transferência, disse-lhe que o dinheiro já estava disponível em sua conta.

 

Então aconteceu algo que eu não esperava.

 

Ela se inclinou na direção da tela do meu celular e, com um olhar que me pareceu desconfiado, disse que gostaria de ver se o que eu estava dizendo correspondia à verdade. Não com estas palavras, claro.

 

Confesso: naquele instante, todo o encanto que eu havia construído sobre aquela senhorinha desmoronou.

 

Fui ríspido.

Defendi minha lisura.

Recusei-me a mostrar a tela.

 

Ela, com a humildade que lhe cabia naquele momento, foi embora.

 

E eu fiquei.

 

Mas não fiquei em paz.

 

Desde ontem, essa cena me acompanha.

 

Porque, aos poucos, fui entendendo que o problema talvez nunca tivesse sido a desconfiança daquela senhora, mas a minha incapacidade de compreender de onde ela nascia. E então surgiu a pergunta que mais nos desconcerta: e se o equívoco tivesse sido inteiramente meu?

 

Aquela senhora talvez não tivesse a menor condição de confirmar, naquele momento, se o pagamento realmente havia sido realizado. Talvez sequer soubesse consultar o aplicativo do banco. Talvez dependesse de alguém para verificar sua conta. Talvez já tivesse sido enganada antes por algum aproveitador que lhe prometeu pagar e foi embora sem fazê-lo. Talvez tivesse filhos ou netos que lhe recomendassem, repetidas vezes, que não acreditasse apenas na palavra das pessoas. Talvez sua experiência de vida lhe tivesse ensinado uma lição dura: a de que a pobreza não nos protege dos enganos; ao contrário, muitas vezes nos torna ainda mais vulneráveis a eles.

 

Talvez.

 

Minha Diva, que assistia a tudo, ainda buscou ponderar. Tentou me mostrar outros ângulos daquela cena. Mas a minha inflexibilidade diante daquela suposta afronta à minha honestidade não me permitia enxergar.

 

Minha inflexibilidade durou apenas alguns minutos.

 

A estupidez, às vezes, tem vida curta.

 

A consequência dela, não.

 

Quando me dei conta de que talvez eu tivesse interpretado mal aquele gesto, a senhorinha já havia partido.

 

Seu nome era Maria de Fátima.

 

Eu sei disso porque a transferência que fiz confirmava seu nome.

 

Desde então, penso em Dona Maria de Fátima.

 

É possível que eu nunca mais a encontre. É possível que, ao conseguir confirmar o recebimento do dinheiro, ela tenha se sentido culpada por uma culpa que nunca lhe pertenceu. Porque ela não estava me acusando de desonestidade. Ela queria apenas aquilo que uma máquina de cartão de crédito nos entrega várias vezes ao dia sem que pensemos a respeito: um comprovante.

 

Uma pequena segurança.

Um pedaço de papel.

Uma evidência de que seu trabalho havia sido, de fato, remunerado.

 

Mas eu, na minha necessidade de defender a honra que ninguém efetivamente havia atacado, recusei-me a lhe dar essa tranquilidade porque achei que ela duvidava de mim.

 

E foi então que compreendi algo que a vida insiste em nos ensinar de formas inesperadas: nem toda desconfiança é ofensa; às vezes, ela é apenas o nome que o medo recebe depois de muitas decepções.

 

Na última prosa que publiquei aqui no meu Recanto, também nesta madrugada de domingo, em Os Erros de Quem Só Queria Acertar, falei sobre os equívocos que cometemos na ânsia de fazer o melhor.

 

Dona Maria de Fátima acabou se tornando mais uma página dessa mesma reflexão.

 

Porque, querendo preservar minha dignidade, falhei em preservar a dela.

 

Querendo afirmar minha honestidade, deixei de exercer a virtude mais importante daquele encontro: a compreensão.

Mas a vida é generosa. Ela não desperdiça os nossos erros. Ela os transforma em lições.

 

E Dona Maria de Fátima, sem saber, me deixou mais uma.

 

Aprendi que envelhecer é também acumular receios que os outros desconhecem. Aprendi que cada pessoa carrega batalhas invisíveis e cicatrizes que não aparecem à primeira vista. E aprendi, sobretudo, que ser correto nem sempre é suficiente; é preciso também ser gentil.

 

Porque há momentos em que a verdade de que somos honestos importa menos do que a capacidade de fazer o outro sentir-se seguro.

 

Se eu nunca mais encontrar Dona Maria de Fátima, ainda assim ela terá deixado algo comigo.

 

Ela me recordou que a bondade não termina no gesto de dar. Ela só se completa quando também sabemos compreender os medos de quem recebe.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 28/06/2026
Alterado em 28/06/2026
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