WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Um Bom Dia
Tenho aprendido a desconfiar da importância que só damos aos grandes acontecimentos.
Há quem espere que a vida revele seus melhores ensinamentos nas perdas irreparáveis, nas grandes conquistas ou nos dias extraordinários. Eu não. Com o passar do tempo, fui percebendo que as verdades mais profundas costumam esconder-se nos episódios mais comuns, naqueles que quase passariam despercebidos se não estivéssemos dispostos a olhar com alguma delicadeza.
Talvez esta seja a minha maneira de atravessar os dias: recusar a ideia de que o aparentemente banal seja desprovido de valor. A vida raramente desperdiça um acontecimento. Somos nós que, muitas vezes, desperdiçamos o olhar.
Foi exatamente isso que vivi nesta semana.
Fui chamado porque duas assistentes da empresa, ambas muito queridas, educadas, profissionais dedicadas e sempre vistas como pessoas equilibradas, haviam se desentendido. O desconforto já escapava da esfera pessoal e começava a contaminar o ambiente de trabalho. Não apenas o delas. O setor inteiro parecia respirar um ar mais pesado. Afinal, convivemos em espaços onde as emoções, mais cedo ou mais tarde, encontram uma maneira de atravessar as paredes.
O motivo da divergência era daqueles que provocam um sorriso constrangido.
Se contado rapidamente, pareceria ridículo.
Vivido por quem o sente, torna-se enorme.
Não discutiam metas, processos ou decisões da empresa. Divergiam sobre interpretações da vida, maneiras de agir, pequenas convicções construídas fora dos muros da instituição. Era um desencontro de mundos particulares que, sem pedir licença, invadira o espaço profissional.
Não pretendo fazer aqui qualquer juízo sobre quem tinha razão.
Talvez essa seja justamente a parte menos importante da história.
Provavelmente ambas carregavam suas parcelas de razão e, igualmente, suas parcelas de equívoco. É quase sempre assim nas relações humanas. A razão raramente mora inteira de um único lado. Ela costuma dividir a casa com o orgulho, com a sensibilidade ferida, com as expectativas não correspondidas e, sobretudo, com aquilo que deixamos de dizer no momento certo.
Em meio a tantos compromissos, interrompi o ritmo do dia para ouvi-las.
E desde já confesso que não considerei esse tempo um desperdício.
Os processos obedecem a regras. Os números obedecem à lógica. As pessoas obedecem às emoções. E as emoções nem sempre respeitam a matemática da razão.
Ouvi uma.
Depois ouvi a outra.
E, pouco a pouco, aconteceu algo que nenhuma técnica de mediação seria capaz de produzir sozinha.
Enquanto falavam, começaram a ouvir a si mesmas.
Foi nesse instante que percebi seus semblantes mudarem. Não havia constrangimento por estarem diante de mim. Havia algo mais bonito do que isso.
Havia lucidez.
Como se, pela primeira vez, enxergassem o tamanho diminuto daquilo que havia crescido tanto entre elas.
Em determinado momento, uma delas disse algo que permaneceu comigo muito depois que a conversa terminou.
— Tudo o que eu queria era que você me dissesse "bom dia".
A frase caiu na sala com um silêncio difícil de explicar.
Pensei comigo que uma relação adoece gravemente quando o conflito alcança justamente aquilo que existe de mais simples. O "bom dia" talvez seja o gesto mais democrático da convivência humana. Nós o oferecemos ao vizinho, ao porteiro, ao motorista, à pessoa que encontramos pela primeira vez. É um pequeno reconhecimento de que o outro existe.
Quando até o bom dia desaparece, quase nunca é porque faltam palavras.
É porque sobra distância.
Naquele instante compreendi que os grandes rompimentos raramente começam por grandes acontecimentos. Eles nascem da soma de pequenas ausências. Um cumprimento que deixa de existir. Uma conversa adiada. Um silêncio prolongado. Uma interpretação alimentada em segredo. Um orgulho que encontra abrigo onde antes morava a confiança.
Os ressentimentos possuem uma curiosa maneira de crescer.
Alimentam-se do silêncio.
Quando deixamos de conversar, a imaginação assume o lugar da realidade. Começamos a atribuir intenções que talvez nunca tenham existido. Passamos a responder não às pessoas reais, mas às versões delas que construímos dentro de nós.
Há uma estranha habilidade na natureza humana: fazemos crescer as sombras e encolher as janelas. Um gesto atravessado adquire a espessura de um muro. Anos de convivência passam a valer menos do que um único episódio mal compreendido.
Ao final da conversa, percebi que uma advertência pouco acrescentaria àquelas duas jovens mulheres. Elas já haviam sido suficientemente visitadas pela consciência.
Então, preferi outro caminho.
Em vez da censura, escolhi o reencontro.
Pedi que, no dia seguinte, a empresa lhes oferecesse um almoço.
Pode parecer um gesto singelo.
Mas há algo profundamente humano nas mesas.
É ao redor delas que celebramos a vida, acolhemos quem chega, consolamos quem sofre, ensinamos os filhos, fazemos amigos, reconciliamo-nos depois das tempestades. Desde muito antes de existirem tratados sobre convivência, a humanidade já sabia que repartir o pão era também repartir a confiança.
Talvez a mesa seja o primeiro lugar onde as distâncias aprendem a diminuir.
Ao que soube, aquela foi uma santa receita.
Não porque o alimento resolvesse o que as palavras não conseguiram resolver, mas porque o gesto dizia, silenciosamente, que havia algo maior do que a discordância: havia uma relação que ainda valia a pena ser preservada.
E, às vezes, é exatamente isso que precisamos recordar.
Tudo voltou ao seu lugar.
Ou talvez não.
Talvez tenha voltado a um lugar melhor.
Porque existem reconciliações que não apenas restauram o que existia; elas purificam a convivência. Depois delas, passamos a enxergar o outro com mais humanidade e a nós mesmos com um pouco mais de humildade.
Voltei para casa pensando que todos nós carregamos histórias parecidas.
Quem nunca deixou um mal-entendido crescer além do necessário?
Quem nunca esperou um gesto que nunca pediu?
Quem nunca sofreu mais pela interpretação do que pelo fato?
Talvez seja essa a nossa maior fragilidade: acreditamos que os relacionamentos se rompem por causa dos grandes acontecimentos. Quase nunca.
Eles começam a adoecer quando deixamos de cuidar das delicadezas.
Administrar pessoas para mim não é administrar tarefas. É cuidar desse território invisível onde convivem medos, expectativas, histórias, vaidades, fragilidades e esperanças. É lembrar que atrás de cada função existe alguém tentando, como todos nós, ser compreendido.
No dia seguinte, não acompanhei aquele almoço.
Nem precisava.
Bastava imaginar duas cadeiras ocupadas, o pão sendo repartido, a conversa encontrando o caminho que o silêncio havia perdido e, quem sabe, um "bom dia" finalmente devolvido ao seu lugar de origem.
Às vezes, a paz não chega fazendo barulho.
Ela se acomoda discretamente entre os pratos, percorre a mesa sem ser percebida e, quando nos damos conta, já voltou a morar entre as pessoas.
Foi então que compreendi que as maiores pontes da vida quase nunca são construídas com grandes feitos.
Elas começam quando alguém encontra coragem para oferecer aquilo que parecia pequeno demais para fazer diferença.
Um olhar.
Uma escuta.
Um pedido de desculpas.
Ou, simplesmente...
um bom dia.
Talvez seja por isso que continuo acreditando no cotidiano.
É nele, e não nos grandes acontecimentos, que a condição humana escreve, silenciosamente, seus capítulos mais verdadeiros.