WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Smile...

 

Na madrugada desta sexta-feira, 17 de julho de 2026, deparei-me com um recorte de Tempos Modernos. Não era apenas uma cena antiga resgatada pelo algoritmo; era um daqueles instantes em que o cinema deixa de ser memória e passa a ser espelho.

 

Naquela breve sequência, bastavam os olhares, os gestos e o silêncio para sugerir uma longa travessia. Era como se aqueles dois personagens carregassem o peso de muitas perdas, de portas que insistiram em se fechar e de sonhos interrompidos pelo caminho. Ela parecia não acreditar mais. O desânimo tomava conta de seu semblante, como se desistir fosse, naquele instante, a única possibilidade.

 

Então, sem discursos grandiosos, Chaplin faz aquilo que somente os grandes artistas conseguem fazer: diz tudo quase sem palavras.

 

Carlitos olha para ela, desenha um sorriso com as mãos, como quem sussurra ao coração aquilo que a voz talvez não alcançasse: "Smile...". Em seguida, encoraja-a a seguir. Os dois caminham juntos, de costas para a câmera, em direção a um horizonte desconhecido. O filme termina sem prometer um emprego, uma casa, uma vida confortável ou um final feliz. Termina oferecendo algo infinitamente mais valioso: a coragem de continuar caminhando.

 

Depois de assistir algumas vezes, ainda havia algo naquela cena que insistia em permanecer comigo. Talvez fosse a simplicidade dos gestos. Talvez a força do silêncio. Ou talvez a melodia da trilha sonora, que parecia continuar tocando mesmo depois de encerrado o vídeo.

 

Curioso, fui pesquisar sua história e descobri que aquela música havia sido composta pelo próprio Charlie Chaplin para Tempos Modernos. Somente anos mais tarde ela ganharia letra em inglês e, entre nós, uma belíssima versão de Braguinha, pseudônimo de João de Barro, que lhe acrescentou uma palavra ausente do original, mas indispensável à alma brasileira: saudade.

 

Conhecer esse percurso deu um novo sentido à canção que tantas vezes ouvi na voz de Djavan. Era uma interpretação que sempre me emocionou, mas cuja profundidade talvez eu ainda não tivesse alcançado por inteiro. Hoje compreendo que sua beleza não nasce apenas da melodia ou da voz que a interpreta, mas da longa viagem que ela percorreu até chegar a nós: um gesto silencioso de Carlitos transformado em música; a música transformada em poesia; a poesia acolhida pela sensibilidade de Braguinha; e, mais tarde, devolvida ao nosso tempo pela voz inconfundível de Djavan.

 

Curiosamente, confesso que nunca assisti a Tempos Modernos por inteiro.

 

Bastou, porém, aquele breve recorte para despertar em mim um desejo antigo, ainda que eu não soubesse que ele existia: percorrer toda a estrada que conduz àquela cena final. E já sei como quero fazê-lo. Quero convidar a minha Diva para que caminhemos juntos por essa história, como quem não apenas assiste a um filme, mas partilha uma experiência. Tenho a impressão de que, quando a tela escurecer e os créditos começarem a subir, não teremos apenas conhecido um clássico do cinema. Teremos vivido uma conversa sobre a vida, dessas que continuam ecoando muito depois de a televisão ser desligada.

 

Talvez seja esse o privilégio reservado às grandes obras.

 

Elas não nos encontram quando são lançadas.

 

Encontram-nos quando estamos prontos para compreendê-las.

 

Foi exatamente isso que aconteceu comigo naquela madrugada.

 

Percebi que eu não havia encontrado apenas uma canção.

Nem apenas uma cena.

Havia encontrado também questionamentos.

 

Fiquei imaginando quantas vezes também nós chegamos à beira da estrada acreditando que não havia mais para onde seguir. Quantas vezes o desânimo nos convence de que já caminhamos o suficiente. Quantas vezes tudo o que precisamos não é de uma solução imediata, mas apenas de alguém que, com um olhar sereno, nos diga silenciosamente: "Continue..."

 

Talvez seja justamente aí que resida a beleza de Smile.

 

Ela não é apenas uma canção sobre sorrir.

 

É uma canção sobre permanecer.

 

Sobre continuar caminhando quando quase tudo dentro de nós deseja parar.

 

Compreendi, então, que sua força nasce justamente da delicada ambiguidade que carrega. É possível ouvi-la como um hino luminoso à esperança, no qual o sorriso simboliza resistência, confiança e coragem diante das adversidades. Mas também é impossível ignorar a melancolia que atravessa cada verso, lembrando-nos das máscaras discretas que tantas vezes vestimos para enfrentar os dias mais difíceis.

 

Talvez seja exatamente essa convivência entre luz e sombra que a torne eterna.

 

Porque ela não fala de pessoas extraordinárias.

 

Fala de nós.

 

De quem aprende a seguir em frente mesmo sem ter todas as respostas.

 

De quem continua oferecendo um sorriso, não porque a dor tenha desaparecido, mas porque decidiu que ela não escreverá sozinha a história da própria vida.

 

Vivemos um tempo curioso.

 

Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão sós.

 

Construímos vitrines de felicidade enquanto escondemos, atrás das telas, cansaços, medos e angústias que raramente encontram palavras.

 

Por isso, aquele gesto silencioso de Carlitos continua tão atual.

 

Ele não promete que a estrada será mais fácil.

 

Não anuncia um final feliz.

 

Não afasta o sofrimento.

 

Apenas estende a mão e nos lembra, com a simplicidade dos grandes mestres, que sempre existe um próximo passo.

 

E talvez seja justamente isso que eu tenha levado desta madrugada.

 

Não uma resposta.

 

Mas uma direção.

 

Por isso, deixo, ao final destas linhas, o link da cena que despertou em mim todas estas reflexões. Não para que você veja apenas um trecho de um filme, mas para que possa, quem sabe, materializar um pouco da emoção que me visitou nesta madrugada e que procurei transformar neste meu recanto de letras.

 

Enquanto escrevia estas linhas, dei-me conta de que já me encontrei, muitas vezes, parado à beira da minha própria estrada. Houve dias em que tudo parecia pesado demais. Dias em que os sonhos se distanciavam, em que o silêncio fazia mais barulho do que qualquer palavra e em que a saudade, essa palavra tão sabiamente escolhida por Braguinha e inexistente na versão original, parecia ocupar todos os espaços da alma.

 

Penso agora que, se naquela época eu tivesse cruzado o caminho de Carlitos, talvez ele não me oferecesse respostas, nem promessas, nem explicações. Provavelmente faria apenas aquele pequeno gesto. Desenharia um sorriso com as mãos. E seguiria caminhando.

 

Hoje percebo que era tudo o que precisava dizer.

 

Há lições que chegam pela voz.

 

Outras chegam pelo silêncio.

 

E algumas, raríssimas, conseguem atravessar quase um século, mudar de idioma, ganhar novas palavras, novas vozes, novos intérpretes e, ainda assim, conservar intacta a delicadeza de um simples gesto.

 

Depois desta madrugada, dificilmente esquecerei essa lição silenciosa.

 

Não porque ela tenha tornado a vida mais fácil.

 

Mas porque me lembrou que existe uma forma de atravessá-la sem permitir que a dor ocupe todos os lugares.

 

Se estas palavras, algum dia, hoje, amanhã ou muitos anos depois, encontrarem alguém vivendo seus próprios dias de incerteza, de perdas, de despedidas ou de saudades, talvez esta velha cena em preto e branco ainda seja capaz de repetir, em silêncio, aquilo que nenhuma época conseguiu tornar ultrapassado.

 

E talvez seja essa a mais bela herança que Chaplin, Braguinha e Djavan deixaram, cada um em seu tempo.

 

Há momentos em que a vida apenas nos pede coragem para dar mais um passo.

 

E, enquanto houver um horizonte à nossa frente...

 

Smile...

 

 

https://youtu.be/-gFwhBRHark?si=2CozcdJIa4Rfa8jD 

 

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 17/07/2026
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