WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Dodó...
Todos os domingos existe um caminho que minha alma já conhece de cor.
É um caminho curto para os pés, mas longo para o coração.
Ao final dele encontro a Dodó.
Minha sogra querida.
Uma dessas pessoas raras que, depois de entrarem em nossa história, nunca mais deixam de habitar o coração. Neste ano ela alcança a beleza dos seus noventa anos, trazendo no rosto as marcas de uma vida inteira dedicada ao amor, ao cuidado e à fé.
O tempo, com a delicadeza e a dureza que lhe são próprias, foi retirando dela muitas coisas. Primeiro vieram os esquecimentos discretos. Depois os nomes começaram a escapar. Os dias perderam a ordem. As lembranças passaram a caminhar por estradas que já não obedecem aos mapas da memória.
Há uma enfermidade que, silenciosamente, desfaz aquilo que imaginávamos impossível perder: a própria história.
Durante muito tempo, minhas visitas terminavam sempre do mesmo modo. Eu voltava para casa carregando uma alegria imensa por ainda poder abraçá-la, ouvir sua voz, receber seus olhares de ternura, sentir o carinho que continua encontrando caminhos que a memória já não percorre. Mas, ao lado dessa alegria, caminhava uma tristeza silenciosa. Era doloroso assistir ao tempo apagando, pouco a pouco, páginas de uma vida tão bonita.
Até que, neste último domingo, durante nossa já tão querida liturgia dominical, quando, como fazemos em todos os domingos, deixamos que os antigos hinos da Harpa Cristã preencham a manhã, alguma coisa mudou dentro de mim.
Não foi a realidade que se transformou.
Foi o lugar de onde passei a contemplá-la.
A emoção daquele encontro abriu uma janela que eu ainda não conhecia.
As primeiras estrofes começaram a surgir com a simplicidade de sempre. Hinos que nos acompanham há tantos domingos e que, domingo após domingo, continuam dizendo as mesmas verdades eternas, como se o coração jamais se cansasse de ouvi-las.
Então aconteceu aquilo que ainda agora enquanto escrevo, encontro dificuldade para traduzir em palavras.
Enquanto cantávamos, a Dodó parecia ser tomada por uma alegria que não encontrava explicação naquilo que meus olhos viam, nem naquilo que sua memória ainda conseguia guardar.
Era um gozo.
Mas não desses que pertencem às emoções passageiras. Era um gozo que parecia brotar de um lugar onde a fragilidade da mente já não possui autoridade.
Seus olhos brilhavam com uma luz serena.
O sorriso surgia espontâneo.
As lágrimas desciam mansamente, não como quem sofre, mas como quem contempla uma beleza que ultrapassa a linguagem.
Entre um verso e outro, ela interrompia o canto apenas para declarar, em voz alta, a grandeza do seu Criador, maravilhando-se com Sua bondade, com Sua criação, com Sua fidelidade.
Naquele instante tive a nítida impressão de que nosso encontro já não era apenas entre ela, minha Diva e eu.
Havia Um Outro conosco.
Não como uma ideia religiosa.
Nem como um consolo que inventamos para suportar a dor.
Havia uma Presença.
Silenciosa.
Amorosa.
Quase palpável.
Como se Deus atravessasse as limitações da memória para tocar diretamente aquilo que nunca deixou de lhe pertencer: a alma.
Pela primeira vez compreendi que talvez existam experiências espirituais que aconteçam num lugar onde a razão já não governa, mas onde Deus continua sendo perfeitamente reconhecido.
Era como se aquilo que foi gravado na alma durante toda uma vida permanecesse intacto, quando tantas outras lembranças já haviam aprendido a partir.
Naquele instante compreendi um pouco melhor as palavras do apóstolo Paulo: "Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens."
Ainda bem que não.
Ainda bem que tudo não termina aqui.
Ainda bem que existe uma esperança que não depende da força da memória, nem da saúde do corpo, nem da clareza dos pensamentos.
Há lembranças que pertencem ao cérebro.
Mas penso que existam outras que pertençam à eternidade.
E enquanto a ouvia cantar, ocorreu-me um pensamento que permaneceu comigo pelo resto do dia.
Talvez Deus nunca tenha escrito apenas na memória. Talvez exista, muito abaixo dela, uma região da alma onde o tempo jamais consegue entrar. Um lugar onde os hinos continuam sendo reconhecidos. Onde a esperança continua respirando. Onde a presença de Deus continua sendo lembrada, mesmo quando tantas outras lembranças já partiram.
E foi então que comecei a enxergar outra beleza.
A vida inteira nos esforçamos para crescer.
Aprendemos a decidir.
A produzir.
A responder.
A sustentar pessoas.
A carregar responsabilidades.
A controlar o tempo.
Passamos tantos anos tentando ser fortes que quase nos esquecemos de como era depender.
Mas a vida desenha círculos.
Depois de nos ensinar a caminhar sozinhos, ela, silenciosamente, começa a nos devolver às mãos dos outros. As pernas já não possuem a mesma firmeza. Os passos pedem companhia. As certezas diminuem. As forças descansam.
E, às vezes, até a memória resolve guardar apenas o essencial.
É impossível não perceber a delicadeza escondida nisso.
Voltamos, pouco a pouco, à simplicidade. Voltamos à dependência. Voltamos à confiança. Voltamos, de certo modo, à infância.
Foi então que as palavras de Jesus Cristo voltaram ao meu coração como nunca antes haviam voltado: "Deixai vir a mim as criancinhas..."
Durante tantos anos ouvi esse convite olhando apenas para o início da vida.
Neste último domingo, pela primeira vez, pensei que talvez ele também alcance o seu entardecer.
Talvez não exista maneira mais bela de chegar diante de Deus do que como uma criança.
Sem precisar provar competência.
Sem apresentar conquistas.
Sem defender méritos.
Sem carregar o peso de parecer suficiente.
As crianças simplesmente chegam.
E são acolhidas porque são amadas.
Talvez exista uma ternura infinita no fato de que alguns de nós, antes de partir, sejamos lentamente conduzidos de volta a essa simplicidade.
Não como quem perde a dignidade. Mas como quem já não precisa sustentar o mundo.
Neste domingo, olhando para a Dodó, já não enxerguei apenas uma senhora cuja memória se tornava frágil. Vi uma criança outra vez. Não uma criança pela idade. Mas pela leveza. Pela transparência. Pela confiança. Pela ausência de qualquer necessidade de controlar a vida.
Enquanto ela cantava, profundamente emocionada, os antigos versos da Harpa, tive a impressão de que a eternidade já começava a conversar com ela.
Como se existisse uma saudade anterior ao nascimento. Como se a alma reconhecesse uma pátria que os olhos nunca viram, mas que sempre souberam existir.
E então nasceu um desejo que jamais havia habitado meu coração.
O desejo de se um dia meus últimos anos chegarem envoltos na mesma fragilidade, que eu também conserve aquilo que realmente importa.
Que, quando minha memória já não conseguir guardar os caminhos da terra, meu coração ainda reconheça os caminhos do Céu. Que, quando os nomes desaparecerem, permaneça Aquele que conhece o meu desde antes da fundação do mundo. Que, quando minhas palavras já não encontrem o caminho dos lábios, algum antigo hino ainda encontre o caminho da minha alma.
E que aqueles que permanecerem ao meu lado não me amem apenas pelo que eu ainda conseguir recordar. Que me amem pelo que, durante toda uma vida, a graça de Deus escreveu em mim.
Porque hoje compreendi que existe uma memória que o tempo alcança.
E existe outra que já pertence à eternidade.
Talvez seja ela a última luz que permanece acesa quando todas as outras começam, lentamente, a se apagar.
E talvez seja por isso que algumas pessoas, quando parecem se despedir deste mundo, já estejam, sem perceber, aprendendo a linguagem do outro.
A linguagem das crianças.
A linguagem dos que já não precisam provar nada.
A linguagem dos que apenas estendem as mãos e se deixam conduzir pelo Pai.
Neste domingo 19 de julho de 2026, fui visitar a Dodó, e voltei para casa desejando, um dia, parecer com ela.