WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Peso de Duas Frases
Os sábados e domingos, se não estou no Rio, tendem a ser dias de raras atividades. São dias de descanso quase absoluto, de um ócio consentido, à espera do reinício de uma nova semana de labor. Há uma paz peculiar nesses intervalos da existência, mas também um silêncio que, por vezes, me coloca frente a frente comigo mesmo.
Quando é assim, o acesso à tela do celular torna-se intenso. Não exatamente pela necessidade de informação, mas porque os meus maiores afetos estão no Rio de Janeiro. A distância faz da solitude uma companhia inevitável e, entre uma rolagem de tela e outra, volto à escrivaninha, onde procuro transformar em palavras tudo aquilo que fica reverberando do que colho nesses silenciosos observatórios da vida.
Foi exatamente assim neste fim de semana.
E em uma dessas incontáveis rolagens, deparei-me com uma frase que me fez interromper o fluxo automático dos gestos. Pela primeira vez em muito tempo, não fui eu quem passou pela mensagem; foi ela quem passou por mim.
Dizia:
"Em 100 anos, em 2126, teremos todos regressado ao grande silêncio do tempo, ao lado de nossos amigos e familiares."
Não foi apenas a mim que aquela constatação alcançou. Ela atravessou o pensamento e, junto comigo, levou todos aqueles que amo: meus familiares, meus amigos, meus companheiros de trabalho, as pessoas que hoje ocupam os lugares mais importantes da minha história.
Por alguns instantes, o tempo pareceu perder sua velocidade habitual.
Falou forte a percepção de que a vida, essa magnífica sucessão de amanheceres e entardeceres, não nos pertence. Nós apenas a atravessamos.
Somos hóspedes.
Passageiros de uma estação que, enquanto vivemos, imaginamos longa, mas que, observada do alto da eternidade, não passa de um breve sopro entre dois silêncios.
E eu sei disso.
Afinal, já percorri praticamente sessenta e um ciclos completos das estações. Sessenta e um verões aquecendo sonhos, sessenta e um outonos amadurecendo o olhar sobre a vida, sessenta e um invernos lembrando que a resistência também floresce, sessenta e uma primaveras insistindo em renovar aquilo que parecia definitivamente perdido.
Quando olho para trás, tenho a estranha sensação de que tudo aconteceu ontem.
A infância ainda mora em alguma esquina da memória.
Os rostos daqueles que partiram continuam vivos em lembranças que insistem em sorrir.
Os filhos cresceram. Vieram os netos, prolongando a vida em novas gerações e fazendo florescer uma alegria que só o tempo sabe oferecer. Enquanto eles descobriam o mundo, eu aprendia, quase sem perceber, a envelhecer.
Os projetos que pareciam distantes tornaram-se capítulos concluídos.
E, no entanto, o relógio continua caminhando com a mesma serenidade de sempre, indiferente às nossas urgências.
Essa talvez seja a maior lição da existência: a vida nunca prometeu permanência.
Prometeu apenas oportunidade. Oportunidade de abraçar demoradamente. De enviar uma mensagem, fazer uma videochamada ou compartilhar um áudio sem que exista um motivo especial. De pedir perdão antes que o orgulho construa muros. De dizer "eu te amo" antes que o silêncio se torne definitivo. De brincar mais e preocupar-se menos. De contemplar um pôr do sol sem a ansiedade do próximo compromisso. De caminhar ao lado de alguém querido, olhando nos seus olhos, e não para a próxima notificação que acende na tela. De colecionar histórias em vez de apenas acumular compromissos.
Porque, no fim, ninguém mede uma vida pela quantidade de reuniões realizadas, pelos títulos conquistados ou pelos bens adquiridos.
Uma vida é medida pela intensidade com que foi compartilhada.
Pelas mãos que seguramos.
Pelos ombros que oferecemos.
Pelas lágrimas que enxugamos.
Pelas risadas que provocamos.
Pela paz que deixamos quando passamos.
Permaneci alguns instantes imóvel, permitindo que aqueles pensamentos encontrassem repouso. Mas, como acontece tantas vezes nos nossos dias, a vida logo nos chama de volta aos seus pequenos automatismos. Quase sem perceber, meus dedos retomaram a lenta peregrinação pela tela do celular.
Foi então que o algoritmo, esse curioso espelho das nossas pausas, pareceu compreender que eu ainda buscava respostas naquele mesmo perfil. Poucos instantes depois, surgiu ele com outra frase.
Desta vez, ainda mais desconcertante.
"Em 200 anos, em 2226, ninguém se lembrará de que nós existimos."
Confesso que essa segunda constatação foi ainda mais impactante.
Porque ela não falava apenas da finitude do corpo.
Falava da dissolução da memória.
Da inevitável verdade de que o tempo, esse paciente escultor do universo, também apaga nomes, fotografias, histórias e sobrenomes.
As casas mudam de donos.
Os objetos mudam de mãos.
Os livros amarelecem.
As vozes silenciam.
As gerações se sucedem.
E chega um momento em que alguém passa diante da nossa fotografia sem reconhecer sequer quem fomos.
Isso poderia soar profundamente triste.
Mas, curiosamente, aconteceu o contrário.
Foi libertador.
Compreendi, então, que não viemos ao mundo para sermos eternamente lembrados. Viemos para amar enquanto estamos aqui. Para fazer diferença no pequeno espaço de tempo que nos foi concedido. Para aliviar o peso da caminhada de alguém. Para plantar árvores cuja sombra jamais veremos. Para ensinar valores que continuarão vivos, mesmo quando ninguém mais souber o nosso nome.
O anonimato perante a História não diminui a grandeza de uma existência.
Uma mãe que educa com amor.
Um pai que oferece exemplos.
Um professor que desperta vocações.
Um amigo que permanece quando todos vão embora.
Um profissional que exerce sua missão com dignidade.
Todos eles podem desaparecer dos livros, mas permanecem invisivelmente inscritos nas vidas que tocaram.
É justamente aí que mora a verdadeira eternidade.
Não na lembrança do nosso nome.
Mas nas consequências silenciosas da nossa bondade.
Ao final dessas reflexões, desliguei a tela por alguns instantes. Olhei ao redor. Percebi que o tempo continua passando. Mas também percebi que ele continua oferecendo hoje. E hoje ainda é um presente extraordinário.
Se em algum momento compreendermos que um dia seremos apenas uma página definitivamente virada pela História, que essa consciência não nos paralise; ao contrário, que nos desperte.
Que seja um chamado.
Um convite para viver com mais presença do que pressa.
Com mais encontros do que distrações.
Com mais gratidão do que reclamações.
Com mais coragem para amar do que medo de perder.
Que saibamos transformar cada estação que ainda nos resta em uma oportunidade de fazer o bem, de construir memórias felizes para quem permanece ao nosso lado e de deixar o mundo, ainda que discretamente, um pouco melhor do que o encontramos.
Porque a verdadeira grandeza nunca esteve em permanecer para sempre.
Ela está em fazer com que cada dia, enquanto existimos, valha a eternidade de um instante.