WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Casa Secreta

 

Naquele momento,
ela não era a mulher da casa,
nem o nome composto
nas fotografias bem iluminadas,
nem a presença previsível
que atravessava os cômodos
como quem conhece de cor
a posição de cada objeto.

 

Era pele antes do nome.

 

Respiração antes da explicação.

 

Havia nela uma janela aberta
para um vento que não perguntava
de onde vinha
nem para onde pretendia levá-la.

 

E o olhar dele,
novo, demorado,
sem a intimidade dos hábitos,
pousou sobre seu rosto
como se descobrisse
uma paisagem ainda sem mapas.

 

Ela sentiu primeiro
a delicadeza do espanto:

 

o corpo lembrando
que podia ser surpresa,
que ainda havia nela
ângulos desconhecidos,
zonas sem testemunha,
um calor guardado
sob a ordem dos dias.

 

Ele não conhecia
a maneira como ela pedia silêncio,
nem o intervalo exato
entre sua coragem e seu receio.

 

Não sabia quando seus olhos
procuravam abrigo
ou quando desejavam apenas
ser demoradamente vistos.

 

E essa ignorância
tinha qualquer coisa de liberdade.

 

Entre os dois,
o ar se tornou mais denso.

 

Uma palavra encostou na outra.
Uma pausa prolongou-se
como uma mão que ainda não toca,
mas já anuncia o toque.

 

Ela percebeu o próprio corpo
de dentro para fora:

 

a garganta aquecida,
os pulsos atentos,
a boca atravessada
por uma sede sem nome.

 

Não era preciso prometer.

 

Não era preciso explicar
o que aquele instante significava
para o resto da vida.

 

Naquele momento,
bastava estar ali,
inteira na vertigem,
sem a obrigação de ser
a versão que todos reconheciam.

 

O desejo não chegou como tempestade.

 

Veio como maré:

 

subindo devagar
pelas pernas do silêncio,
molhando as margens da conversa,
fazendo tudo parecer
mais próximo da pele.

 

Ela sorriu,
e o sorriso tinha o brilho
das coisas que não pedem licença
para nascer.

 

Havia prazer
em não ser antecipada.

Prazer em não ter os gestos
já catalogados
por quem a amava.

 

Prazer em perceber
que o próprio corpo
ainda podia dizer “sim”
antes que a razão
encontrasse uma frase adequada.

 

O olhar dele desatava
as fitas invisíveis
com que ela se mantinha composta.

 

E, por alguns instantes,
ela não quis ser compreendida.

 

Quis ser sentida.

 

Como se sente a fruta
antes de perguntar seu nome.

 

Como se percorre uma cidade
sem consultar o mapa.

 

Como se o instante pudesse
guardar nas suas dobras
um segredo que não precisava
tornar-se futuro
para ser verdadeiro.

 

Ele se aproximou.

 

Não houve urgência,
apenas a lenta inteligência
de duas presenças
aprendendo a distância
entre o desejo e o toque.

 

A respiração dele
chegou primeiro.

 

Depois, a proximidade.

 

Depois, aquela vertigem
em que o mundo parece recuar
para que a pele tenha espaço.

 

Ela fechou os olhos
não para desaparecer,
mas para se escutar melhor.

 

E ouviu:

 

o sangue,

o susto,

a alegria,

a mulher que havia sido,

a mulher que ainda podia ser,

todas acordadas
no mesmo corpo.

 

Não pensou na moldura.

 

Naquela hora,
a moldura era apenas madeira
ao redor de uma vida
que transbordava.

 

Ela não queria fugir de si.

 

Queria entrar mais fundo.

 

Sentir o que havia além
da mulher admirável,
da companheira segura,
da existência sem sobressaltos.

 

Queria experimentar
a própria presença
sem a mediação dos costumes.

 

E quando o olhar dele
a encontrou outra vez,
ela compreendeu:

 

ser desejada
não era desaparecer
dentro do desejo de alguém.

 

Era reconhecer-se,
por um instante luminoso,
naquilo que o desejo despertava.

 

O momento não lhe oferecia respostas.

 

Oferecia calor.

 

Oferecia risco sem ameaça,
silêncio sem vazio,
um idioma feito de pausas,
de olhos,
de mãos próximas
e palavras que não precisavam
chegar ao fim.

 

Lá fora,
a vida continuava organizada,
com suas portas,
seus horários,
seus nomes,
suas certezas.

 

Mas ali,
fora da moldura,
ela era movimento.

 

Era boca entreaberta.

Era nuca sob a luz.

Era o prazer de não saber
qual gesto viria depois.

 

E talvez bastasse isso:

 

não transformar o instante
em promessa,

 

não reduzi-lo a explicação,

 

não pedir ao desejo
que justificasse sua existência.

 

Havia momentos
que não queriam durar.

 

Queriam apenas acontecer
com toda a intensidade
de uma chama breve.

 

E ela deixou.

 

Deixou que o olhar a percorresse
sem aprisioná-la.

 

Deixou que aquele instante tocasse
o que os outros haviam coberto.

 

Deixou-se ser mulher
sem adjetivo,
sem moldura,
sem a vigilância
de uma versão definitiva de si.

 

E, quando o mundo voltou
a caber ao redor dela,
alguma coisa permanecia acesa:

 

não uma resposta,

não uma promessa,

mas a certeza íntima
de que ainda havia dentro do seu corpo
uma vida selvagem e delicada,

uma vida que não pedia permissão
para existir.

 

E hoje,
se nada mais houver,
se outra vez não existir,
se aquele olhar não voltar
a ter outro momento
nem aquela presença
tornar a aproximar-se da sua pele,

 

ainda assim,
o que houve não disse sobre ele.

 

Ele foi o instante,
o meio,
o vetor inesperado
por onde uma revelação
chegou até ela.

 

Não a origem de tudo,
mas a passagem.

 

Não a resposta,
mas a chave que, por um momento,
tocou a fechadura
de uma porta esquecida.

 

Porque o que se acendeu
não pertencia àquele homem.

 

Pertencia a ela.

 

Ao corpo que ainda desejava.
À mulher que ainda respirava
sob as camadas da vida construída.
À possibilidade de conhecer,
ou reconhecer,
aquela que nem sabia
que habitava com ela.

 

E se outra vez não houver,
se o caminho dos dois
terminar na delicadeza
de uma lembrança sem continuação,
não será menos verdadeiro
o que seu corpo aprendeu naquele instante:

 

que havia nela
um lugar ainda sem nome,

uma voz que ainda não conhecia,

uma forma de presença
que não dependia de durar
para ter sido real.

 

Ele poderá desaparecer
da paisagem.

 

Mas ela não voltará a ser
inteiramente a mesma.

 

Porque, às vezes,
o outro não vem para ficar.

 

Vem para revelar
a casa secreta
que sempre esteve em nós.

 

E, depois que a encontramos,
mesmo que ninguém mais entre,
já não podemos fingir
que ela não existe.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 26/07/2026
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