WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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“Primeiros Erros”

 

Nesta madrugada de domingo, já no Rio de Janeiro, e como geralmente faço, vim para a escrivaninha em busca de palavras que pudessem encontrar a mim antes mesmo que eu as encontrasse. Não havia um tema, um roteiro ou uma ideia previamente escolhida. Havia apenas o silêncio, esse velho companheiro das horas em que o mundo parece desacelerar para que a alma fale um pouco mais alto.

 

Desde ontem, porém, uma música antiga insistia em permanecer comigo. Eu a ouvira de maneira despretensiosa. Era "Primeiros Erros", na interpretação do Capital Inicial, banda que ajudou a dar voz e identidade ao rock brasileiro que floresceu com tanta força na década de 1980.

 

Mas, o que mais me atravessou nem foi precisamente a melodia. Foi quando o apresentador, ao final, anunciou seu título. Porque há títulos que apenas identificam uma obra. Outros, entretanto, parecem abrir uma porta dentro de nós.

 

Primeiros Erros.

 

Duas palavras suficientes para despertar uma multidão de lembranças. Não necessariamente lembranças de fatos, mas de possibilidades. Porque a memória nem sempre guarda apenas o que aconteceu. Ela também conserva, com impressionante fidelidade, aquilo que poderia ter acontecido.

 

A canção não fala apenas de erros. Ela fala de um desejo quase impossível: olhar o passado inteiro e encontrar o instante exato em que a chuva começou. Como se fosse possível voltar ao primeiro desvio, ao primeiro medo, à primeira escolha equivocada, e impedir que todas as outras consequências florescessem depois. É uma inquietação profundamente humana. Afinal, no fundo, penso que muitos de nós já imaginamos que uma única decisão diferente seria capaz de alterar o desenho inteiro da nossa história.

 

É por isso que a vida é tão frequentemente habitada pelo "se".

 

E se eu tivesse dito?

E se eu tivesse permanecido?

E se eu tivesse partido antes?

E se eu tivesse esperado mais um pouco?

 

O "se" é uma espécie de país invisível onde todos, em algum momento, já moraram. Um lugar construído com escolhas que não fizemos, palavras que não pronunciamos, abraços adiados, despedidas precipitadas e caminhos abandonados antes da primeira curva.

 

Curiosamente, nunca sabemos onde nasceram os nossos primeiros erros. Às vezes imaginamos que eles aconteceram em uma decisão importante, quando, na verdade, começaram muito antes, em pequenas renúncias, em medos discretos, em silêncios que pareciam inofensivos. Como as primeiras gotas de uma tempestade que ninguém percebe, mas que, horas depois, transforma completamente a paisagem.

 

Essa é, quem sabe, uma das dimensões mais melancólicas da existência: não nos é concedido o privilégio de viver duas vezes a mesma manhã. O tempo não retorna para que testemos outra resposta, outro gesto ou outro caminho. Ele apenas segue adiante, carregando consigo o que fomos e, sobretudo, aquilo que já não podemos ser.

 

Mas a própria canção se encarrega de lembrar que a existência é feita de contrastes. Ela coloca o sol e a chuva lado a lado, não como fenômenos do céu, mas como estados da alma. O sol aparece como aquilo que ilumina, aquece, revela; a chuva, como aquilo que pesa, insiste e nos obriga a atravessar dias cinzentos. E é justamente nessa alternância que a vida encontra o seu ritmo.

 

Há dias em que tudo parece iluminado. Dias em que o sol alcança lugares da alma que julgávamos definitivamente escuros. Nesses momentos, acreditamos que finalmente compreendemos a lógica dos acontecimentos, como se cada dor tivesse servido exatamente para nos conduzir até ali.

 

Mas o sol também se despede.

 

E então voltam as nuvens.

 

Voltam as perguntas.

 

Volta o "se".

 

A maturidade, penso eu, não consiste em eliminar essas perguntas, mas em aprender que elas jamais serão plenamente respondidas. Há perguntas que não existem para serem solucionadas; existem para nos tornar mais humanos. Há dores que não desaparecem porque continuam nos lembrando daquilo que um dia teve valor. E há ausências que permanecem justamente porque certos afetos nunca deixam completamente o lugar onde nasceram.

 

Quem vive apenas tentando apagar os primeiros erros corre o risco de apagar também os primeiros acertos, os primeiros encontros, os primeiros sonhos e até a pessoa que se tornou por causa de tudo isso. A mesma chuva que encharca a terra é, muitas vezes, aquela que prepara o florescimento que o sol, sozinho, jamais conseguiria produzir.

 

A sabedoria parece estar menos em desejar outra história e mais em aprender a caminhar com a própria. Aceitar que algumas páginas permanecerão escritas com tinta de arrependimento e, ainda assim, não impedirão que as próximas sejam escritas com as cores da esperança.

 

No fim, percebi que aquela canção antiga fez exatamente o que poucas obras conseguem fazer: não apenas tocar a memória, mas iluminar perguntas que estavam silenciosas dentro de mim. Ela não me ofereceu respostas para os "ses" da vida, tampouco fez a chuva cessar. Apenas me recordou que há dias em que caminhamos sob um sol generoso e outros em que seguimos debaixo de um céu carregado. E que viver seja justamente isso: continuar a caminhada sem exigir que o céu seja sempre o mesmo, entendendo que tanto a luz quanto a chuva têm algo a nos ensinar.

 

Foi esse o presente inesperado que Primeiros Erros me trouxe neste começo de domingo. Vim à escrivaninha sem um tema. Saio dela levando bem mais que uma ideia para escrever. Levo a serenidade de compreender que nem todos os "ses" precisam de resposta; alguns existem apenas para nos lembrar de que somos humanos. E que, enquanto a vida alternar entre dias de sol e dias de chuva, sempre haverá uma nova manhã convidando-nos a recomeçar, não apesar dos primeiros erros, mas também por causa deles.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 02/08/2026
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