WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Gabriela, minha menina!!!
Hoje, às vésperas de sua viagem, nasceu em mim o desejo de lhe escrever uma carta.
Por isso, escrevo. Escrevo por mim e pela minha Diva, sua mãe. Aqui, emprestamos nossos corações às palavras porque, às vezes, elas conseguem permanecer onde os braços já não alcançam. Há encontros que só a presença realiza, mas existem outros que pertencem às palavras: elas atravessam a distância, repousam na memória e, quando a saudade chega sem pedir licença, encontram um jeito delicado de nos abraçar por dentro.
Esta carta nasceu para ser isso.
Não uma despedida, porque despedidas olham para trás. Esta carta olha para a frente. Ela é uma carta de contagem regressiva. Uma carta que escolheu contar não o tempo da distância, mas o tempo que, silenciosamente, diminui a distância e nos conduz, segundo após segundo, ao reencontro.
Entre o dia 4 de agosto de 2026 e o dia 20 de fevereiro de 2027, você escreverá mais um dos muitos capítulos bonitos que compõem a sua história. Serão 200 dias de descobertas, de aprendizado, de encontros, de crescimento e de sonhos que, até aqui, talvez existissem apenas na imaginação. Serão 4.800 horas, 288.000 minutos e 17.280.000 segundos vividos em Turim, a primeira capital da Itália. Será ali que você permitirá que o mundo lhe apresente novas línguas, novos olhares, novos afetos e novas maneiras de compreender a vida e, quem sabe, também um pouco mais de si mesma.
E constatando esses números, percebo como é curioso perceber que, quanto menor se torna a medida do tempo, maior parece o número. Como se os relógios insistissem em convencer o coração de que a distância pode ser contada. Mas eles desconhecem uma verdade muito simples: enquanto eles contam o tempo da viagem, nós contaremos tudo aquilo que ela estará construindo em você. Cada segundo não será apenas um segundo longe de casa; será também um segundo mais perto da mulher que Deus sonhou que você se tornasse.
Sabe, filha...
Talvez esta seja uma das lições mais difíceis que a vida tenha nos confiado. Durante muitos anos, acreditamos que amar você era protegê-la de tudo o que pudéssemos. Hoje compreendemos que amar também é confiar. Confiar na pessoa que você se tornou, no coração que Deus foi moldando ao longo da sua história e na luz que você mesma aprendeu a acender dentro de si. Talvez seja justamente isso que o tempo faça, silenciosamente, com o coração dos pais: ensina que chega um dia em que proteger já não significa impedir a partida, mas abençoar o caminho.
Todavia, mesmo acreditando que este seja o caminho que Deus preparou para este tempo da sua vida, queremos lhe fazer uma confissão daquelas que só o amor permite, porque apenas ele nos ensina que também existe beleza em revelar as nossas fragilidades.
Há uma parte muito silenciosa do nosso coração que, de vez em quando, insiste em fazer perguntas para as quais a vida nunca oferece resposta.
Pois bem, nesse período que ficará distante, quem nos devolverá aqueles instantes que pareciam tão comuns e que, justamente por isso, eram tão preciosos? Quem nos devolverá uma conversa interrompida apenas porque a noite chegou? Quem nos devolverá um abraço sem motivo, uma risada inesperada, o simples som da sua presença preenchendo a casa?
Ninguém!
O tempo não guarda aquilo que passa para depois nos devolver. Ele segue o seu caminho.
Mas o amor, às vezes, tem um jeito muito bonito de contrariar o tempo. Ele não devolve os dias vividos; devolve o calor que eles deixaram em nós. Faz com que uma lembrança atravesse a distância sem pedir licença e transforme um instante comum em reencontro.
Será assim conosco.
E enquanto você descobrirá a beleza daquela terra onde o tempo parece caminhar mais devagar, onde as praças guardam séculos de histórias e a beleza se revela nas coisas mais simples, nós continuaremos aqui descobrindo que algumas lembranças são capazes de atravessar oceanos.
Talvez seja numa manhã qualquer, sem nenhuma data especial. Ou numa tarde comum, dessas que parecem não guardar nada de extraordinário. Bastará uma lembrança surgir, e estaremos novamente juntos.
Quem sabe nos recordaremos daquela nossa canção inventada. A que dizia, tão despretensiosamente: "vamos pra o BarraShopping...".
Quem diria que aqueles versos, nascidos para acompanhar um caminho tão pequeno, atravessariam um oceano e ganhariam a dimensão de um continente inteiro?
E talvez seja justamente aí que a nossa canção inventada revele um sentido que nunca imaginamos quando a cantávamos.
Por algum tempo, e a partir de amanhã, o "vamos" ficará guardado, esperando o dia em que voltará a ser dito por nós três outra vez.
Até lá, talvez seja outro verso que passe a encontrar acordes na sinfonia do coração da nossa casa:
"Cadê você, meu sol?"
Não porque deixaremos de saber onde você está, mas porque haverá dias em que a saudade fará essa pergunta antes mesmo que a razão responda. E, ainda assim, ela nunca será uma pergunta sem resposta. Porque você continuará presente em tudo aquilo que construiu conosco. Nas pequenas lembranças que ninguém mais conhece. Nas palavras que só fazem sentido para nós. Nos gestos que o tempo não ensina e a distância não desfaz.
É assim que o amor permanece. Às vezes, ele não precisa dizer mais nada. Basta uma canção. Mesmo aquela inventada. Basta uma lembrança que apenas uma filha e seus pais são capazes de compreender.
Mas, filha...
Chega agora para você, um daqueles momentos que a vida reserva com uma delicadeza quase silenciosa. Há travessias que não anunciam apenas um novo lugar; anunciam uma nova maneira de existir. E esta é uma delas.
Durante toda a sua vida, Deus colocou em nossas mãos uma missão que abraçamos como o maior privilégio que poderíamos receber: cuidar de você. Talvez você nunca tenha percebido quantas vezes fizemos isso sem dizer uma única palavra. Cuidávamos quando celebrávamos suas alegrias como se fossem nossas, porque, de algum modo, sempre foram. Cuidávamos quando uma preocupação chegava primeiro ao nosso coração do que ao seu. Cuidávamos quando um abraço surgia sem motivo, apenas porque o amor, às vezes, gosta de falar em silêncio. Cuidávamos nas pequenas coisas, quase invisíveis, aquelas que só os pais costumam notar e que os filhos só compreendem muitos anos depois.
Mas a vida, com a delicadeza que só o tempo conhece, começa agora a nos ensinar uma nova forma de cuidar de você. Não porque essa missão deixe de ser nossa. Isso nunca acontecerá. Apenas porque, aos poucos, ela também encontrará morada nas suas mãos e no seu coração.
A partir de amanhã, haverá um cuidado que continuará sendo nosso, mas que também passará a morar em você. Será como se levasse consigo um pouco das nossas mãos, um pouco do nosso olhar, um pouco da nossa prudência e um pouco da ternura com que sempre desejamos que a vida a encontrasse.
Como escreveu Khalil Gibran, poeta libanês, os filhos não pertencem aos pais. São flechas lançadas para horizontes que eles próprios descobrirão. Passei muito tempo imaginando que nosso papel era protegê-la do mundo. Hoje percebo que nosso verdadeiro papel é outro: amar o suficiente para deixá-la partir e continuar aqui, exatamente no mesmo lugar do coração onde você sempre esteve.
Talvez seja por isso que, agora, nosso cuidado precise encontrar uma nova forma de chegar até você.
Nestes 200 dias, você conhecerá lugares, pessoas e histórias que levará para sempre consigo. A maioria delas será bonita. Algumas, talvez, lhe ensinem que nem todos os corações aprendem a amar com a mesma delicadeza.
Por isso, desejamos que conserve a ternura, mas caminhe com prudência. Continue acreditando no bem, sem abrir mão da sabedoria que o tempo vai lhe oferecer. Não tenha receio de dizer "não" quando isso proteger a paz do seu coração, nem vergonha de pedir ajuda quando os dias parecerem maiores do que a sua força.
E, se alguma vez a vida lhe parecer difícil demais, lembre-se de que nem toda forma de cuidado acontece pela proximidade. Haverá um amor atravessando oceanos, orando por você, torcendo por você e encontrando, todos os dias, um jeito de chegar onde estiver.
Por isso, cuide com carinho da filha que Deus confiou aos nossos braços e que atende pelo nome de Gabriela.
Cuide de você quando os dias forem leves, mas cuide ainda mais quando eles parecerem cinzentos. Se em algum momento o coração vacilar, procure primeiro dentro de si. É nas lembranças que moram as raízes do amor, e será nelas que você encontrará a nossa voz, os nossos conselhos, o nosso riso e o nosso abraço. E, quando as lembranças parecerem pequenas demais para o tamanho da saudade, entregue o restante a Deus. Haverá sempre um cuidado que ultrapassa o nosso e uma ventura que alcança lugares onde nós, por enquanto, não poderemos chegar.
Quanto a nós, faremos daqui uma contagem diferente do tempo.
Não viveremos esperando que os dias passem. Viveremos agradecendo por cada dia que passou. Cada segundo vivido diminuirá a distância. Cada minuto será uma pequena vitória da esperança sobre a saudade. Cada hora nos aproximará um pouco mais. E, quando os dias parecerem longos, lembraremos uns aos outros que nenhum relógio conta apenas o tempo que passa; ele também anuncia, silenciosamente, o tempo que falta para o reencontro.
Há, porém, uma última coisa que precisamos lhe dizer.
Não queremos que você carregue o peso da nossa saudade. Ela é nossa, e nós a abraçaremos com serenidade. O que desejamos é que você siga leve, porque a alegria de vê-la construir o seu caminho sempre será maior do que a tristeza de vê-la partir.
Por isso esta carta não nasceu para dizer adeus.
Ela nasceu para lembrar que os relógios conhecem apenas o tempo. O amor conhece a espera, a esperança e a certeza de que a nossa distância começa a terminar no mesmo instante em que se inicia.
Talvez seja esse o maior milagre cotidiano do amor: transformar a espera em aproximação.
É assim que atravessaremos, juntos, eu e sua mãe, esses 17.280.000 segundos: diminuindo a distância.
Até que um dia descubramos que esses milhões de segundos jamais representaram uma ausência. Representaram apenas o tamanho da esperança que coube dentro do amor de uma filha, de um pai e de uma mãe.
Porque há um lugar onde nenhuma distância consegue entrar.
É aquele onde Deus guarda os afetos que nasceram para nunca terminar.
É lá que continuaremos nos encontrando, todos os dias, até que a esperança volte a ter a forma do seu abraço.
E esta é a carta que desejei escrever para você, em meu nome, e em nome da sua mãe, com todo o amor que enquanto vivermos, nunca aprenderá a ficar distante.