WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Não Somos Donos do Eco

 

Esta semana, por duas vezes, que eu fiquei sabendo, porque nem sempre nos dizem, expressei meu posicionamento sobre determinados fatos e fui compreendido de outra forma. Não necessariamente de maneira oposta, mas diferente o bastante para que eu me perguntasse: em que momento aquilo que eu disse deixou de ser aquilo que eu quis dizer?

 

E, como se o algoritmo estivesse espionando até os meus pensamentos e, confesso que creio mesmo que espiona, deparei-me, em uma dessas rolagens quase automáticas pela tela, com uma frase atribuída a Jacques Lacan:

 

“Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou.”

 

Fiquei nela.

 

Porque talvez uma das grandes ilusões humanas seja acreditar que as palavras chegam ao outro intactas.

 

Não chegam.

 

E embora essa frase já tenha inspirado outra prosa deste meu Recanto (“Entre o Dizer e o Ouvir” ), as experiências desta semana e o algoritmo me fizeram voltar a ela e estender um pouco mais o pensamento. Talvez porque certas ideias não se esgotem quando escritas; apenas esperem que a vida lhes acrescente novas perguntas.

 

Tudo isto porque entre a boca de quem fala e a consciência de quem escuta existe um território imenso. Um território que não aparece na conversa, não se senta à mesa, não pede licença, mas participa silenciosamente de tudo: a história de cada um.

 

Quando digo alguma coisa, escolho palavras a partir do que vivi, do que penso, dos valores que carrego, das dores que conheço e das intenções que me movem. Mas quem me escuta recebe essas mesmas palavras a partir de outro mundo. Passa-as por suas próprias lembranças, expectativas, medos, afetos, cicatrizes e convicções.

 

Por isso, talvez nenhuma palavra atravesse verdadeiramente o espaço entre duas pessoas sem sofrer alguma transformação.

 

Dizemos uma coisa.

 

O outro escuta outra.

 

E, curiosamente, ambos podem estar sendo sinceros.

 

Há nisso algo profundamente desconcertante, porque passamos boa parte da vida tentando controlar a interpretação que os outros fazem de nós. Explicamos melhor. Acrescentamos detalhes. Repetimos. Justificamos. Voltamos ao assunto. Escolhemos palavras mais cuidadosas. E, ainda assim, às vezes somos entendidos exatamente da maneira que tentávamos evitar.

 

É que comunicação não é transferência.

 

Não entregamos pensamentos como quem entrega um objeto de uma mão para outra. Entregamos sinais. Palavras. Gestos. Silêncios. O restante será reconstruído dentro de quem recebe.

 

Talvez por isso existam tantos conflitos entre pessoas que, no fundo, jamais desejaram ferir umas às outras.

 

Uma frase atravessada.

Um silêncio interpretado como desprezo.

Uma firmeza percebida como arrogância.

Uma preocupação recebida como controle.

Uma distância entendida como indiferença.

Uma opinião tomada como ataque.

 

E então começamos a discutir não mais sobre aquilo que aconteceu, mas sobre aquilo que cada um acredita que aconteceu.

 

Talvez esse seja um dos dramas mais discretos da existência: não convivemos apenas com pessoas; convivemos também com as interpretações que elas fazem de nós.

 

E não temos domínio absoluto sobre nenhuma delas.

 

Isso não significa que estamos dispensados da responsabilidade pelo que dizemos. Ao contrário. Saber que a palavra pode chegar diferente deveria nos tornar ainda mais cuidadosos com ela. Há palavras que constroem moradas dentro das pessoas e outras que deixam ruínas. Há frases pronunciadas em segundos que permanecem durante anos na memória de alguém.

 

Mas existe uma diferença importante entre responsabilidade e controle.

 

Somos responsáveis pela clareza com que falamos, pela honestidade das nossas intenções, pelo respeito com que nos posicionamos e, principalmente, pela humildade de esclarecer quando percebemos que fomos mal compreendidos.

 

O que não podemos é exigir que todos nos interpretem exatamente como gostaríamos.

 

Há uma liberdade do outro que começa justamente onde termina a nossa explicação.

 

E talvez amadurecer seja compreender isso sem amargura.

 

É aceitar que algumas pessoas conhecerão apenas uma versão de nós construída a partir de um episódio, de uma frase, de um silêncio ou até de algo que nunca dissemos. Algumas nos compreenderão profundamente. Outras nos compreenderão pela metade. Outras talvez nunca nos compreendam.

 

E tudo bem.

 

Nem toda incompreensão precisa virar tribunal.

 

Nem toda interpretação equivocada exige defesa.

 

Nem toda versão distorcida de nós merece uma longa sustentação.

 

Há momentos em que devemos explicar. Há momentos em que devemos pedir desculpas. Há momentos em que devemos corrigir nossa própria forma de comunicar. Mas também existem momentos em que precisamos simplesmente permanecer em paz diante da consciência tranquila de termos sido honestos.

 

Foi essa a boa lição que extraí desses dois novos episódios.

 

Percebi que comunicar melhor continua sendo uma responsabilidade minha; ser compreendido exatamente como desejo, não.

 

Posso cuidar das palavras que lanço ao mundo, mas não posso escolher o lugar onde elas cairão.

 

Posso esclarecer minhas intenções, mas não reescrever a história através da qual alguém me escuta.

 

Posso rever meus excessos, reconhecer meus erros e aprender a dizer melhor aquilo que penso sem, contudo, transformar minha vida numa defesa permanente de quem sou.

 

No fim, talvez a verdadeira maturidade não esteja em conseguir ser compreendido por todos.

 

Esteja em aprender a falar com verdade, escutar com generosidade e, quando houver distância entre aquilo que dissemos e aquilo que ouviram, construir pontes sempre que possível.

 

E quando não for possível, seguir.

 

Porque depois de algum tempo compreendemos que não precisamos vencer todas as interpretações a nosso respeito.

 

Precisamos apenas ter coragem suficiente para corrigir aquilo em que erramos, serenidade suficiente para explicar aquilo que puder ser explicado e consciência suficiente para não permitir que o ruído do mundo seja maior do que a verdade que cultivamos dentro de nós.

 

Talvez seja essa uma das formas mais altas de liberdade: continuar escolhendo a clareza sem exigir compreensão, continuar escolhendo a bondade sem exigir reconhecimento e continuar escolhendo a verdade mesmo sabendo que, entre aquilo que dizemos e aquilo que o outro escuta, sempre existirá o insondável território da alma humana.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 08/08/2026
Alterado em 08/08/2026
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