WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Conto da Madrugada em que o Tempo Conversou Comigo

 

Ontem vivi o último dia dos meus sessenta anos.

Hoje, nesta primeira madrugada depois deles, acordei com 61.

Dito assim, parece apenas uma mudança de número. Uma folha virada silenciosamente no calendário.

Mas algumas fronteiras não fazem ruído quando as atravessamos.

Percebemos apenas, quando já estamos do outro lado, que uma parte da estrada terminou e outra começa exatamente sob os nossos pés.

 

Nesta madrugada, porém, havia alguém acordado antes de mim.

Um daqueles que habitam em mim.

Talvez o mais antigo.

Aquele que me observa quando escolho, quando hesito, quando avanço e, principalmente, quando recuo. Conhece minhas justificativas antes que eu as formule. Sabe distinguir prudência de medo, renúncia de desistência, coragem de impulso.

 

É testemunha, memória e, muitas vezes, juiz.

 

Rigoroso comigo.

Talvez rigoroso demais.

 

E como faz sempre, nesta madrugada ele me observava.

E eu o observava me observar.

 

Foi então que alguma coisa mudou no silêncio da casa.

 

Não sei se ouvi uma batida ou se apenas senti uma presença. Mas pensei naquela velha imagem da canção da Nana Caymmi, que se ouve alguém batendo na porta, e quem chega é o Tempo.

 

Só que, desta vez, não havia música.

 

Havia uma conversa.

E aquele meu eu, o observador e crítico que me acompanha por dentro, pareceu saber exatamente quem estava diante dele.

 

Eu não disse nada.

Apenas assisti.

 

O Tempo entrou.

 

Não era o dos relógios e calendários. Era outro.

 

Sentou-se diante daquele meu eu com a serenidade de quem não precisa chegar a lugar algum.

 

Olhei para trás e quase pude ver as muitas versões de mim espalhadas pela estrada: o menino que sonhava sem conhecer os limites do mundo; o jovem que acreditava haver tempo para tudo; o homem que precisou aprender que algumas respostas chegam tarde, outras nunca chegam, e que certas perguntas existem apenas para nos fazer caminhar.

 

Aquele meu eu também olhou.

 

Mas onde eu via caminhos, ele via escolhas.

Onde eu reconhecia cicatrizes, ele procurava erros.

Onde eu via tentativas, ele contabilizava fracassos.

Onde eu lembrava as vezes em que me levantei, ele parecia interessado sobretudo nas quedas.

 

O Tempo percebeu e logo disse:

— Então chegamos aos 61.

Aquele meu eu corrigiu:

— Não, passamos dos sessenta.

— Há diferença? Perguntou o Tempo.

— Há. Chegar parece conquista. Passar significa que alguma coisa ficou para trás.

O Tempo sorriu.

— Tudo o que é vivido fica para trás.

— Justamente. É isso que me preocupa (disse aquele meu eu).

— E o que você vê quando olha para trás? Indagou o tempo.

Aquele meu eu respondeu sem hesitar:

— Erros. Projetos que não deram certo. Sonhos abandonados. Decisões que ele tomaria diferente.

— Você conhece o resultado das escolhas dele. Respondeu o Tempo e continuou: eu estava presente quando elas ainda eram apenas possibilidades.

Aquele meu eu se calou.

— Você olha para trás sabendo onde cada estrada terminou. Ele precisou escolher sem enxergar a curva seguinte. Disse o Tempo.

— Isso não transforma erro em acerto. Retrucou aquele meu eu.

— Não. Mas pode transformar julgamento em compreensão. Afirmou o Tempo.

 

A frase permaneceu entre nós.

 

Aquele meu eu então perguntou:

— E as quedas?

O Tempo sorriu.

— Você continua chamando de queda aquilo que, visto daqui, muitas vezes foi fundação.

— Fundação?

— Algumas pedras que ele julgou obstáculos sustentaram aquilo que construiu depois.

 

Reconheci ali algo profundamente meu.

Houve tempos em que a vida parecia me entregar mais pedra que caminho, mais silêncio que resposta, mais noite que direção.

Caí.

Levantei-me.

Caí novamente.

E houve dias em que precisei recolher dos meus próprios escombros alguma coisa que ainda servisse para recomeçar.

 

— Você contabiliza as quedas (disse o Tempo), eu contabilizo quantas vezes ele se levantou.

— Nem sempre sozinho. Respondeu aquele meu eu.

O Tempo concordou.

— Finalmente você disse algo importante.

 

E eu soube.

Houve mãos.

Houve família.

Gente que conheceu minhas rachaduras e permaneceu. Pessoas que seguraram comigo alguma viga quando parte de mim ameaçava cair.

E houve também o Alto.

Deus.

A presença que tantas vezes sustentou aquilo que eu imaginava sustentar sozinho.

 

Depois de algum silêncio, o Tempo perguntou:

— Ele amou?

Aquele meu eu respondeu:

— Nem sempre como deveria.

— Eu perguntei se amou.

— Amou.

— Então deixe isso registrado.

Mas aquele meu eu continuou:

— Mas também feriu. Falhou. Decepcionou.

— Certamente (disse o Tempo).

— Então como pode tratá-lo com tanta generosidade?

O Tempo se inclinou para a frente.

— Porque eu estava lá.

 

Silêncio.

 

— Você julga hoje o homem de ontem com tudo aquilo que ele só aprendeu depois. Eu o vi quando ainda não sabia. Quando escolheu com medo. Quando adiou palavras porque imaginou haver outra oportunidade. Quando confundiu orgulho com força.

Fez uma pausa, mas logo prosseguiu o Tempo:

— Você conhece os resultados. Eu conheci as dúvidas.

 

Aquele meu eu não respondeu.

 

E talvez alguma coisa tenha mudado dentro de mim.

Não era absolvição.

Era compreensão.

 

O Tempo perguntou:

— De tudo o que ele conquistou, o que realmente permaneceu?

 

Vieram primeiro as respostas grandes daquele meu eu: trabalho, projetos, vitórias, reconhecimento.

Mas o Tempo pareceu esperar mais, como se soubesse que nenhuma delas tocava ainda o centro da pergunta.

 

Então surgiram outras lembranças: os rostos de quem caminhou ao lado dele, as conversas demoradas, as mesas cercadas de pessoas queridas, a casa iluminada esperando sua chegada, a voz de alguém amado, o mar, uma música antiga, certas lembranças que ainda sabem encontrar o caminho de volta.

 

Mas não apenas aquilo que ele recebeu.

Também aquilo que deixou (continuou a responder ao Tempo aquele meu eu):

 

A mão que estendeu quando alguém precisava de amparo e que, talvez sem que ele jamais soubesse, ajudou a mudar o rumo de uma vida. A palavra dita no momento certo, capaz de devolver coragem a quem quase a havia perdido. O abraço que ele ofereceu por poucos segundos, mas que permaneceu durante anos na memória de quem o recebeu. A presença silenciosa quando nenhuma palavra seria suficiente. O gesto pequeno que para ele talvez tenha sido apenas um gesto, mas que para alguém se tornou lembrança, abrigo ou esperança.

 

Aquele meu eu ficou em silêncio por alguns instantes.

 

Talvez porque, de tão rigoroso comigo, tivesse passado a vida procurando rachaduras e se esquecido de olhar para as vigas que permaneceram de pé. Conhecia de memória meus erros, minhas quedas, os caminhos que eu poderia ter percorrido de outra maneira. Mas talvez nunca tivesse se permitido enxergar, com a mesma atenção, as virtudes que também nasceram em mim e o bem que, mesmo imperfeito, fui deixando pelo caminho.

 

O Tempo percebeu e disse:

— Talvez você tenha sido justo com os erros dele e injusto com a história inteira.

 

Aquele meu eu não respondeu.

Pela primeira vez, parecia olhar para mim sem procurar alguma coisa para corrigir.

 

O Tempo caminhou até a janela. A madrugada começava a clarear. E disse:

— Talvez Heidegger tivesse razão ao nos lembrar de que a consciência da finitude dá espessura à existência. Saber que o tempo não é infinito não diminui a vida. Dá urgência, peso, significado.

Aquele meu eu perguntou:

— Então envelhecer é aprender que o tempo está acabando?

O Tempo sorriu.

— Não. Envelhecer é aprender que o tempo está acontecendo.

 

Essa resposta me atravessou.

A mim, que assistia à conversa.

 

Durante muitos anos, fui eu quem contou o tempo como quem mede distância: quanto passou, quanto perdi, quanto desperdicei, quanto ainda restava.

Talvez tivesse esquecido de perguntar quanto de vida havia dentro dele.

 

O Tempo olhou para nós dois.

Algo havia mudado naquele ambiente. Aquele meu eu já não parecia meu acusador, e eu já não sentia necessidade de me defender.

 

Sem que percebêssemos, o Tempo havia trazido uma trégua entre mim e mim mesmo.

 

Então se levantou.

Era hora de partir.

 

Antes, dirigiu-se àquele meu eu:

— Continue observando-o. Ele ainda precisará de você. Mas, quando olhar para suas quedas, lembre-se também das vezes em que se levantou. E, quando encontrar uma rachadura, não se esqueça de olhar para as vigas.

Depois voltou-se para mim:

— E você, habite os seus 61. Não espere uma vida sem cicatrizes para reconhecê-la como bonita. Ainda há pessoas para amar, portas para abrir, sonhos para sonhar e manhãs que você sequer conhece.

Caminhou até a porta e concluiu:

— Não me pergunte quanto ainda resta.

— Então o que devo perguntar? (perguntei eu mesmo)

— Quanta vida ainda cabe no tempo que vier.

 

E partiu.

Sem cerimônia.

Afinal, o Tempo nunca fica.

Passa.

 

Ficamos apenas nós dois.

Eu e aquele meu eu.

 

Olhei pela janela. Era minha primeira manhã aos 61. Havia luz onde, pouco antes, existia madrugada.

Pensei nas pedras que viraram alicerce, nas quedas das quais me levantei, nas mãos que encontrei e nas que estendi. Pensei na família, na fé, nos que ficaram, nos que partiram e em Deus, tantas vezes sustentando aquilo que imaginei sustentar sozinho.

 

Não sei quanto tempo ainda tenho.

Mas nesta manhã, isso deixou de ser a pergunta mais importante.

 

Por agora, só quero habitar os meus 61.

E ainda me emocionar com o mar, com uma música antiga, com uma conversa demorada, com uma mesa cercada de pessoas queridas. Quero abrir portas, fazer janelas maiores e deixar espaço para sonhos que ainda não sabem como chegar.

 

Abri a janela.

A manhã entrou.

Aquele meu eu se aproximou.

Pela primeira vez, ficou ao meu lado.

Não à minha frente para me julgar.

Nem atrás para vigiar meus passos.

Ao meu lado.

Nossos olhos se encontraram.

Já não havia acusação nos dele.

 

Talvez o Tempo tivesse feito, em uma madrugada, aquilo que nós dois não havíamos conseguido em tantos anos: ensinar-nos a olhar para a mesma vida com um pouco mais de ternura.

 

Aquele meu eu sorriu.

Olhou para a porta por onde o Tempo havia partido e depois para mim e disse-me:

— Passei a vida cobrando de você o homem que ainda não era. O Tempo veio me mostrar o homem que você se tornou.

Ficamos em silêncio.

Ele tornou a olhar para a porta e, quase num sussurro, completou:

— Que coisa bonita é o Tempo... passa levando tanto de nós e, às vezes, antes de partir, devolve-nos a nós mesmos.

 

Lá fora, amanhecia.

Dentro de mim, também.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 19/08/2026
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