WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A arte de reger encontros
Esta semana, fui chamado a uma das salas de reunião da empresa. Quando entrei, estavam ali muitos dos meus colegas e colaboradores de jornada. Fui recebido com uma homenagem muito carinhosa em razão do meu aniversário.
Há homenagens que nos presenteiam com palavras; outras, mais raras, nos presenteiam com a consciência do caminho percorrido. Não são apenas gestos de celebração. São pequenas pausas que a vida faz no curso apressado dos dias para nos permitir enxergar, pelos olhos dos outros, um pouco daquilo que talvez não consigamos perceber sozinhos. Aquela foi uma delas. E há afetos que não se agradecem apenas no instante em que acontecem: guardam-se. Levam-se conosco.
Mais tarde, quando regressei para casa e o silêncio substituiu as conversas daquele encontro, fiquei pensando em como a vida é uma extraordinária mestra na arte de aproximar pessoas. Ela promove encontros previsíveis, outros improváveis; alguns breves, outros destinados a atravessar anos; há aqueles que apenas passam por nós e há aqueles que, quase imperceptivelmente, passam a fazer parte de quem somos.
Talvez por isso Vinicius de Moraes tenha inserido em seu Samba da Bênção uma de suas mais belas constatações: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.”
Mas hoje quero escrever sobre maestros e orquestras.
Porque, enquanto olhava para aquelas pessoas reunidas naquela sala, ocorreu-me que havia algo muito maior naquela cena do que uma celebração de aniversário. Diante de mim estavam histórias, competências, expectativas, temperamentos, sonhos, dificuldades e talentos diferentes. Pessoas que, por circunstâncias que a vida tratou de reunir, passaram a compartilhar comigo uma parte importante de seus dias.
E pensei na responsabilidade de conduzi-las.
Uma empresa, afinal, guarda certas semelhanças com uma orquestra. Há metas que funcionam como partituras, estratégias que estabelecem o compasso, processos que precisam encontrar ritmo e decisões que, algumas vezes, exigem mudar o andamento sem permitir que se perca a harmonia. Há momentos de intensidade e momentos de pausa. Há quem esteja na linha de frente executando os acordes mais perceptíveis e há quem, quase silenciosamente, sustente toda a composição.
E talvez uma das maiores responsabilidades de quem lidera seja justamente compreender que harmonia não significa fazer com que todos toquem a mesma nota.
Uma grande orquestra existe porque instrumentos diferentes, com timbres diferentes e funções diferentes, encontram uma forma de produzir sentido juntos. Liderar pessoas também deveria ser assim: não apagar individualidades, mas coordená-las; não exigir uniformidade, mas construir unidade; não ocupar todos os espaços, mas saber quando indicar o compasso e, sobretudo, quando permitir que o talento do outro seja ouvido.
Foi então que me ocorreu uma frase atribuída a Max Lucado: “Se você quiser reger a orquestra, terá que virar as costas para a plateia.”
Talvez poucas imagens traduzam tão bem uma das solidões inevitáveis da liderança.
O maestro precisa escolher para onde olhar.
Se passar o concerto inteiro procurando o rosto de quem o aprova, perderá o olhar daqueles que dependem dele para encontrar o próximo compasso. Se reger preocupado com os aplausos, poderá comprometer a música. Porque há decisões que não serão imediatamente compreendidas, mudanças que provocarão desconforto, correções de rota que não produzirão simpatia e momentos em que liderar significará sustentar serenamente uma direção antes que seus resultados possam justificá-la.
Virar as costas para a plateia, portanto, não é desprezar quem observa. Muito menos acreditar que um líder esteja acima da crítica. É compreender que liderança não pode ser um exercício permanente de busca por aprovação.
A plateia julga o concerto depois de ouvi-lo. O maestro, entretanto, precisa tomar decisões enquanto a música ainda está acontecendo.
E essa diferença é imensa.
Quem lidera vive justamente nesse espaço: entre a partitura e a execução; entre aquilo que foi planejado e aquilo que a realidade permite; entre a necessidade de entregar resultados e a responsabilidade de não esquecer que resultados são construídos por pessoas. É preciso cobrar sem diminuir, corrigir sem humilhar, decidir sem se tornar insensível, reconhecer sem bajular e, sobretudo, compreender que autoridade talvez seja a parte menos importante da liderança.
Porque liderança verdadeira não se mede pela quantidade de pessoas que obedecem ao gesto do maestro, mas pela qualidade da música que elas conseguem produzir quando compreendem por que estão tocando juntas.
Naquela noite, então, percebi que meus pensamentos haviam unido as duas coisas: o encontro e a regência.
Aquelas pessoas que a vida colocou naquela sala não constituíam simplesmente uma equipe reunida para uma homenagem. Eram encontros. Alguns provavelmente improváveis. Pessoas vindas de histórias distintas, carregando experiências que começaram muito antes de nos conhecermos e que, por algum trecho da existência, passaram a dividir a mesma partitura profissional.
E talvez liderar seja também assumir responsabilidade sobre esse encontro.
Não no sentido pretensioso de determinar o destino de alguém, mas no sentido profundamente humano de compreender que ninguém atravessa verdadeiramente a vida de outra pessoa sem deixar alguma coisa: uma lembrança, um aprendizado, uma oportunidade, uma palavra, um exemplo ou, às vezes, uma cicatriz. Todo líder acaba deixando marcas. A única escolha que realmente lhe pertence é a natureza delas.
Foi isso que aquela homenagem, inesperadamente, me fez pensar.
Vinicius tinha razão: a vida é mesmo a arte do encontro. E Max Lucado também toca em uma verdade importante: para reger uma orquestra é preciso, algumas vezes, ter coragem de virar as costas para a plateia.
Talvez as duas ideias não estejam tão distantes quanto parecem.
Porque a vida nos oferece os encontros, mas são nossas escolhas que determinam o que faremos com eles. Alguns encontros serão apenas coincidências na biografia; outros se transformarão em compromisso. E quando o destino nos confiar, ainda que temporariamente, a responsabilidade de conduzir pessoas, talvez devamos nos lembrar de que elas não são nossa plateia.
São a nossa orquestra.
Não estão ali para nos aplaudir. Estão ali para construir conosco algo que nenhum de nós seria capaz de executar sozinho.
E é por isso que, ao final, talvez o grande líder não seja aquele que termina a jornada cercado de aplausos, mas aquele que consegue olhar para as pessoas que a vida colocou em seu caminho e perceber que cada uma encontrou espaço para oferecer o melhor de seu próprio instrumento.
Porque os aplausos cessam.
Os cargos passam.
As salas de reunião um dia serão ocupadas por outras pessoas.
Mas aquilo que construímos nos encontros permanece silenciosamente na memória daqueles que dividiram conosco algum trecho da caminhada.
É possível que essa seja essa a mais bela contradição da liderança: para reger bem, é preciso aprender a dar as costas aos aplausos; mas, para deixar uma boa lembrança, jamais se pode dar as costas às pessoas.