WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A mesma canção, outro homem

 

Nesta madrugada de domingo, dia 23 de agosto de 2026, meu interior estava pedindo música. Por isso, não fui à escrivaninha, como de costume. Em vez dos livros e das palavras que quase sempre me acompanham nas horas silenciosas, fui buscar em minhas playlists de estimação aquelas canções que marcaram tempos da minha vida, músicas que permanecem guardadas em nós como se a memória, para não perder certas épocas, tivesse aprendido a cantar.

 

Entre uma canção e outra dos anos 80, veio “Agonia”, interpretada por Oswaldo Montenegro. Bastaram os primeiros acordes para que a música trouxesse consigo não apenas lembranças, mas uma época inteira. Naqueles anos, acompanhar as edições dos festivais de música era um dos meus entretenimentos. Eu assistia às apresentações, acompanhava as classificações, torcia pelas canções e pelos intérpretes. Provavelmente já havia ali algo dessa paixão pela música que me acompanharia pela vida, essa curiosidade por descobrir como algumas palavras, quando encontram a melodia certa, conseguem dizer aquilo que tantas vezes não sabemos dizer sozinhos.

 

 

 

“Agonia”, composição de Mongol, foi defendida por Oswaldo Montenegro no Festival da Nova Música Popular Brasileira - MPB 80, promovido pela Rede Globo. Na grande final, realizada no Maracanãzinho, a canção sagrou-se campeã. E há uma coincidência curiosíssima: a final aconteceu exatamente em 23 de agosto de 1980, e hoje é 23 de agosto de 2026. Ou seja, hoje completam-se exatamente 46 anos da vitória de “Agonia”.

 

Depois de ouvi-la algumas vezes nesta madrugada, vim, enfim, para a escrivaninha. Não propriamente para reencontrar aquele tempo, mas para ouvir a mesma canção a partir do lugar onde estou hoje, depois dos anos vividos, das chegadas e partidas, das permanências e ausências, das coisas que compreendi e, principalmente, daquelas que a vida me ensinou que não precisam mais ser compreendidas.

 

Porque é justamente aí que “Agonia” hoje me alcança.

 

Passamos boa parte da existência acreditando que compreender é uma forma de resolver. Procuramos explicações para os amores que não permaneceram, para as despedidas que chegaram antes da hora, para escolhas que fizemos e para caminhos que não percorremos. Com o passar dos anos, porém, aprendemos que há sentimentos que não se submetem à razão e que nem tudo o que dói possui uma resposta. Algumas experiências não serão resolvidas; serão incorporadas àquilo que somos.

 

Quando a canção fala de morrer um pouco a cada dia, já não escuto apenas o sofrimento de um amor. Escuto as pequenas mortes que acontecem enquanto continuamos vivos: morre a criança que fomos, passa o jovem que acreditava possuir tempo infinito, desaparecem algumas certezas, alguns sonhos mudam de forma e certas pessoas partem levando consigo uma maneira de nós existirmos. Porque ninguém que amamos vai embora completamente sozinho; leva também um pouco daquele que éramos quando estávamos ao seu lado.

 

E então surge, no meio dessa agonia, a imagem mais bonita da canção: a folia. O homem sofre, mas dança; conhece a amargura, mas canta; percebe que alguma coisa dentro dele se desfaz e, ainda assim, escolhe contagiar outros corações com sua euforia. O que na juventude poderia parecer contradição, hoje me parece uma das formas mais profundas de sabedoria: felicidade não é necessariamente ausência de tristeza, mas a capacidade de continuar encontrando música apesar dela.

 

A vida nos mostra, com o tempo, quantas pessoas cruzaram nosso caminho sorrindo enquanto enfrentavam dores que desconhecíamos. Quantas nos ofereceram alegria carregando silenciosamente suas próprias batalhas, e quantas vezes nós mesmos fizemos isso. Existe uma grandeza discreta em quem sofre sem transformar a própria dor em crueldade, em quem atravessa a noite sem apagar a luz dos outros, em quem, depois de ferido, ainda preserva a delicadeza.

 

Também por isso já não acredito inteiramente naquela antiga afirmação de que o tempo cura tudo. O tempo transforma. Algumas feridas ele fecha; outras nos ensina a carregar. Há experiências que deixam espaços que nunca mais serão preenchidos da mesma maneira, mas até esses vazios podem nos tornar mais profundos, desde que aprendamos a perguntar não apenas por que determinadas coisas nos aconteceram, mas o que faremos com aquilo que nos aconteceu.

Não escolhemos tudo o que a vida coloca diante de nós, mas podemos participar daquilo em que transformaremos o vivido. A dor pode tornar-se amargura ou profundidade; a ausência pode converter-se em ressentimento ou memória; o fracasso pode produzir cinismo ou sabedoria. Há sempre alguma liberdade nesse território interior onde decidimos o destino daquilo que o mundo deixou em nós.

 

Foi assim que, nesta madrugada, a mesma “Agonia” de 1980 chegou aos meus ouvidos de maneira diferente. A música permaneceu; quem mudou fui eu. E essa é uma das grandezas da arte: uma canção fica guardada no tempo e nos espera durante décadas para que, ao reencontrá-la, possamos perceber não apenas o que ela dizia, mas tudo aquilo que a vida acrescentou à nossa maneira de ouvi-la.

 

Hoje já não escuto “Agonia” somente como uma canção sobre sofrimento. Escuto-a como uma canção sobre a coragem de continuar, sobre seres humanos que conhecem perdas e ainda encontram razões para amar, que guardam ausências e ainda celebram presenças, que sabem da brevidade da existência e, justamente por isso, começam a compreender o valor imenso das coisas aparentemente pequenas: uma conversa demorada, uma mesa compartilhada, um abraço que não foi adiado, uma palavra dita enquanto ainda havia tempo.

 

Talvez, toda agonia humana carregue um pouco do nosso desejo de permanência em um mundo feito de passagem. Queremos conservar pessoas, momentos, lugares e até versões de nós mesmos, enquanto a vida insiste em seguir. Amadurecer é descobrir que viver não significa possuir o que amamos para sempre, mas estar verdadeiramente presente enquanto o amor nos é concedido.

 

Por isso, depois de ouvir “Agonia” nesta madrugada, não fiquei com a tristeza. Fiquei com a gratidão. Pelo que permaneceu, pelo que passou, por aqueles que ainda caminham conosco e por aqueles cuja ausência continua habitando nossa memória. Até algumas dores, quando contempladas à distância, revelam que certas profundidades da alma somente se abrem depois que a vida nos atravessa.

 

E penso que existe nisso uma bela forma de esperança: a vida não exige que cheguemos ao fim sem feridas; pede apenas que nossas feridas não nos façam esquecer a beleza. Enquanto ainda formos capazes de oferecer ternura depois da dor, de agradecer apesar das perdas e de reconhecer a música quando ela novamente começar a tocar, a amargura não terá vencido.

 

Somos passageiros, e ainda assim amamos. Sabemos que algumas coisas terminarão, e ainda assim nos entregamos. Sabemos que a noite chegará, e mesmo assim acendemos luzes. E sabemos que toda música, em algum momento, termina.

Por isso, enquanto ela toca, é preciso não permanecer sentado.

 

Nesta madrugada de 23 de agosto de 2026, exatamente quarenta e seis anos depois daquela vitória no Maracanãzinho, “Agonia” me trouxe de volta à escrivaninha para lembrar que viver pode ser justamente isto: carregar com serenidade algumas dores, guardar com amor algumas ausências, agradecer profundamente as presenças e, enquanto ainda houver música, encontrar coragem para levantar-se e seguir para uma outra folia.

 

 

Compartilho aqui “Agonia”, diretamente do Festival MPB 80, na interpretação de Oswaldo Montenegro. Mais do que uma lembrança musical, é o registro de uma noite que entrou para a história: há exatamente 46 anos, em 23 de agosto de 1980, essa canção se tornava a grande campeã do festival. Ouvi-la hoje, na apresentação daquela noite, é permitir que música, memória e tempo se encontrem novamente.

https://www.youtube.com/watch?v=6NeRnmODP5M

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 23/08/2026
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