WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
A Vida Não Acontece Uma Vez
Há uma frase que atravessa o tempo com a desenvoltura das verdades que, de tão repetidas, já não precisam ser examinadas:
“Só vivemos uma vez.”
Dizem-na como conselho, advertência, convite à coragem. Como quem lembra que o tempo é breve, que certas oportunidades não regressam e que não convém passar pela existência apenas administrando os dias, esquecidos de habitá-los.
Hoje, porém, ouvi essa frase por acaso.
Entrei no elevador e duas pessoas já conversavam. Eu era apenas o terceiro passageiro, silencioso e involuntário ouvinte de uma história que começara antes de mim.
Falavam de alguém que não estava ali.
Não soube seu nome, nem o que teria feito, ou deixado de fazer, para merecer aquele conselho. Ouvi apenas quando uma das pessoas contou à outra que já dissera a esse terceiro ausente que ele precisava compreender uma coisa: “nesta vida, só vivemos uma vez.”
A frase ficou por alguns segundos naquele pequeno espaço entre espelhos, números luminosos e andares que desciam. E soou estranha.
Aquelas palavras tantas vezes ouvidas por mim, e que, muito provavelmente, eu mesmo já disse, de repente pareceram equivocadas.
Não falsas.
Invertidas.
Tive vontade de entrar na conversa. Há momentos em que sentimos uma inexplicável necessidade de discutir coisas imensas com completos desconhecidos. Mas o elevador chegou antes da filosofia.
As portas se abriram.
Cada um seguiu seu caminho.
Eu trouxe a frase comigo.
Agora, diante da escrivaninha, já me preparando para o início do fim de semana, compreendo o que não houve tempo de digerir durante aquela breve descida.
Não vivemos uma vez.
Morremos uma vez.
Viver é outra coisa.
Viver é o que fazemos todos os dias.
Vivemos quando acordamos e reconhecemos novamente o mundo. Quando abrimos uma janela, atravessamos uma rua, esperamos alguém chegar. Vivemos numa mesa cercada de vozes e também no silêncio de um quarto. No amor que começa e naquele que, mesmo terminado, deixou alguma coisa em nós. Nas partidas, nos regressos, nas perdas, nas descobertas. No riso sem motivo suficiente e na força que aparece justamente quando acreditávamos não possuir mais nenhuma.
Vivemos sempre que alguma coisa ainda nos comove.
Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, escreveu: “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido.”
Há uma vida inteira nisso.
Ouvir o vento.
Nada conquistar, nada provar, nenhum grande acontecimento. Apenas estar ali para percebê-lo.
Talvez, a vida se esconda justamente nessas coisas às quais quase nunca damos o nome de vida. A luz entrando pela janela. O cheiro do café com leite. Uma música que chega de longe. Uma voz conhecida ao telefone. Uma mão sobre outra. O caminho de volta para casa. A presença de alguém que ainda não sabemos que um dia será saudade.
Há muitas vidas dentro de uma existência. Não porque nos sejam concedidas outras, mas porque, ao longo de uma só, somos tantas pessoas que já não cabemos inteiros naquele que fomos. Cada tempo vivido inaugura alguém e, silenciosamente, despede outro.
A vida da criança que fomos e para quem certas pessoas pareciam eternas. A de quem amou pela primeira vez. A de quem perdeu. A de quem recomeçou depois de acreditar que não conseguiria. A de quem ainda seremos quando chegar o último dos nossos dias. Há vidas que duram décadas e outras que cabem inteiras numa tarde.
E, exceto uma delas, todas terminam sem funeral.
Deixamos de ser quem éramos e continuamos caminhando.
Certezas envelhecem. Afetos mudam de lugar. Pessoas chegam, permanecem por algum tempo e partem. Nós também partimos de muitas versões de nós mesmos.
E todas as manhãs alguma coisa recomeça.
Por isso, já não creio que a urgência de viver nasce do fato de a vida ser uma só.
Penso justamente o contrário.
Sua grandeza está em poder acontecer tantas vezes.
Hoje.
Amanhã.
Num encontro.
Num silêncio.
No amor.
Na falta.
No instante quase imperceptível em que o vento passa e estamos vivos para ouvi-lo.
A morte, sim, guarda a solenidade do irrepetível.
A vida não.
A vida insiste.
Chega todas as manhãs sem anunciar que está chegando. Disfarça-se de rotina, veste-se de segunda-feira, de louça sobre a mesa, de compromissos, atrasos e pequenos gestos. Às vezes, cabe até na breve descida de um elevador, entre desconhecidos e palavras que ouvimos por acaso. E assim, ocupados esperando os grandes acontecimentos, corremos o risco de não perceber que ela esteve ali o tempo inteiro.
Agora é sexta-feira.
O fim de semana começa devagar do lado de fora desta escrivaninha.
Há algumas horas, eu apenas descia alguns andares. Não sabia que traria comigo uma frase. Muito menos que precisaria vir até aqui para discordar dela.
Porque morrer, ao que sabemos, morreremos uma única vez.
Mas viver não cabe nessa conta.
Viver acontece de novo e de novo, enquanto houver manhã, enquanto houver alguém, enquanto alguma coisa, por menor que seja, ainda alcançar nossos olhos, nossa memória, nosso espanto.
No fim, não é preciso viver tudo.
É preciso não passar distraído pela própria vida.
Porque a morte terá, um dia, o seu único instante.
Enquanto a vida, até lá, terá todos os outros dias.
A morte, essa sim, acontece uma vez.
A vida, no entanto, acontece tantas vezes quantos forem os dias que nos forem dados.