WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
Capa Textos Fotos Perfil Livro de Visitas Links
Textos

Alma-Lar

 

Muito se diz sobre almas gêmeas.

Talvez até demais.

 

A expressão atravessou séculos, poemas, promessas, encontros e despedidas até ficar um pouco gasta pelo uso, como essas palavras bonitas que repetimos tantas vezes que, um dia, correm o risco de já não nos causar espanto.

 

E o amor, quando é amor, deveria sempre conservar algum espanto.

 

Por isso, hoje, não quero pensar em alma gêmea como duas metades predestinadas que vagavam incompletas pelo mundo à espera de se encontrarem. Há algo de belo nessa ideia, é verdade, mas também algo que me inquieta: eu não acredito que duas pessoas precisem ser metade para que juntas sejam inteiras.

 

Prefiro pensar que o grande amor acontece quando duas inteirezas se reconhecem.

 

Quando alguém chega e, sem nos diminuir, amplia-nos.

 

Quando a presença de uma pessoa não ocupa um espaço vazio, mas inaugura dentro de nós um espaço que antes sequer existia.

 

Talvez seja isso que chamamos, por falta de expressão melhor, de alma gêmea: não alguém sem quem não podemos existir, mas alguém depois de quem já não conseguimos compreender a existência exatamente da mesma maneira.

 

E hoje, sábado, pensei nisso...

 

Os sábados, seguidos pelos domingos, parecem formar em mim uma pequena pátria dentro da semana. São dias em que o relógio perde um pouco de sua autoridade, em que a vida anda descalça pela casa, demora no café da manhã, estende conversas, inventa silêncios e permite que duas pessoas simplesmente existam uma ao lado da outra.

 

Lembrei-me agora da prosa que escrevi ontem: “A Vida Não Acontece Uma Vez.”

 

E realmente acredito nisso.

 

Porque a vida acontece todos os dias.

 

Acontece numa terça-feira qualquer, numa manhã sem importância aparente, numa mensagem inesperada, num jantar improvisado, numa risada no meio da sala. Acontece nesses pequenos acontecimentos que quase ninguém registra e que, misteriosamente, acabam se tornando a matéria mais preciosa de uma existência.

 

Nenhum dia é intervalo da vida.

 

Todos contam.

 

Todos passam por nós levando alguma coisa e deixando outra.

 

Mas confesso que, para mim, sábados e domingos possuem uma delicadeza particular. Porque depois de atravessarmos a semana obedecendo aos compromissos, às horas e às tantas urgências que nos reclamam, chega finalmente o momento em que o tempo afrouxa o nó da gravata, abandona o relógio sobre a mesa e nos permite simplesmente estar.

 

Contudo, este sábado será diferente.

 

Minha Diva não estará comigo.

 

Entre São Paulo e Turim existem, em linha reta, aproximadamente 9.400 quilômetros.

 

Nove mil e quatrocentos quilômetros.

 

É uma distância absurda quando medida pelos pés. É imensa quando medida por aeroportos, fusos, oceanos, continentes e horas de voo.

 

Mas há distâncias que a geografia sabe medir e o amor, não.

 

Porque, enquanto ela está do outro lado do Atlântico, descubro uma dessas contradições que somente quem ama consegue compreender: ela está longe de mim e, ainda assim, está em toda parte.

 

Está no lugar vazio ao meu lado. Está naquilo que vejo e imediatamente penso que gostaria de mostrar a ela. Está numa frase que me ocorre e fica suspensa, esperando sua volta. Está na vontade automática de virar o rosto para dizer alguma coisa e encontrar apenas o silêncio. Está até nas pequenas banalidades que, quando compartilhadas, deixariam de ser banais.

 

E é nesse momento que compreendo que saudade é mesmo a forma que a presença encontra de continuar existindo durante a ausência.

 

Saudade não é simplesmente sentir falta.

Sentir falta é perceber que alguém não está.

Saudade é perceber o quanto alguém permanece justamente porque não está.

 

É a presença revelada pelo avesso.

 

Uma cadeira pode estar vazia e, ainda assim, guardar alguém. Um travesseiro pode estar intacto e, ainda assim, possuir memória. Uma casa pode estar silenciosa e, ainda assim, repetir uma voz. Porque há pessoas cuja presença, depois de verdadeiramente conhecida, não termina quando a porta se fecha. Elas deixam uma espécie de luminosidade nas coisas.

 

E talvez seja isso a intimidade.

 

Não apenas conhecer o corpo do outro, seus desejos ou seus segredos. Intimidade é conhecer seus intervalos. É saber interpretar um silêncio sem interrogá-lo. É perceber um cansaço antes que ele seja confessado. É reconhecer o significado de um olhar que, para qualquer outra pessoa, seria apenas um olhar.

 

Intimidade é quando o outro aprende a nossa linguagem anterior às palavras.

 

E cumplicidade talvez seja o passo seguinte.

 

É quando duas pessoas constroem entre si um território invisível que somente elas sabem atravessar.

 

Um gesto.

Uma brincadeira.

Uma memória.

Uma palavra dita de determinado jeito.

Um olhar atravessando uma sala cheia de gente.

 

E pronto.

 

O mundo inteiro continua acontecendo ao redor, mas alguma conversa secreta aconteceu entre os dois.

 

Por isso a ausência dói de maneira tão particular quando existe cumplicidade.

 

Não sentimos falta apenas da pessoa.

Sentimos falta de quem somos quando estamos com ela.

 

E essa é para mim uma das descobertas mais profundas do amor.

 

Há pessoas diante das quais desempenhamos papéis. Há outras diante das quais precisamos nos explicar. Algumas conhecem nossa história; mas existe aquela pessoa diante de quem podemos simplesmente pousar.

 

Desarmar o espírito.

 

Retirar as armaduras que usamos para atravessar o mundo.

 

E descansar sendo exatamente quem somos.

 

Minha Diva é esse lugar para mim.

 

Por isso, até que ela regresse, alguma coisa parecerá ligeiramente fora do lugar. Não porque eu tenha deixado de ser inteiro. Mas porque existe uma diferença imensa entre estar inteiro e estar inteiro ao lado de quem torna a nossa inteireza mais bonita.

 

Durante estes dias, haverá em mim uma espécie de cadeira vazia.

 

Mas não é um vazio à espera de presenças.

 

É exatamente o contrário.

 

Aquele lugar tornou-se inocupável por qualquer outra presença, não por decisão, mas porque adquiriu identidade.

 

Já não é simplesmente um espaço.

 

É o lugar dela.

 

Há ausências que não criam vazios à espera de preenchimento. Criam presenças de outra natureza. Porque aquele lugar possui nome, memória, perfume, riso, voz. E promessa de regresso.

 

Penso que amar seja também isso: descobrir que alguém pode estar longe sem deixar de estar. Que existe uma forma de presença que já não depende da proximidade. Que alguns lugares dentro de nós, uma vez habitados pelo amor, passam a reconhecer para sempre quem neles mora.

 

Não por escolha deliberada.

Não por fidelidade a uma promessa.

 

Mas porque há afetos que, depois de adquirirem identidade, tornam impossível qualquer equivalência. Apenas dizem silenciosamente ao mundo: aqui mora alguém que está temporariamente longe.

 

Então atravessarei este sábado, depois o domingo e os dias que ainda nos separarem.

 

A vida continuará acontecendo, como sempre acontece.

 

Mas algumas de suas cenas ficarão esperando por ela.

 

Guardarei histórias.

Pensamentos.

Pequenos acontecimentos.

 

E quando ela voltar, haverá aquele momento aparentemente simples em que a distância inteira desabará.

 

Nove mil e quatrocentos quilômetros serão reduzidos a centímetros.

Continentes serão vencidos por um abraço.

Fusos horários anulados pelo encontro de dois rostos.

 

E o mundo, que durante alguns dias pareceu excessivamente grande, voltará a caber entre dois braços...

 

E é então que agora desejo retornar àquela velha expressão que iniciou esta prosa: alma gêmea.

 

Não!

 

Já não me basta esta expressão.

 

“Gêmea” ainda me fala de semelhança, como se amar profundamente fosse encontrar alguém igual a nós.
 

E não é.

 

Ela não é a repetição da minha alma. Nem eu da dela. Somos diferentes. Inteiros. Livres. E justamente por isso o encontro possui tamanho valor.

 

Não somos duas almas iguais.

 

Somos duas existências que, podendo seguir infinitas direções, encontraram uma na outra um lugar onde desejam permanecer.

 

Por isso, a partir de hoje, quando eu pensar em “alma gêmea”, já não traduzirei o pensamento com a mesma expressão.

 

A liberdade poética acaba de me presentear com outra palavra composta. Talvez ela nem existisse antes de eu precisar dela.

 

Vou chamá-la de: Alma-Lar.

 

Porque “gêmea” fala de alguém que se parece conosco.

 

“Lar” fala de algo mais profundo.

 

Fala de reconhecimento.

De pertencimento.

De repouso.

 

Daquele lugar para onde não precisamos pedir licença para voltar.

 

Sinceramente penso que o amor mais raro não seja encontrar uma alma igual à nossa; seja encontrar uma alma diante da qual a nossa reconheça, sem que ninguém precise lhe explicar: é aqui.

 

Alma-Lar.

 

Não a alma que me completa, porque eu já era inteiro antes dela. Não a alma que se confunde com a minha, porque amo também tudo aquilo que nela é diferente de mim. Mas a alma diante da qual a minha não precisa se defender, representar, explicar ou esconder. A alma onde a minha pode pousar, repousar.

 

Minha Diva é a minha Alma-Lar.

 

É como se a vida, depois de nos vestir tantas vezes com obrigações, medos, responsabilidades, cicatrizes e tempo, finalmente tivesse encontrado uma veste feita sob medida para aquilo que somos por dentro.

 

Eu visto um pouco da alma dela.

Ela veste um pouco da minha.

 

E nenhuma das duas deixa de pertencer a si mesma.

 

E é justamente esse o milagre.

 

Porque amar alguém profundamente não é aprisionar duas almas uma à outra. É permitir que sejam livres e descobrir, com assombro, que mesmo livres continuam escolhendo a mesma direção.

 

Hoje existem cerca de nove mil e quatrocentos quilômetros entre nós.

 

Mas distância alguma consegue ser maior do que aquilo que já aprendemos a habitar um no outro.

 

Por isso sinto saudade.

Por isso a casa parece diferente.

Por isso este sábado e o domingo terão horas mais monótonas do que deveriam.

 

E por isso também espero.

 

Porque toda saudade que conhece a data do abraço é, no fundo, uma forma dolorosamente linda de esperança.

 

Ela voltará.

 

E quando voltar, talvez eu não precise dizer coisa alguma.

 

Talvez baste abraçá-la.

 

Há abraços que não aproximam apenas dois corpos.

 

Há abraços que devolvem duas pessoas ao lugar onde suas almas aprenderam a morar.

 

E quando esse momento chegar, não direi que reencontrei minha alma gêmea.

 

Direi apenas, ainda que somente dentro de mim: minha Alma-Lar voltou para casa.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 29/08/2026
Alterado em 29/08/2026
Comentários