WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
O Sabor das Ausências
Neste primeiro sábado de setembro, o dia passou sem grandes acontecimentos. Um sábado um tanto monótono, talvez porque me faltasse a minha Alma-Lar, ainda em viagem. E há ausências que alteram discretamente a arquitetura das horas. Nada chega propriamente a doer, nada desaba, nada se anuncia como tristeza, mas o dia perde alguma coisa que não sabemos nomear.
Restou-me o descanso.
E descansei.
As horas passaram sem pedir memória, sem produzir espanto, sem deixar acontecimento digno de ser guardado. Até que, já nos momentos finais do dia, quando eu acreditava que o sábado terminaria sem me entregar pensamento algum, surgiu, despretensiosa, uma frase:
“O sal não está no cardápio, mas quando falta você sente.”
E foi o bastante para dar densidade ao dia.
Fiquei pensando que a vida pode ser feita, em sua parte mais essencial, exatamente dessas coisas que não estão no cardápio.
Porque o cardápio é, de algum modo, uma declaração de importâncias.
Nele estão os nomes, as escolhas, as promessas do que virá. Descrevem-se ingredientes, combinações, técnicas, procedências. Há pratos que chegam acompanhados de pequenas narrativas sobre si mesmos, como se precisassem explicar previamente a experiência que pretendem oferecer.
O sal não.
Ele pode até estar ali, à vista, no centro da mesa, disponível para a pequena ousadia de quem deseja corrigir o chef. Mas sua presença sobre a mesa não significa que pensamos nele. Quase nunca pensamos.
E está justamente aí a força da metáfora.
Há coisas que podem permanecer diante dos nossos olhos durante toda a vida e, ainda assim, permanecer fora da nossa consciência.
Porque ver não é necessariamente perceber.
Perceber exige outra espécie de atenção.
O sal participa sem se anunciar. Não pretende ser o sabor; apenas permite que os sabores revelem plenamente aquilo que são. Sua grandeza está numa espécie de renúncia: quando está na medida certa, desaparece dentro daquilo que melhora.
E há algo de profundamente filosófico nisso.
Estamos acostumados a medir a importância das coisas pela quantidade de atenção que elas recebem. Como se essencial fosse aquilo que ocupa o primeiro plano. Como se valor e visibilidade fossem grandezas equivalentes.
Mas é possível que tenhamos aprendido a olhar a vida pelo lado errado.
Algumas das coisas mais importantes são justamente aquelas cuja perfeição consiste em quase não serem percebidas.
O silêncio entre duas notas. O intervalo entre duas palavras. A sombra que permite descansar da luz. O chão, enquanto caminhamos. O ar, enquanto respiramos. A saúde, enquanto não dói. O tempo, enquanto acreditamos possuí-lo. A normalidade de uma manhã qualquer.
Nada disso costuma exigir nossa atenção enquanto está em ordem.
E, no entanto, experimentemos retirar.
É curioso: o excesso costuma anunciar-se; a falta, revelar.
Há uma espécie de conhecimento que somente a ausência produz.
Enquanto algo funciona silenciosamente a nosso favor, incorporamo-lo à paisagem. Deixamos de vê-lo não porque tenha perdido importância, mas porque sua permanência nos convenceu de que sempre estaria ali.
O hábito tem esse estranho poder: transforma privilégios em cenário.
Por isso somos tão competentes em perceber o que irrompe e tão distraídos diante do que sustenta.
O extraordinário nos captura porque quebra a continuidade. Mas é o ordinário que torna possível a continuidade. E aí reside uma das grandes ironias da existência: aquilo que mais nos sustenta é, frequentemente, aquilo a que menos prestamos atenção.
Não acordamos celebrando o fato de respirar. Não interrompemos uma tarde qualquer para agradecer que nada dói. Não contemplamos demoradamente uma porta apenas porque, do outro lado, existe alguém cuja presença já se tornou habitual. Não fazemos inventário dos pequenos equilíbrios que permitem que um dia seja simplesmente um dia.
Queremos acontecimentos.
A vida, porém, parece preferir fundamentos.
E fundamentos quase sempre trabalham em silêncio.
O erro pode estar em procurarmos o sentido da existência apenas naquilo que acontece, quando uma parte imensa dele repousa justamente naquilo que permanece.
Há grandeza no que não exige anúncio. Há beleza no que não disputa atenção. Há coisas cuja importância não está no fato de serem notadas, mas no fato de tornarem possível tudo aquilo que notamos.
O sal não é o prato.
Mas há pratos que, sem ele, deixam de ser inteiramente aquilo que poderiam ser.
E então a frase começou a me parecer menos gastronômica e mais metafísica.
Vivemos cercados de uma espécie de sal existencial: pequenas condições silenciosas sem as quais o mundo continuaria aparentemente no mesmo lugar, mas já não teria exatamente o mesmo sabor.
Uma rotina.
Uma certeza.
Um costume.
Uma voz conhecida atravessando a casa.
Uma luz acesa em determinado cômodo.
A expectativa de um reencontro.
A tranquilidade de saber que existe um lugar para onde voltar.
Nada disso costuma aparecer no “cardápio” quando fazemos a descrição solene da nossa própria vida.
Pergunte a alguém sobre sua história e provavelmente ouvirá sobre viagens, conquistas, perdas, mudanças, grandes decisões.
Raramente alguém dirá: “minha felicidade também foi feita de milhares de terças-feiras em que nada aconteceu.”
E, no entanto, foi.
Quem sabe sobretudo delas.
Porque a vida não acontece apenas nos acontecimentos.
A vida acontece também e, em grande medida, no intervalo entre os acontecimentos.
É ali que moramos. É ali que amamos. É ali que, sem perceber, somos felizes.
E foi então que compreendi alguma coisa sobre este sábado aparentemente monótono.
Ele não estava vazio.
Apenas havia nele uma ausência grande o bastante para me fazer perceber tantas pequenas presenças que, como o sal, sustentam silenciosamente os dias.
Minha Alma-Lar ainda estava longe. E foi justamente a ausência dela que afinou meu olhar para todas as outras.
Há uma delicada ironia no amor quando ele se torna cotidiano: quanto mais alguém passa a fazer parte da nossa vida, menos percebemos os infinitos modos pelos quais sua presença a transforma.
Quando ela está, eu simplesmente não penso que ela está.
Não noto seus passos pela casa, uma frase lançada de outro cômodo, o conforto de dizer qualquer banalidade no instante em que ela me ocorre. Não percebo a beleza de dividir um silêncio sem precisar preenchê-lo.
Não percebo.
Porque está.
E aquilo que amamos profundamente, quando permanece, deixa aos poucos de ser presença para se tornar paisagem, não porque tenha diminuído, mas porque passamos a viver dentro dela.
Agora ela não está.
E, no entanto, está.
Está na frase que preciso guardar para depois. Na graça que espera pelo seu riso. No silêncio da casa, que de repente parece maior.
Foi então que entendi que sentir falta não é apenas perceber que alguém se foi por algum tempo. É descobrir quantos lugares essa pessoa ocupava sem que soubéssemos.
Minha Alma-Lar está longe, mas permanece nesses pequenos espaços do dia em que, sem perceber, eu já contava com ela: numa frase que fica por dizer, numa graça que espera pelo seu riso, no silêncio da casa que, de repente, parece maior.
E há certa beleza nisso.
Porque a saudade também revela.
Ela nos mostra, pela ausência, aquilo que a presença, de tão querida e habitual, já havia tornado parte de nós.
Talvez por isso aquela frase tenha me encontrado justamente hoje.
O dia parecia apenas monótono. Faltava-lhe alguma coisa que eu não soubera nomear.
Agora sei.
Há presenças que são como o sal: não precisam ser percebidas para dar sabor à vida, mas basta que faltem para que tudo, ainda sendo o mesmo, já não tenha exatamente o mesmo gosto.