WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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Um Almoço, Duas Galerias e as Pedras que Carregamos

 

Dia desses escrevi aqui no Recanto uma crônica que chamei de “Isso não é uma Igreja”, mesmo título do evento de que participei, em maio deste ano, no Rio de Janeiro, com o pastor Ed René Kivitz.

 

Ed René tornou-se uma referência para mim, talvez porque me pareça alguém que já compreendeu algumas coisas que eu ainda gostaria de compreender sobre os mistérios que existem entre o Criador e nós, criaturas. Ou, quem sabe, porque tenha compreendido justamente que há coisas que não se compreendem por inteiro.

 

Nós é que temos essa mania de querer organizar Deus, interpretar Sua vontade, decifrar Seus silêncios e explicar Seus caminhos. E, nessa tentativa de transformar mistério em certeza, confundimos tantas vezes a vontade de Deus com a nossa, Sua voz com nossos desejos, fé com convicção e convicção com verdade. Talvez venha daí boa parte da confusão.

 

É também por isso que gosto de ouvi-lo. Não procuro palavras que me deixem confortável; nesse assunto, conforto demais sempre me causa alguma desconfiança. Prefiro a palavra que inquieta, confronta certezas e desloca alguns móveis dentro da alma. Há palavras que não chegam para nos dar paz, mas para perturbar a paz falsa que construímos.

 

Mas sobre isso já falei naquela outra crônica.

 

O fato é que meses depois daquele encontro no Rio, a vida me reservaria uma dessas ocasiões que a gente recebe com alegria e alguma surpresa: na semana passada, tive o privilégio de almoçar com Ed René. O convite me deixou honrado e, sobretudo, feliz.

 

Sentamo-nos em um aconchegante restaurante de Perdizes, em São Paulo, e, entre um suculento contrafilé, algumas perguntas, histórias e risadas, conversamos sobre essa estranha e fascinante relação que temos, ou buscamos ter, com Deus.

 

Foi um almoço de muita audição e troca de experiências, embora eu tenha procurado escutar mais do que falar. Existem encontros que terminam quando nos despedimos. Outros continuam conosco.

 

Aquele almoço foi um deles.

 

Saí de lá com a sensação de que algumas conversas não nos entregam respostas; apenas tornam diferentes as perguntas que fazemos depois. A mesa foi recolhida, a conta foi paga, cada um seguiu seu caminho, mas algumas questões vieram comigo: o que esperamos de Deus, o que atribuímos a Ele e, talvez principalmente, por quais sinais julgamos que uma vida foi abençoada, aprovada, bem vivida.

 

Pensando agora, talvez essa tenha sido a pergunta que trouxe comigo de Perdizes sem perceber: qual é a medida de uma vida diante de Deus?

 

E foi curioso que, poucos dias depois, a pergunta encontrasse uma espécie de resposta, não necessariamente a resposta que eu procurava, justamente no lugar mais improvável: meu feed.

 

Numa dessas rolagens distraídas, deparei-me com um vídeo que apresentava algo como “os cinco líderes religiosos mais ricos do Brasil” e mencionava a Forbes. Talvez, em outro momento, eu simplesmente passasse adiante. Mas aquela pergunta ainda estava comigo, e alguma coisa no vídeo me deteve.

 

Não exatamente os nomes.

 

A medida.

 

A riqueza como notícia, o patrimônio como distinção, os números como uma espécie de legenda capaz de resumir o sucesso de uma vida.

 

Não há nada de estranho em uma revista de negócios medir riqueza; é exatamente o que se espera dela. O que me inquietou foi perceber como essa mesma régua pode, quase sem que notemos, atravessar a porta da fé. Como facilmente patrimônio se aproxima de bênção, visibilidade de relevância, crescimento de aprovação, sucesso de favor divino.

 

Talvez o vídeo tenha me chamado a atenção justamente porque o almoço havia deixado em mim uma pergunta sobre medidas.

 

E então outra medida me veio à memória.

 

A do Evangelho.

 

Foi inevitável pensar nos primeiros seguidores de Jesus e imaginar o que aconteceria se aplicássemos a eles os nossos critérios de sucesso. Uma Forbes do primeiro século teria alguma dificuldade para apresentá-los como exemplos de homens que “deram certo”. Um termina decapitado; outro, segundo a tradição cristã, crucificado de cabeça para baixo; outro conhece o exílio numa ilha. Prisões, perseguições, abandono e morte completariam algumas daquelas biografias.

 

Nenhuma fortuna impressionante. Nenhuma capa sobre prosperidade. Histórias pouco adequadas para ilustrar aquilo que hoje costumamos chamar de sucesso.

 

E foi assim que o almoço encontrou o feed, e o feed acabou me levando a uma espécie de “Forbes” muito mais antiga.

 

Hebreus 11.

 

Se a lista que apareceu no meu feed organizava líderes religiosos do nosso tempo pelas fortunas que acumularam, Hebreus parece organizar a sua galeria por uma medida completamente diferente. Ali, o que distingue Abraão, Moisés, Raabe, Davi e tantos outros não é quanto possuíram, mas a fé com que atravessaram a própria história.

 

Guardadas todas as distâncias, Hebreus 11 seria uma espécie de “Forbes da fé”. Só que, nessa lista, alguns dos nomes mais destacados terminaram a vida sem quase nada daquilo que normalmente usamos para reconhecer alguém como vencedor.

 

Uns conquistaram, receberam promessas e escaparam da espada; outros conheceram prisões, perseguições, perdas e morte. E Hebreus os coloca lado a lado, porque nessa outra galeria a grandeza de uma vida não é medida pelo que alguém conseguiu acumular, mas por aquilo que permaneceu nele quando quase tudo lhe foi tirado.

 

E isso desmonta uma das nossas mais persistentes ilusões religiosas: a de que a fé possa ser medida pelo resultado.

 

Se prosperidade fosse evidência definitiva da aprovação de Deus, teríamos um problema sério com Hebreus 11. Se vitória significasse necessariamente escapar da dor, alguns daqueles homens teriam de ser retirados da galeria. E, se fé fosse uma técnica para fazer a vida dar certo, aquele capítulo seria quase um constrangimento.

 

Mas Hebreus coloca lado a lado aquele que escapou e aquele que morreu, aquele que recebeu e aquele que continuou esperando, aquele que conquistou e aquele que perdeu. E chama todos eles de gente de fé.

 

Isso me desconcerta porque nós transformamos a vitória em destino, quando o Evangelho parece tratá-la como identidade. A lógica do nosso tempo diz: saia para o mundo e torne-se um vencedor. A fé parece dizer outra coisa: vá para o mundo porque, em Cristo, você já não precisa passar a vida tentando provar que venceu.

 

Mas preciso tomar cuidado para não escrever isso como quem já aprendeu a lição e agora observa os equívocos alheios.

 

Porque também existe em mim esse homem que precisa vencer para descobrir quanto vale. Também me comparo, gosto do reconhecimento e sou seduzido pelos sinais exteriores de que a vida deu certo. Também corro o risco de transformar o outro, sem perceber, em medida para o meu sucesso ou testemunha do meu fracasso.

 

Talvez seja por isso que Hebreus 11 me incomode tanto. Aquela galeria não desmonta apenas a lógica dos homens que aparecem no meu feed; desmonta a minha. Obriga-me a perguntar por que ainda preciso provar tanto, por que ainda confundo bênção com conquista, reconhecimento com valor e sucesso com aprovação de Deus.

 

Certamente aqueles homens e mulheres de Hebreus sabiam disso.

 

Há uma frase naquele capítulo que sempre me pareceu grande demais para caber numa página: “O mundo não era digno deles.”

 

Que inversão extraordinária.

 

A Forbes provavelmente olharia para muitos deles e concluiria que fracassaram. Hebreus olha para a Forbes e diz que era o mundo que não era digno deles.

 

Aquela galeria não nos ensina exatamente como ganhar. Ensina algo muito mais difícil: como permanecer.

 

Permanecer quando Deus não explica, quando a promessa demora, quando a oração não produz o resultado esperado, quando o céu parece silencioso. Alguns morreram sem receber plenamente aquilo que esperavam e, ainda assim, continuaram.

 

Talvez fé seja isso: caminhar sem exigir que Deus nos entregue antecipadamente o último capítulo.

 

E foi nesse ponto que outra lembrança se juntou ao almoço, ao feed e a Hebreus.

 

Eu já vinha impactado por uma mensagem recente de Ed René cuja frase nuclear era uma das mais desconcertantes de Jesus. A cena é conhecida: uma mulher apanhada em adultério, exposta diante de homens religiosos prontos para julgá-la. Havia vergonha, acusação, religião, pedras e havia Jesus.

 

Em meio a tudo aquilo, uma frase atravessou os séculos: “Eu não te condeno.”

 

Provavelmente eu esteja juntando coisas que, à primeira vista, pareçam distantes. Uma mesa em Perdizes, uma lista de homens ricos, uma galeria escrita há quase dois mil anos e uma mulher caída diante de Jesus.

 

Mas, para mim, elas começaram a falar da mesma coisa: das medidas que usamos para atribuir valor às pessoas.

 

Enquanto aqueles homens mediam aquela mulher pelo seu pecado, Jesus enxergava uma pessoa. Enquanto discutiam o que ela merecia, Ele lhe devolvia a possibilidade de continuar. Enquanto seguravam pedras, Cristo lhe oferecia futuro.

 

E é possível que haja mais Evangelho nessa frase do que em muitos dos nossos discursos sobre vitória.

 

A graça não pergunta primeiro quanto alguém possui, qual posição ocupa ou quantas pessoas o seguem. Também não reduz uma pessoa ao seu pior fracasso. A graça encontra alguém no chão e lhe devolve a possibilidade de levantar.

 

Percebi então que talvez a pergunta trazida daquele almoço estivesse encontrando seu caminho.

 

Qual é a medida de uma vida diante de Deus?

 

Não sei se encontrei a resposta. Talvez tenha encontrado apenas razões para desconfiar de algumas das respostas que já dei.

 

Nós fazemos listas; Deus encontra pessoas. Nós perguntamos quem chegou mais alto; Cristo se inclina diante de quem está no chão. Nós procuramos vencedores; Ele parece muito menos impressionado com nossas classificações.

 

E talvez tenha sido isso que trouxe comigo daquele restaurante.

 

Como já disse, não uma resposta.

 

Uma inquietação.

 

Naquela tarde em Perdizes, pensei que havia recebido apenas o privilégio de um almoço. Dias depois, diante desta escrivaninha, percebo que recebi algo que dura mais: uma conversa que não terminou quando nos levantamos da mesa.

 

Ela passou pelo meu feed, encontrou Hebreus e me levou de volta àquela mulher diante de Jesus. No caminho, fez com que eu desconfiasse um pouco mais das medidas, das medidas do sucesso, da bênção, da vitória e, principalmente, daquelas com que tantas vezes avalio os outros e a mim mesmo.

 

Meu feed continuará me apresentando seus vencedores. A Forbes continuará fazendo suas listas. E não há problema algum nisso. O mundo precisa de suas métricas para muitas coisas.

 

Talvez eu apenas precise tomar cuidado para não levá-las comigo quando entrar no território da graça.

 

Porque Hebreus me apresentou outra galeria.

 

Nela, alguns venceram batalhas e outros perderam a própria vida; uns viram promessas se cumprirem, outros morreram ainda esperando. E, sobre homens que talvez jamais fossem considerados bem-sucedidos pelos nossos critérios, ficou escrita uma frase que nenhuma fortuna conseguiria comprar: “O mundo não era digno deles.”

 

Não sei se um dia meu nome caberia em alguma lista dos homens que venceram. E, pensando bem, talvez eu precise aprender a desejar cada vez menos que caiba.

 

Quero apenas que, ao final do caminho, minha vida tenha valido por algo que nenhuma lista consiga medir.

 

Porque talvez a grande vitória de um homem não seja chegar ao ponto em que todos possam dizer que ele venceu. Talvez seja chegar ao fim sem precisar provar isso a ninguém. E descobrir, finalmente, que diante de Deus nunca se tratou de quanto conseguimos conquistar enquanto caminhávamos. Mas de quem nos tornamos pelo caminho.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 20/09/2026
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