WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Proposta que os Bonecos do Poeta João Testemunharam

 

Depois da saudade vencida,
do perdão que se fizera ponte,
eram Ele e Ela, outra vez,
diante do mesmo horizonte.

 

A boneca peludinha, sobre o travesseiro,
e o boneco, à cabeceira,
já eram apenas testemunhas
de uma história que voltava a ser inteira.

 

Porque os protagonistas eram eles:
Ela, com seu perfume de espera;
Ele, com aquele olhar demorado
de quem deseja mais do que revela.

 

Havia entre os dois uma chama
que aprendera a arder sem clarão;
um incêndio educado pelo silêncio,
desses que começam no olhar
e, lentamente,
incendeiam o coração.

 

Ele chegou mais perto.

 

Ela não recuou.

 

E naquele pequeno intervalo
entre a distância e o abraço,
o perfume dela pareceu dizer
aquilo que seus lábios
ainda guardavam.

 

Então veio o beijo,
primeiro com a delicadeza do perdão,
depois mais longo, mais quente,
como se quinze dias de ausência
quisessem caber
num único instante de paixão.

 

As mãos reaprenderam caminhos,
sem pressa de chegar;
e Ela, aconchegada ao peito dele,
deixou que o silêncio dissesse
o que seria indiscreto
pronunciar.

 

A boneca peludinha e o boneco,
cúmplices involuntários da reconciliação,
perdiam importância diante
da proximidade dos dois:
agora já não era a pelúcia
que aquecia a solidão.

 

E aquela cena talvez fosse dessas
capazes de inspirar um poeta,
um poeta que, diante de tanta ternura,
finge sentir aquilo que deveras sente,
transformando em versos
o que os olhos surpreendem
e o coração não consegue esconder.

 

Mas naquela hora,
mais que poesia,
cabia música.

 

Mas naquela hora,
mais que poesia,
cabia música.

 

Uma canção suave,
quase no compasso de suas respirações,
que fizesse calar o mundo lá fora
e acompanhasse, sem pressa,
aquilo que os dois
já começavam a dizer
apenas com os corpos e os olhares.

 

E foi então que o cantante,
alheio à história e, ainda assim,
estranhamente próximo daquele instante,
pareceu encontrar na canção
as palavras que Ele e Ela
já diziam em silêncio.

 

E entregou-lhes sua “Proposta”:

 

“Eu te proponho
Te dar meu corpo
Depois do amor, o meu conforto
E além de tudo
Depois de tudo
Te dar a minha paz...”

 

Eles compreenderam.

 

Não responderam com palavras.

 

Apenas fecharam os olhos
quando Ele tocou-a no rosto
e aproximou os lábios
com aquela lentidão perigosa
que torna qualquer resposta
desnecessária.

 

O beijo demorou-se.

 

As mãos ficaram mais íntimas,
os corpos, menos distantes,
e a noite pareceu compreender
que certas vontades
preferem nascer lentamente,
entre um perfume, um arrepio
e um abraço que não termina.

 

A lua, pudica, escondeu-se
atrás da cortina.

 

O quarto guardou para si
os suspiros,
a proximidade,
o calor crescente
e aquelas promessas que somente
dois amantes reconciliados
sabem fazer sem falar.

 

Talvez fosse justamente isso
que a canção lhes oferecia:

uma proposta de amor e entrega,
de cumplicidade e desejo,
de deixar as horas correrem
sem perguntar pela manhã;
de esquecer o ruído do mundo
e fazer daquela noite
um território somente deles.

 

Ele a envolveu
num abraço ainda mais demorado.

 

Ela permaneceu.

E naquele permanecer
havia mais desejo
que em qualquer palavra.


Porque certas reconciliações
não terminam no perdão:
começam nele.

 

A boneca peludinha permaneceu de um lado.
O boneco, do outro.

 

Pequenos guardiões de uma saudade
que já não precisava ser acariciada.

 

Pois entre Ele e Ela,
enfim,
não havia distância,
nem orgulho,
nem explicação.

 

Havia a poesia que alguém poderia escrever.
Havia a música que alguém poderia cantar.

 

E havia, sobretudo,
aquela silenciosa Proposta:

“Não dizer nada

Seguirmos juntos a mesma estrada

Que continua

Depois do amor

No amanhecer.”

 

Meu caro João,

Receba estes versos como uma homenagem carinhosa e com o pedido de licença poética para esta minha pequena ousadia. Inspirado em “A Boneca Peludinha & A Reconciliação”, permiti-me transitar, por instantes, pelo seu universo e imaginar o que poderia vir depois do reencontro, do perdão e da saudade vencida.

Sem tocar no desfecho que é seu, apenas ousei imaginar a página seguinte: quando a boneca peludinha e boneco já haviam cumprido seu delicado papel, deixando Ele e Ela entregues à ternura daquele momento, ao som da “Proposta” do Rei.

É, pois, uma continuação inteiramente imaginária, nascida da inspiração que seus versos provocaram, e escrita com a liberdade poética e o carinho de um amigo.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 22/09/2026
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