WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
“Eu não me perdi, mas experimentei a perdição”
Na semana passada, no último dia 15, nós, brasileiros atentos à vida política e institucional do país, assistimos a uma sessão do Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte da Justiça brasileira, que talvez permaneça na memória como um daqueles momentos em que as instituições, em vez de oferecerem serenidade, deixam à mostra suas próprias fissuras.
Mas essa crônica não é sobre o Supremo Tribunal.
Não pretendo julgar ministros, antecipar culpas ou converter suspeitas em sentenças. Para isso existem os processos, as provas, o contraditório e o tempo; esse juiz silencioso que costuma ser menos apressado do que nós.
Como disse, não é exatamente sobre isso que quero escrever.
Em meio aos espantos e às perplexidades daquela sessão, procurei fazer aquilo que, de algum modo, tenho tentado fazer diante destes tempos tão ruidosos: buscar, mesmo no caos, alguma palavra que ainda possa ser ressignificada. Alguma coisa que sobreviva ao acontecimento e nos permita ir além dele; que não sirva apenas à indignação imediata, mas nos obrigue a pensar.
Porque até os momentos mais desconcertantes, às vezes, deixam escapar uma palavra capaz de nos conduzir para além deles.
E, naquele dia, encontrei uma.
Aliás, encontrei uma frase.
Ou talvez tenha sido ela que me encontrou.
Em determinado momento de sua fala, quando as palavras pareciam carregar um peso maior do que de costume, a ministra Cármen Lúcia deixou por alguns instantes a linguagem dos códigos, dos processos e das instituições e foi buscar na literatura aquilo que talvez o Direito, sozinho, já não conseguisse dizer.
Recorreu a Clarice Lispector: “Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.”
A frase ficou ecoando em mim.
Primeiro pela beleza. Depois, pelo incômodo. Por fim, pelas perguntas.
Por que aquela frase?
O que a ministra pretendia dizer? A quem queria alcançar?
Havia em sua fala algo que me pareceu um mea culpa, ainda que institucional. Mas a frase parecia dizer mais. Ou talvez fosse eu que precisasse ouvir mais do que ela havia dito.
Fui, então ao encontro de Clarice.
E cheguei a Mineirinho.
Foi quando a frase mudou completamente de tamanho.
“Mineirinho”, publicado por Clarice Lispector em 1962, nasce de um fato real: a morte de José Miranda Rosa, conhecido como Mineirinho, criminoso procurado pela polícia no Rio de Janeiro. Ele foi morto pela polícia com treze tiros.
Treze.
O texto começa com uma espécie de desconforto moral. Clarice admite que Mineirinho era perigoso e que ela própria desejava segurança. Portanto, ela não escreve a partir de uma ingenuidade segundo a qual não deveria haver repressão ao crime. O problema que a atravessa é outro: em que momento a Justiça deixa de ser Justiça e passa a reproduzir a violência que pretende combater?
Pergunta o que existe de nós naquele homem que aprendemos a chamar apenas de criminoso.
E pergunta que espécie de justiça é essa que consegue dormir tranquilamente depois do primeiro tiro, do segundo, do terceiro, e continua atirando até o décimo terceiro.
Clarice percebe que há uma comodidade moral em imaginar que o homem perdido pertence a outra humanidade. Como se existissem, de um lado, os justos; de outro, os perdidos. De um lado, nós; do outro, eles.
Mas ela atravessa essa fronteira.
Ela olha para Mineirinho e reconhece nele alguma coisa que também reconhece em si.
Não o crime.
A humanidade.
Reconhece no outro uma humanidade que não lhe é estrangeira. Sabe que somos feitos da mesma matéria frágil: aquela que, ferida, pode tornar-se punhal, mas que, acolhida, talvez ainda possa tornar-se abrigo. E é então que Clarice fala da água: daquilo que nela se faz água para dar de beber ao outro. Não porque desconheça a sede, mas justamente porque também sabe o que é ter sede.
Sua compaixão não nasce da distância.
Nasce do reconhecimento.
E então diz:
“Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.”
Talvez esteja aí uma das coisas mais difíceis que alguém pode admitir sobre si mesmo.
Porque uma coisa é dizer: eu jamais faria isso.
Outra, muito mais perturbadora, é reconhecer: eu sei que também sou feito da mesma matéria humana da qual isso pode nascer.
Eu não atravessei aquela porta. Mas sei que ela está aí.
Não habitei aquele abismo. Mas já contemplei sua profundidade.
Não me perdi. Mas conheço alguma coisa da perdição.
Foi então que voltei àquela sessão do Supremo.
Voltei à ministra. Voltei à frase.
E me ocorreram duas possibilidades.
Na primeira, talvez Cármen Lúcia estivesse falando apenas por si.
Talvez aquele “eu não me perdi” fosse uma maneira de preservar, em meio ao desconcerto, a própria consciência. Como se dissesse: divido com esses homens a toga, a mesa, os ritos, os corredores e as responsabilidades. Sou feita da mesma matéria humana de que são feitos os meus pares.
Mas não fiz aquilo que está sendo questionado.
Não atravessei essa fronteira.
Seria uma forma de estabelecer distância sem proclamar superioridade. De separar a própria conduta sem imaginar-se feita de outra substância.
Algo profundamente próximo do gesto de Clarice diante de Mineirinho: não tomar para si a culpa do outro, mas recusar a confortável ilusão de que o outro pertence a uma humanidade inteiramente diferente da sua.
Mas também me ocorreu uma segunda possibilidade.
E se aquele “eu” carregasse, silenciosamente, um “nós”?
Não como quem dissesse: estamos perdidos.
Talvez justamente o contrário.
Talvez dissesse: aqui conhecemos a perdição todos os dias, mas jamais deveríamos nos perder.
Porque por aquela Casa passam, há décadas, algumas das sombras mais densas da República. Ali chegam os subterrâneos do poder, os encontros entre dinheiro e influência, as deformações da política, os grandes escândalos, as ambições sem medida e as muitas maneiras pelas quais o homem, quando pode demais, corre o risco de esquecer quem é.
A Suprema Corte conhece a perdição porque a perdição da República, cedo ou tarde, bate à sua porta.
Mas talvez, naquela tarde, houvesse algo diferente.
A perdição já não parecia estar somente nos processos que chegavam à Corte. De algum modo, a própria Corte havia sido arrastada para dentro daquilo que precisava examinar.
E Cármen Lúcia estava ali.
Talvez pudesse dizer, no silêncio de sua consciência: eu não fiz isso.
Mas já não poderia dizer: isso não me alcança.
Porque uma Corte não é apenas a soma de onze biografias.
É também um corpo.
E quando um corpo é ferido, não se pergunta a cada membro se deseja participar da dor.
Talvez por isso o pedido de desculpas.
Não necessariamente como confissão de uma culpa pessoal, mas como reconhecimento de uma responsabilidade de pertencimento.
Como se dissesse: não me perdi, mas pertenço a um corpo que experimenta agora a perdição. E, pertencendo a ele, alguma coisa dessa sombra também me alcança.
Talvez tenha sido isso.
Talvez não.
Talvez Cármen Lúcia estivesse falando apenas de si. Talvez estivesse, sem dizê-lo, falando também da instituição à qual pertence.
Já não me parece tão importante decidir entre uma leitura e outra.
Porque, de uma forma ou de outra, Clarice acabou me conduzindo ao mesmo lugar.
Em Mineirinho, ela não tomou para si os crimes daquele homem. Não chamou de seu o punhal que estava nas mãos dele. Não confundiu sua vida com a dele.
Fez algo muito mais difícil: recusou-se a dizer que nada daquilo lhe dizia respeito.
E talvez seja essa uma das formas mais profundas de consciência.
Reconhecer que ninguém está tão acima do abismo que possa deixar de vigiá-lo dentro de si.
Nenhuma toga torna um homem imune àquilo que julga nos outros. Nenhum cargo suspende a condição humana. E nenhuma instituição permanece digna simplesmente porque foi criada para guardar a Justiça.
Instituições, assim como pessoas, permanecem dignas quando, ao reconhecerem a escuridão, recusam-se a fazer dela o seu caminho.
Mas talvez essa advertência não pertença apenas aos togados.
Pertence a mim.
E talvez pertença também a quem me lê.
Porque todos nós, em alguma medida, julgamos.
Todos carregamos pequenos tribunais dentro de nós.
Somos hábeis em encontrar atenuantes para nossas próprias fraquezas e agravantes para as fraquezas alheias. Absolvemos em nós aquilo que, tantas vezes, condenamos sem piedade nos outros.
Também distribuímos sentenças.
Ainda que sem toga, sem autos e sem tribunal.
Foi isso que meu encontro inesperado com Clarice me fez desejar.
Não apenas uma Justiça feita de homens e mulheres que não se imaginem infalíveis, mas uma vida em que nenhum de nós se considere definitivamente a salvo de si mesmo.
Que aqueles que detêm poder saibam que o poder exige deles uma vigilância ainda maior.
E que nós, que os observamos e julgamos, não nos concedamos a confortável inocência de imaginar que a perdição seja sempre um lugar habitado pelos outros.
Talvez amadurecer seja justamente descobrir que o contrário da perdição não é a pureza.
É a consciência.
A consciência de reconhecer o abismo sem precisar habitá-lo.
De perceber a sombra sem fazer dela morada.
Que bom que, naquela sessão, Cármen Lúcia tenha encontrado Clarice.
Porque, por causa dela, eu também a encontrei.
Fui até Mineirinho querendo compreender o que uma ministra quis dizer.
Voltei de lá perguntando o que aquela frase queria dizer a mim.
Talvez seja esse o estranho destino de algumas palavras: nós as procuramos para compreender os outros e, quando finalmente as encontramos, descobrimos que eram elas que nos interrogavam.
No fim, talvez todos caminhemos, alguma vez, pelas margens da perdição.
A diferença não está em jamais ter visto o abismo.
Está em reconhecê-lo sem confundi-lo com caminho.
E em conservar dentro de nós alguma coisa, consciência, princípio, fé, amor, Justiça ou simplesmente humanidade que, quando a noite tornar incertas as referências, ainda seja capaz de nos dizer onde estamos.
E nos ensinar o caminho de volta.