WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A CADEIRA

 

Aos sábados, costumo visitar a minha escrivaninha.

 

Não sei exatamente por que digo “visitar”. Afinal, ela está sempre ali. Talvez porque certas escrivaninhas não sejam propriamente móveis, mas lugares aos quais regressamos para conversar com aquilo que, durante a semana, o ruído dos homens não nos permitiu escutar.

 

Hoje sentei-me diante dela apreensivo. O país está às vésperas de uma eleição. Amanhã, milhões de brasileiros irão às urnas e, por alguns instantes, cada cidadão carregará consigo uma parcela minúscula e extraordinária do destino coletivo.

 

Foi quando me ocorreu Eclesiastes:

 

“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”

 

A frase atravessou séculos para chegar intacta à minha mesa.

 

Pouco depois, encontrei Machado de Assis: “A vaidade é um princípio de corrupção.” E, quase como se os três tivessem combinado um encontro impossível sobre a madeira da minha escrivaninha, deparei-me com outra frase, atribuída a Mark Twain: “Não há graus de vaidade, apenas graus de habilidade em disfarçá-la.”

 

Fechei as páginas e fiquei pensando se não será justamente a vaidade uma das tentações mais antigas do poder.

 

Não me refiro àquela vaidade vulgar dos espelhos, dos aplausos, das fotografias ou das homenagens. Essa, de tão visível, chega a ser quase inocente. Refiro-me a outra, muito mais sofisticada e perigosa: a vaidade daquele que começa acreditando que ocupa um cargo e, depois de algum tempo, passa a comportar-se como se o cargo de algum modo lhe pertencesse; daquele que deixa de perceber a delicada diferença entre servir ao poder e ser servido por ele.

 

O poder possui essa propriedade curiosa: começa oferecendo uma cadeira e, depois de algum tempo, tenta convencer quem nela se senta de que ninguém mais saberia ocupá-la.

 

Foi essa cadeira imaginária que me trouxe à memória um episódio de alguns anos atrás, quando eu ainda vivia intensamente o cotidiano de uma das empresas. Era eu sócio majoritário e, em determinado momento, fatos graves envolvendo uma de nossas gestoras chegaram ao meu conhecimento. Apurei-os, conferi o que precisava ser conferido e concluí que sua permanência se tornara incompatível com a responsabilidade que exercia.

 

A decisão estava tomada: ela seria demitida.

 

Naquele dia, entretanto, resolvi fazer diferente.

 

Mandei chamá-la à minha sala e, quando entrou, encontrou uma cena incomum. Eu não estava atrás da mesa. Estava sentado diante dela, na cadeira normalmente destinada aos visitantes, enquanto a minha permanecia vazia.

 

Pedi que se sentasse nela.

 

Ela hesitou. Insisti.

 

Quando finalmente ocupou meu lugar, relatei os fatos que a haviam levado até ali. Não havia necessidade de dramatização ou discursos morais. Eu os conhecia, ela também. Quando terminei, fiz somente uma pergunta:

 

- Agora você está sentada no meu lugar. Por alguns minutos, esta empresa é sua e a decisão também. Diante de tudo o que nós dois sabemos, o que você faria com você mesma?

 

Ela baixou os olhos. Houve um silêncio daqueles que dispensam qualquer argumento adicional e, constrangida, pesarosa, respondeu que, se estivesse verdadeiramente no meu lugar, o caminho seria a demissão.

 

Nunca esqueci aquela cena.

 

Hoje, tantos anos depois, diante da eleição de amanhã, minha imaginação retornou à mesma sala. Mas desta vez imaginei entrando pela porta o atual presidente da República.

 

Pediria que se sentasse exatamente onde se sentou aquela gestora e, novamente, ocuparia a cadeira da frente.

 

Não o teria chamado para fazer um inventário completo de seu governo. Aquela não seria uma cerimônia de reconhecimentos, assim como não fora com minha gestora. Seria uma conversa sobre responsabilidade, e por isso colocaria sobre a mesa apenas os fatos que, a meu juízo, justificariam aquela reunião.

 

Começaria pelas contas públicas: o déficit primário acumulado, a dívida bruta próxima de R$ 11 trilhões e equivalente a mais de 80% do PIB, a conta anual de juros já medida na casa do trilhão e o déficit nominal também superior a R$ 1 trilhão. Acrescentaria os resultados negativos de estatais, o endividamento recorde das famílias e os indicadores preocupantes de percepção da corrupção. Porque governar significa também responder pelo estado em que se encontra aquilo que se pediu autorização para administrar.

 

Não faria um discurso inflamado. Não falaria em esquerda ou direita. Não precisaria transformar adversário em inimigo nem divergência em ofensa.

 

Deixaria simplesmente os números sobre a mesa.

 

Foi assim com aquela gestora. Eu não a convoquei para discutir tudo o que havia feito de bom durante os anos em que trabalhara conosco, porque aquela não era a finalidade da reunião. Não estávamos escrevendo sua biografia; examinávamos fatos determinados, responsabilidades inerentes ao cargo e as razões pelas quais eu entendia que ela já não deveria permanecer nele.

 

E então chegaria o momento em que, anos atrás, fiz a pergunta decisiva.

 

Bastaria repeti-la:

 

- Presidente, sentado agora no meu lugar, diante desses resultados, o que o senhor faria consigo mesmo?

 

Mas eu não perguntaria.

 

Não perguntaria porque, entre a pergunta e a resposta, poderia sentar-se conosco um terceiro personagem, invisível e poderosíssimo: a vaidade.

 

Foi então que me ocorreu Ernesto Sábato, escritor argentino e um dos grandes nomes da literatura latino-americana do século XX: “A vaidade é um elemento tão sutil da alma humana que a encontramos onde menos se espera: ao lado da bondade, da abnegação, da generosidade!”

 

Há nessa observação uma profundidade extraordinária. Sábato não colocou a vaidade ao lado da perversidade, onde seria fácil encontrá-la. Foi procurá-la justamente entre as virtudes, como se quisesse nos advertir de que o homem pode começar praticando o bem e, sem perceber o momento exato da transformação, terminar apaixonado pela imagem de si mesmo praticando o bem.

 

Essa talvez seja uma das armadilhas mais sofisticadas do poder.

 

Existe a vaidade grosseira daquele que deseja homenagens, aplausos e reverências; mas existe outra, infinitamente mais sutil, que nasce quando alguém passa a acreditar que sua própria permanência é necessária para que o bem continue existindo. Já não pensa apenas que realizou algo importante: começa a imaginar que aquilo que realizou não sobreviverá sem ele.

 

A causa e o homem começam então a confundir-se.

 

É nesse ponto que Machado retorna à minha escrivaninha: “A vaidade é um princípio de corrupção.”

 

Não necessariamente corrupção no sentido penal, aquela que se mede em processos, propinas ou contratos. Falo de uma corrupção anterior e mais silenciosa: a corrupção da percepção que o homem passa a ter de si próprio. O poder prolongado pode fazer alguém esquecer que ocupa uma cadeira e levá-lo, pouco a pouco, a acreditar que a cadeira é uma extensão de sua biografia.

 

E aqui encontro uma das perguntas que mais me inquietam quando observo lideranças políticas longevas: que legado deixa um grande líder quando, depois de décadas, ainda não conseguiu tornar-se dispensável?

 

Essa pergunta não deveria ofender ninguém. Ao contrário, deveria ser feita a todos os que permanecem longamente no poder.

 

Durante minha vida empresarial aprendi que uma organização excessivamente dependente de seu fundador possui uma fragilidade escondida sob a aparência de força. Se, depois de décadas, ninguém foi preparado para assumir seu lugar, é legítimo perguntar se foi construída uma instituição ou apenas uma dependência.

 

Na política isso deveria ser ainda mais evidente. Formar sucessores não diminui um líder; engrandece-o. Saber sair não apaga uma história; completa-a. Permitir que outro continue aquilo que construímos não significa renunciar ao próprio legado, mas demonstrar que o legado era maior do que seu autor.

 

Os reis precisavam acreditar na perpetuidade porque o poder lhes pertencia por sangue. A República nasceu de princípio oposto: nela, o poder não pertence a ninguém. É emprestado por prazo determinado e submetido periodicamente ao julgamento daqueles que são seus verdadeiros proprietários.

 

Nós.

 

Por isso, na minha sala imaginária, já não precisaria ouvir a resposta do presidente.

 

Minha antiga gestora conseguiu olhar para os próprios atos, sentada na minha cadeira, e concluir que, no meu lugar, promoveria sua demissão. Diante do poder político, não esperaria semelhante desprendimento, porque pedir a um homem que julgue a necessidade de sua própria permanência é colocá-lo diante de uma das provas mais difíceis da natureza humana.

 

Amanhã, portanto, não lhe farei essa pergunta.

 

Amanhã a cadeira será minha.

 

Por alguns minutos, diante da urna, não estarei sentado na cadeira do presidente, mas em algo muito mais importante: ocuparei o lugar constitucional do cidadão que decide quem poderá sentar-se nela.

 

E ali farei meu julgamento.

 

Não por ódio. Não por paixão partidária. Não por considerar quem pensa diferente de mim menos brasileiro. Não pela necessidade infantil de dividir o país entre santos e demônios. Minha escolha pertence à minha consciência e à avaliação que faço dos resultados, das decisões e da responsabilidade de quem pediu ao país a oportunidade de governá-lo.

 

Durante minha vida empresarial aprendi uma regra simples: quem pede autoridade recebe, junto com ela, responsabilidade. Não se pode reivindicar a primeira e, quando chegam os resultados, terceirizar a segunda.

 

Há, naturalmente, uma diferença extraordinária entre aquela empresa que um dia administrei e esta imensa organização chamada Brasil. Na primeira, eu era sócio majoritário. Nesta, sou apenas um entre mais de duzentos milhões de brasileiros.

 

Minha participação é microscópica.

 

Amanhã, porém, ela terá exatamente o mesmo peso da participação de qualquer outro cidadão.

 

Talvez resida aí uma das mais belas realizações da democracia: durante alguns segundos, diante da urna, desaparecem cargos, fortunas, sobrenomes, títulos e posições sociais. O voto do presidente vale um. O meu vale um. O de qualquer brasileiro vale um.

 

E eu exercerei o meu segundo a minha consciência.

 

Se o atual presidente não for reconduzido, resultado que, pessoalmente, desejo, isso não significará que concederei um cheque em branco a quem vier depois. Seria incoerente escrever tudo isso e simplesmente trocar o objeto da devoção.

 

Quando chegar a vez do próximo presidente, também o chamarei, ao menos em minha imaginação, àquela sala. Pedirei que se sente na mesma cadeira e colocarei diante dele suas promessas e seus resultados, aquilo que recebeu e aquilo que entregou. Farei as mesmas perguntas, porque minha fidelidade não pode pertencer ao homem sentado na cadeira.

 

Precisa pertencer à cadeira.

 

É isso que significa, para mim, alternância democrática. Não a obrigação mecânica de substituir governos a cada eleição, mas a certeza civilizatória de que todo governante pode ser substituído. Nenhuma pessoa é condição de existência da República, nenhum partido possui escritura sobre o Estado e nenhuma biografia, por extraordinária que seja, concede direito de permanência.

 

Talvez por isso Eclesiastes tenha chegado primeiro à minha escrivaninha nesta manhã de sábado.

 

“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.”

 

Depois veio Machado advertir que a vaidade pode ser princípio de corrupção. Twain lembrou que talvez sejamos apenas mais ou menos hábeis em escondê-la. E Sábato foi ainda mais fundo, mostrando que ela pode morar precisamente ao lado das virtudes das quais mais nos orgulhamos.

 

Quatro vozes distantes entre si acabaram me trazendo à mesma cadeira.

 

Amanhã votarei.

 

Depois voltarei para casa, entrarei novamente nesta sala e encontrarei minha escrivaninha, meus livros e minha cadeira. Provavelmente ela estará vazia.

 

E hoje penso que há uma extraordinária sabedoria nas cadeiras vazias. Elas preservam a memória de quem esteve ali sem exigir sua permanência. Não precisam destruir a história do antigo ocupante para receber o próximo; simplesmente permanecem disponíveis.

 

Talvez uma República madura devesse possuir essa mesma serenidade: reconhecer o que foi realizado, cobrar aquilo que fracassou e, quando o cidadão entender chegada a hora, permitir que outro se sente.

 

Porque governos passam, presidentes passam, líderes passam e até aqueles que durante algum tempo parecem maiores do que seu próprio tempo passam.

 

A cadeira fica.

 

E a alternância é um dos grandes pilares da democracia justamente porque, de tempos em tempos, devolve ao poder a mais necessária de todas as lições: ninguém é maior do que a cadeira que, por algum tempo, teve a honra de ocupar.

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 03/10/2026
Alterado em 03/10/2026
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