WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
Somos quem podemos ser?
Uma Constituição, uma cena familiar e uma canção, aparentemente tão distantes entre si, encontraram-se nesta manhã de 11 de outubro de 2026 para me desafiar com uma pergunta: o que haveria de comum entre o distante 1988 e o tempo presente?
A inquietação me acompanhou desde o despertar. Não surgiu como uma lembrança qualquer, mas como essas perguntas que o tempo parece guardar em silêncio, à espera do instante em que estejamos prontos para escutá-las. Há acontecimentos que se encerram no calendário, mas permanecem vivos em algum lugar de nós, até que uma circunstância aparentemente banal lhes devolva o sentido.
Desconfio que tudo tenha começado na noite anterior, em uma dessas cenas cuja grandeza somente reconhecemos depois que se tornam lembrança.
Ontem, ao me recolher, deixei meu filho primogênito e meus netos na sala de casa. Apenas três gerações sob o mesmo teto, na aparente simplicidade de uma cena em que o tempo, esse visitante invisível, parecia suspender sua marcha, permitindo que passado, presente e futuro, por um instante, se reconhecessem na mesma existência.
Meu filho nasceu em abril de 1988. Naquele mesmo período, o Brasil gestava uma nova Constituição, que seria promulgada em outubro daquele ano. Enquanto o país procurava estabelecer os fundamentos de uma nova etapa de sua história, eu experimentava, pela primeira vez, a emoção e a responsabilidade de ser pai.
Confesso que, àquela altura, pouco compreendia sobre o alcance das discussões que ocupavam o Congresso Nacional. Não alcançava inteiramente a dimensão do que o Brasil pretendia deixar para trás, nem das promessas que começavam a se desenhar para o futuro. Meu universo estava concentrado naquele menino que acabara de chegar, trazendo consigo a delicada e imensa responsabilidade de uma vida que, a partir de então, dependeria também da minha.
Hoje percebo que, enquanto o país procurava se constituir como uma nova democracia, algo semelhante acontecia silenciosamente dentro de mim. Eu também precisava me constituir. Não em artigos, incisos ou parágrafos, mas em escolhas, renúncias, responsabilidades e afetos. A paternidade começava a escrever em mim uma espécie de lei fundamental, dessas que não se promulgam em solenidades, mas se aprendem, dia após dia, no exercício imperfeito de amar e cuidar.
Naquele abril, meu filho chegou ao mundo. Em outubro, chegaria a Constituição.
E, embora tão distintos em natureza e significado, ambos os acontecimentos carregavam a esperança de que o futuro pudesse ser melhor do que o passado.
O tempo, entretanto, não preserva intactas nem as grandes promessas de uma nação, nem as pequenas certezas de um homem.
De lá para cá, a Constituição recebeu inúmeras emendas. Algumas buscaram aperfeiçoar seus fundamentos; outras nasceram das circunstâncias e exigências de um país em permanente transformação. Minha vida também recebeu as suas. Umas chegaram discretamente, quase sem serem percebidas. Outras foram bruscas, impositivas, dessas que não pedem licença antes de alterar profundamente aquilo que julgávamos definitivo.
Houve caminhos que escolhi e outros que precisei percorrer sem ter escolhido. Ganhei horizontes, perdi certezas, revi convicções. Algumas mudanças me trouxeram a serenidade que antes desconhecia; outras deixaram marcas que o tempo não apagou, apenas me ensinou a compreender de outra maneira.
Afinal, amadurecer talvez seja descobrir que a vida não permanece fiel à sua redação original. E que nem sempre temos o poder de escolher as emendas, embora nos caiba decidir, tanto quanto possível, o que faremos com elas.
Foi nesse encontro entre memória e consciência que me veio à lembrança uma canção daquele mesmo 1988: Somos Quem Podemos Ser, de Humberto Gessinger, interpretada pelos Engenheiros do Hawaii.
Era como se a música tivesse atravessado trinta e oito anos para encontrar, nesta manhã, um ouvinte diferente.
Na juventude, talvez eu a escutasse como um convite para conquistar o mundo. Hoje, percebo nela uma reflexão mais delicada sobre a condição humana: somos feitos não apenas dos sonhos que cultivamos, mas também das circunstâncias que nos cercam, das oportunidades que encontramos e das limitações que, por vezes, nos impedem de alcançar aquilo que desejávamos.
Somos, em parte, o resultado de nossas escolhas. Mas carregamos também as marcas daquilo que não nos foi permitido escolher.
Reconhecer isso não significa render-se ao destino. Significa compreender que nenhuma existência pode ser julgada apenas por suas conquistas, como se todos partissem do mesmo lugar e encontrassem abertas as mesmas portas.
Há sonhos que se perderam por falta de coragem. Outros, porque a vida exigiu sacrifícios que ninguém poderia prever. Há renúncias que revelam fraquezas, mas há também aquelas que representam as formas mais silenciosas de amor.
Com os anos, aprendi a desconfiar das certezas que pretendem explicar, com excessiva facilidade, a vida alheia. Cada pessoa carrega uma história que não cabe inteiramente naquilo que conseguimos enxergar.
E talvez seja essa uma das lições que ainda nos falte aprender como sociedade.
Em 1988, acreditávamos que uma nova Constituição pudesse abrir os caminhos de um país mais livre, justo e solidário. Muitos avanços aconteceram, mas antigas desigualdades, intolerâncias e injustiças continuam a nos lembrar que nenhuma promessa se realiza apenas porque foi solenemente escrita.
A democracia, como a própria convivência humana, exige mais do que regras. Precisa de consciência, respeito e disposição para reconhecer no outro a dignidade que reivindicamos para nós mesmos.
Talvez tenhamos aprendido a defender nossas convicções com mais vigor do que a compreender nossas diferenças. E, em meio a tantas vozes que disputam a razão, corremos o risco de esquecer que ouvir também é uma forma de reconhecer a humanidade de alguém.
A canção de Gessinger traz ainda uma inquietação que o tempo não tornou menos necessária: a responsabilidade pelo mundo que construímos não pertence exclusivamente àqueles que exercem o poder. Sem confundir as responsabilidades de quem governa com as de quem apenas procura sobreviver, há algo de nossas escolhas, omissões e indiferenças na sociedade que ajudamos a formar.
Não somos culpados por tudo. Mas tampouco estamos inteiramente ausentes daquilo que acontece ao nosso redor.
Talvez a maturidade comece quando deixamos de procurar apenas as razões pelas quais o mundo não correspondeu às nossas expectativas e passamos a perguntar o que ainda podemos fazer para torná-lo um pouco mais humano.
E então retorno à sala de minha casa.
Aquele menino de abril de 1988, que inaugurou em mim uma existência até então desconhecida, estava agora acompanhado dos próprios filhos. Cresceu, construiu sua história e começou também a experimentar as emendas que a vida, inevitavelmente, reserva a cada geração.
Meus netos, por sua vez, ainda percorrem as primeiras páginas de uma história que ninguém conhece por inteiro.
Há algo profundamente comovente nessa continuidade. O tempo que nos envelhece é o mesmo que permite à vida recomeçar em outros rostos. E aquilo que um dia chamamos de futuro acaba, silenciosamente, sentado à nossa frente, na sala de casa.
Em 1988, eu desejava um mundo melhor para meu filho. Em 2026, continuo desejando esse mundo para meus netos.
A esperança é semelhante. O homem que a carrega, não.
Já não espero que as grandes transformações aconteçam apenas por meio de acontecimentos históricos ou de promessas solenes. Aprendi que algumas das mudanças mais importantes se realizam longe dos discursos, na maneira como educamos, acolhemos, perdoamos e respeitamos. Na coragem de reconhecer um erro. Na delicadeza de não transformar nossas dores em dureza contra os outros.
A esperança também amadurece. Perde um pouco da pressa, abandona algumas ilusões, mas não precisa renunciar à sua essência. Torna-se menos exigente com o impossível e mais comprometida com aquilo que ainda está ao nosso alcance.
Afinal, tanto uma Constituição quanto uma existência atravessam o tempo entre seus princípios originais e a necessidade permanente de revisão. Algumas emendas corrigem rumos; outras revelam equívocos que exigirão novas mudanças. Nem tudo o que permanece merece ser preservado, assim como nem tudo o que muda representa necessariamente um avanço.
O desafio está em distinguir aquilo que precisa ser transformado daquilo que não deveríamos permitir que se perdesse.
Na Constituição, a dignidade humana ocupa lugar fundamental. Na vida, penso que deveria acontecer o mesmo.
E é justamente aqui que aquela canção de 1988 me convida a uma última reflexão
.
Trinta e oito anos depois, permito-me lançar um desafio ao seu título: acrescentar-lhe um simples sinal de interrogação.
Somos quem podemos ser?
As palavras permanecem as mesmas. Mas há símbolos que, introduzidos em certezas aparentemente consolidadas, modificam profundamente seu significado. Um pequeno sinal pode transformar uma afirmação em inquietação e devolver movimento àquilo que parecia definitivamente estabelecido.
A afirmação nos ensina a reconhecer os limites da existência. A interrogação, porém, nos desafia a descobrir se esses limites são realmente nossos ou se apenas nos habituamos a viver dentro deles.
Afinal, somos tudo aquilo que nossas possibilidades nos permitiram ser ou nos tornamos apenas aquilo que tivemos coragem, conveniência ou resignação para alcançar?
Não se trata de negar as circunstâncias que nos condicionaram, tampouco de exigir de nós uma perfeição que a própria condição humana desconhece. Trata-se de reconhecer que nem todos os limites são definitivos, que nem toda convicção merece sobreviver e que nenhum equívoco precisa ser preservado apenas porque um dia fez parte de quem fomos.
E se somos quem podemos ser, que isso jamais nos sirva de desculpa para sermos menos do que ainda podemos nos tornar. Que a vida possa rever nossos caminhos, corrigir nossas ilusões e até reescrever algumas de nossas certezas, sem revogar aquilo que deveria permanecer como princípio fundamental de toda existência: a capacidade de reconhecer nossos erros, de nos transformar e de continuar acreditando que ser melhor é uma possibilidade que nunca deveríamos declarar encerrada.
Nesta manhã de outubro, compreendo que o tempo não me trouxe todas as respostas. Trouxe-me, porém, algo que talvez seja ainda mais precioso: a consciência de que certas perguntas precisam permanecer abertas para que a esperança não se transforme em acomodação.
Em 1988, a canção me dizia quem podemos ser.
Em 2026, diante da vida que passou, daquela que continua e da que floresce nos meus netos, ouso me impor uma interrogação.
Será que já sou tudo aquilo que ainda posso me tornar?
"Somos quem podemos ser" (Engenheiros do Havaii): https://www.youtube.com/watch?v=Dv6-2mOd0EY&list=RDDv6-2mOd0EY&start_radio=1