WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
MAGNO RIBEIRO
O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente
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A Manhã Recorda o Que a Noite Nunca Viveu

 

Era sonho, eu sei...
Mas havia nele uma verdade tão íntima
que, por instantes,
meu corpo esqueceu que dormia.

 

Talvez tenha sido Neruda,
lido antes de fechar os olhos,
quem ensinou à noite
a linguagem secreta do desejo.

 

Você chegou sem anunciar-se,
com os olhos cheios de mistério
e aquela delicadeza perigosa
de quem sabe despertar
o que repousa em silêncio.

 

Havia entre nós
a distância exata de um beijo
e a doce impaciência
de fazê-la desaparecer.

 

Minha mão encontrou seus cabelos,
meus dedos se perderam em sua nuca,
e sua presença, tão próxima,
fez do silêncio
uma forma de intimidade.

 

Quis descobrir o gosto da sua boca,
sentir o arrepio de um toque inesperado,
percorrer, sem pressa,
os caminhos invisíveis
que conduzem da ternura ao desejo.

 

E havia algo profundamente belo
na maneira como você se entregava
àquele instante sem tempo,
como se até nossos pensamentos
tivessem aprendido a se abraçar.

 

Tudo parecia tão real
que o próprio sonho
teve pudor de nos interromper.

 

Mas os sonhos mais bonitos
guardam uma pequena crueldade:
não sabem permanecer.

 

A manhã chegou
como se tivesse ciúmes
do que a noite me concedera.

 

E você se desfez,
deixando em meus sentidos
a estranha saudade
de algo que talvez
nem tivesse acontecido.

 

Pensei, então,
que o real, quando é belo,
pode ser maior que o sonho.

 

Porque o sonho sabe inventar encontros,
acender desejos adormecidos,
confundir a pele com a memória,
mas não conhece a eternidade
de um instante verdadeiramente vivido.

 

E, ainda assim,
havia naquele encontro
uma intimidade inexplicável,
como se você habitasse
um lugar em mim
que nem eu sabia existir.

 

Mas, ao despertar,
uma dúvida me percorreu
mais profundamente
que qualquer carícia.

 

Teria sido você
quem visitou meu sono?

 

Ou teria Neruda,
com suas palavras de fogo e ausência,
emprestado à minha imaginação
um rosto, um perfume,
uma boca que nunca beijei?

 

Talvez não houvesse lembrança.
Talvez não houvesse reencontro.
Talvez nem mesmo houvesse você
naquela noite.

 

Talvez eu apenas tenha adormecido
sobre um poema de Neruda
e acordado com a ilusão
de ter sido amado
por alguém que só existiu
enquanto eu sonhava.

 

MAGNO RIBEIRO
Enviado por MAGNO RIBEIRO em 11/10/2026
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