WITTEMBERGUE MAGNO RIBEIRO, MAGNO RIBEIRO
DEUS, NO LIMIAR DA MINHA DESCRENÇA
Uma prosa sobre a fé que vacila, o silêncio de Deus e a estranha impossibilidade de deixar de crer.
Há momentos em que a existência me recolhe para dentro de mim mesmo. Não são necessariamente momentos de tristeza, tampouco de desespero. São instantes em que o pensamento parece adquirir uma profundidade inconveniente, dessas que nos retiram da superfície confortável dos dias e nos colocam diante de perguntas para as quais nenhuma resposta parece suficientemente definitiva.
Nesses momentos, quase sempre silenciosos, surpreendo-me dirigindo ao infinito uma indagação que, embora antiga, nunca envelhece dentro de mim: - Você realmente existe?
E, como se a primeira pergunta não bastasse, outra se insinua, talvez ainda mais perturbadora: - Onde Você está agora?
Não faço essas perguntas com a insolência de quem pretende desafiar Deus. Faço-as com a inquietação de quem deseja encontrá-Lo. Talvez porque exista uma diferença imensa entre duvidar da existência de alguém e sofrer por não conseguir perceber a sua presença.
Há ausências que não negam a existência. Apenas tornam a saudade mais difícil de explicar.
Outro dia, provavelmente durante uma dessas rolagens distraídas pelas redes sociais, quando os dedos percorrem imagens e palavras mais depressa do que a alma consegue assimilá-las, vi e ouvi alguém dizer algo que me interrompeu por dentro.
Não me recordo quem falava. Tampouco sei precisar onde vi e ouvi. Mas algumas palavras têm essa curiosa capacidade de sobreviver ao esquecimento de quem as pronunciou.
A pessoa dizia, mais ou menos assim:
“Eu creio, quase não crendo, mas não consigo deixar de crer.”
E acrescentava:
“Eu opero quase no limite da descrença.”
Foi como ouvir alguém pronunciar, em voz alta, uma confissão que eu próprio jamais havia conseguido organizar.
Identifiquei-me profundamente.
Porque há dias em que minha fé não se parece com uma certeza luminosa. Parece-se mais com uma pequena chama resistindo ao vento. Não ilumina tudo, não dissipa todas as sombras, não responde a todas as perguntas. Mas permanece.
E talvez seja justamente essa permanência, apesar de tudo, uma das manifestações mais honestas da fé.
Aquela pessoa ainda dizia algo que me acompanhou desde então: “a fé, muitas vezes, amadurece na própria experiência de sua ausência”.
Fiquei pensando nisso.
Talvez a fé não amadureça apenas quando Deus parece próximo, quando as orações encontram respostas, quando a vida oferece sinais generosos de alguma providência. Talvez ela alcance sua expressão mais profunda justamente quando nada parece confirmar aquilo em que insistimos acreditar.
Porque acreditar quando tudo confirma a crença pode ser apenas uma consequência natural das evidências. Mas continuar acreditando quando a alma já não encontra evidências suficientes talvez seja um dos mais desconcertantes exercícios da condição humana.
A fé, afinal, não é necessariamente a ausência de dúvida. Pode ser a coragem de permanecer diante dela sem transformar o silêncio em sentença.
E há uma ironia quase filosófica nisso: às vezes, quanto mais procuro compreender Deus, mais percebo a insuficiência dos meus instrumentos para compreendê-Lo.
Quero submetê-Lo à lógica das minhas perguntas, à urgência das minhas necessidades, à estreiteza das minhas expectativas. Quero que o eterno se explique dentro do tempo. Que o infinito caiba nas medidas do meu entendimento. Que o mistério se comporte como uma resposta.
E, quando isso não acontece, sou tentado a chamar de ausência aquilo que talvez seja apenas a minha incapacidade de perceber.
Mas, em algumas dessas ocasiões, quando minha quase descrença ameaça transformar-se em desalento, uma percepção começa a dissipar a névoa.
Talvez eu esteja procurando Deus exclusivamente onde imaginei que Ele deveria estar, enquanto deixo de reconhecê-Lo onde Ele também escolhe manifestar-se.
Penso, então, que Deus pode estar precisamente onde estou agora. E onde está você, que me lê. Não necessariamente como uma aparição extraordinária, uma voz descendo do céu ou uma intervenção capaz de suspender as leis da natureza. Mas como uma presença que atravessa a nossa humanidade e, sem deixar de ser divina, encontra nela uma maneira de alcançar o outro.
Quando nos fazemos presentes na vida de alguém cuja solidão já deixou de ser silêncio e se transformou em amargura; quando oferecemos companhia a quem se habituou à dolorosa sensação de não fazer falta a ninguém; quando permanecemos ao lado de quem já não suporta o peso de estar sozinho, talvez ali Deus esteja revelando algo de Sua onipresença.
Não porque nossa presença possa substituir a d'Ele, mas porque, através de nós, Sua presença pode tornar-se sensível a alguém que já não conseguia percebê-La. E então compreendo que, por vezes, o infinito se deixa encontrar na simplicidade de uma cadeira aproximada de outra.
Penso também naqueles momentos em que ajudamos alguém sem sequer conhecer a extensão da necessidade que carregava. Quando oferecemos pão sem saber há quantos dias a fome visitava aquela casa. Quando pronunciamos uma palavra de esperança ignorando que, do outro lado, alguém estava perigosamente próximo de desistir. Quando fazemos um gesto aparentemente pequeno e, sem perceber, alcançamos uma dor que nunca nos foi confessada.
Talvez ali Deus manifeste algo de Sua onisciência.
Não porque passemos a conhecer o que somente Ele conhece, mas porque, mesmo ignorando a profundidade da necessidade alheia, podemos ser conduzidos a oferecer precisamente aquilo que faltava.
Nós desconhecíamos a pergunta. Mas, de alguma maneira, fomos portadores de uma resposta.
E há ainda aqueles encontros em que a fragilidade de alguém encontra, nas forças que nos foram concedidas, uma possibilidade de transformação.
Quando nossas mãos ajudam a reconstruir o que parecia definitivamente perdido. Quando nossa coragem sustenta alguém que já não consegue permanecer de pé. Quando nossa intervenção modifica uma circunstância, interrompe uma injustiça, restitui uma oportunidade ou altera o curso de um destino que parecia condenado à repetição do sofrimento.
Talvez ali se deixe entrever algo da onipotência divina.
Não porque nos tornemos todo-poderosos, mas porque o poder de Deus também pode operar através da limitada força humana, realizando, por intermédio dela, aquilo que para alguém parecia impossível.
E essa percepção me comove.
Porque começo a compreender que os atributos divinos não precisam ser diminuídos para se manifestarem na pequenez humana. Ao contrário: talvez seja precisamente nessa desproporção entre a grandeza de Deus e a fragilidade dos Seus instrumentos que resida uma das mais belas expressões do sagrado.
Deus não se torna menos Deus quando age através de nós.
Ele continua sendo Deus quando a Sua presença chega por meio de um abraço, quando o Seu conhecimento alcança uma necessidade através da nossa sensibilidade e quando o Seu poder transforma uma vida utilizando as nossas mãos.
E, no entanto, seria uma pretensão igualmente ingênua imaginar que tudo depende da nossa disposição de servi-Lo.
Há sofrimentos aos quais não conseguimos chegar. Há enfermidades diante das quais nossas mãos permanecem impotentes. Há dores que nenhuma palavra consola, vazios que nenhuma companhia preenche e circunstâncias que resistem a todos os nossos esforços.
Há momentos em que nem mesmo o melhor de nós é suficiente.
E talvez seja aí que o mistério volte a reivindicar o seu lugar.
Porque, se Deus pode manifestar-se através do humano, não está aprisionado aos limites da humanidade.
Quando nossa presença não alcança, Ele ainda pode alcançar. Quando nosso conhecimento termina, o Seu não encontra fronteiras. Quando nossas forças se esgotam, Sua possibilidade de agir não se esgota conosco.
É o espaço do sobrenatural.
Não como uma explicação fácil para aquilo que não compreendemos, nem como a promessa de que todo sofrimento será interrompido segundo a nossa vontade. Mas como o reconhecimento de que a realidade talvez não termine onde terminam nossas possibilidades.
E, curiosamente, é nesse ponto que minha fé, tão próxima da descrença, encontra algum repouso.
Não porque eu tenha resolvido o problema filosófico da existência de Deus. Não porque tenha encontrado uma demonstração irrefutável capaz de encerrar séculos de inquietação humana.
Mas porque comecei a desconfiar de que a pergunta “Onde está Deus?” talvez esteja incompleta enquanto eu não tiver coragem de perguntar também: “Onde tenho permitido que Deus esteja através de mim?”
Isso não elimina o mistério. Talvez até o aprofunde.
Afinal, se Deus pode tornar-se perceptível através da nossa capacidade de amar, também precisamos admitir a inquietante possibilidade de que muitas das ausências que atribuímos a Ele sejam, em alguma medida, ausências nossas.
Quantas vezes alguém pediu a Deus uma presença, enquanto nós, podendo permanecer, fomos embora? Quantas vezes alguém suplicou por pão, enquanto nossas mãos, que poderiam repartir, permaneceram fechadas? Quantas vezes alguém esperou uma intervenção divina, enquanto nós, tendo alguma possibilidade de agir, escolhemos a comodidade da indiferença?
Talvez não devamos atribuir a Deus a responsabilidade por todos os silêncios que a nossa própria omissão ajudou a produzir.
E isso me conduz a uma conclusão ao mesmo tempo consoladora e exigente: crer em Deus não pode significar apenas esperar que Ele se manifeste. Deve significar também aceitar a responsabilidade de não impedir, pela nossa indiferença, que algo de Sua bondade se manifeste através de nós.
Hoje, por alguma razão que talvez eu mesmo não saiba explicar, desejei trazer essas inquietações à minha escrivaninha. Sentei-me diante das palavras para escrever sobre o Criador de mim.
Sobre Aquele cuja inexistência me parece, no mais profundo da minha consciência, quase impossível de conceber, mas de cuja presença, paradoxalmente, sou capaz de duvidar.
É uma contradição que carrego.
Creio na impossibilidade de Sua inexistência e, ainda assim, por vezes me descubro descrente.
Talvez porque eu seja excessivamente humano. Porque minha compreensão é pequena, minha percepção é limitada e minha fé, apesar de sincera, nem sempre consegue ultrapassar os limites das minhas próprias circunstâncias.
Ou, mais provavelmente, porque procuro em Deus uma constância que eu mesmo não consigo oferecer a Ele.
Quero Sua presença ininterrupta, mas nem sempre me faço presente. Quero compreender Seus caminhos, mas tantas vezes me recuso a caminhar na direção de quem precisa. Quero reconhecer Seu poder, mas hesito em oferecer as poucas forças que possuo. Quero sinais inequívocos de Sua existência, enquanto talvez ignore os discretos convites para tornar Sua existência perceptível na vida de alguém.
E então percebo que minha quase descrença talvez diga menos sobre Deus do que sobre mim. Sobre minhas limitações, minhas ausências, minha dificuldade de reconhecer o extraordinário escondido no ordinário.
Não sei se algum dia deixarei de perguntar: “Você realmente existe?” ou “Onde Você está agora?”.
Talvez essas perguntas me acompanhem até o último instante da minha existência.
Mas começo a aceitar que nem toda pergunta precisa morrer para que a fé continue viva. Há perguntas que não são inimigas da crença. São a maneira pela qual uma alma se recusa a desistir de procurar.
E, se um dia eu não conseguir perceber Deus no silêncio do universo, que ao menos não deixe de reconhecê-Lo no rosto de quem necessita de mim. Que minha dúvida não me torne indiferente. Que minha fragilidade não me impeça de servir. Que minha incapacidade de compreender o céu não me faça esquecer as responsabilidades que tenho sobre a terra.
Porque talvez a fé mais profunda não seja aquela que nunca vacila, mas aquela que, mesmo vacilando, continua produzindo amor.
Talvez eu jamais consiga provar a mim mesmo, de maneira definitiva, aquilo que minha alma insiste em considerar verdadeiro. Mas anseio poder viver de tal forma que alguém, depois de encontrar-se comigo, tenha um motivo a menos para duvidar da bondade de Deus.
E, se nem isso me for possível, ainda me restará confiar que Ele não depende da suficiência dos meus gestos, da firmeza da minha crença ou da clareza do meu entendimento para continuar sendo quem é.
No fim, talvez o maior mistério não seja o fato de eu continuar acreditando em Deus mesmo quando quase não creio. Talvez seja o fato de que, mesmo quando minha fé já não consegue alcançá-Lo, ainda me seja possível descobrir que Ele nunca deixou de alcançar-me.
E, quem sabe, seja essa a resposta que venho procurando há tanto tempo:
Não a de um Deus que precise provar continuamente Sua existência para satisfazer minhas dúvidas, mas a de um Deus cuja presença me convoca a existir de maneira menos indiferente diante da existência dos outros.
Porque, se há algo de divino em nós, é a possibilidade de que, apesar de tudo o que nos falta, Deus ainda encontre em nós um lugar por onde passar.
E hoje, nesta escrivaninha, entre a minha fé imperfeita e a minha quase descrença, termino reconhecendo uma verdade que me inquieta tanto quanto me consola: talvez eu passe a vida perguntando a Deus onde Ele está, enquanto Ele, silenciosamente, me pergunta onde estou eu.